O Pacto das Trevas: Fortaleza – Parte 5

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Opala

O enterro foi rápido e discreto. Não houve ritual religioso, apenas a despedida muda de uma família aliviada por se ver livre de um enorme embaraço.

A avó abraçou o neto, o avô deu-lhe tapinhas nas costas. Não houve lágrimas, gemidos ou dor aparente. Era apenas alguém muito malquisto deixando este plano de existência.

Os avós foram embora, o velho ainda dirigindo, a velha tentando não demonstrar o peso que havia sido retirado das costas na frente de Miguel.

Angélica sorriu, os dentes brancos e perfeitos. Apesar de todo o dano que haviam causado ao garoto, ainda assim fizeram um bom trabalho protegendo-o, apoiando-o, mantendo-o fora do radar. Afinal, quem sabia que aquele rapaz era filho do grande João Miguel Antunes?

Foi então que ela viu a mulher de preto sob a árvore, e murmurou dois encantamentos de afastar. Deveria ser o suficiente para manter a Colônia distante.

— Em plena luz do dia! — ela disse.

— O quê?

Ela o acalmou sussurrando “Nada, nada”, dando-lhe tapinhas amigáveis em seu braço. Miguel era alto e bonito, embora estivesse fora de forma. Lembrava o pai na aparência, mas tinha o mesmo senso observador da mãe, um distanciamento, uma frieza. Era menos impulsivo, mas compensava isso com a ansiedade que nasce de do excesso de pensar.

Ele não sorria. Como era sério! Talvez para mascarar uma insegurança que o pai, em seu tempo, escondia sob sorrisos e piadas sarcásticas.

— Onde está o corpo do meu pai?

A pergunta não a pegou desprevenida, mas viera cedo demais. Como ele percebera?

— Como assim, Miguel? — ela disse, um sorriso no rosto.

— Este homem dentro do caixão. Não é ele.

Ela soltou o braço do dele, arregalou os olhos e colocou as mãos na cintura.

— Você está insinuando…?

Os olhos dele eram duros enquanto trincava os dentes. O corpo todo tornou-se uma fibra única, rígida e aguda. Pura ameaça, selvageria e fome. Definitivamente, ele era como a mãe. O pai dele jamais demonstraria sua raiva assim.

— Não estou insinuando, mulher. Este homem que vocês enterraram não é meu pai.

Ela relaxou e desfez a máscara. Não adiantava mentir, não agora. Era hora de dizer todas as verdades que ele pudesse aguentar.

— Explico quando chegarmos em casa, Miguel.

— Por que não agora?

Angélica apontou para uma parte distante do cemitério. Uma árvore, e uma mulher vestida de preto, sob um enorme guarda-chuva. Mas ela parecia alheia.

— Não estamos sozinhos. Ei, não olhe demais. Ela não pode perceber que a vimos.

— Quem é?

— Não importa. Estamos sob trégua, mas não podemos abusar.

Ele suspirou. Tirava forças e disciplina de uma fonte que não entendia, mas acessava isso de maneira instintiva. Interessante.

Temeroso, também, pois o instinto falha.

— Então vamos para casa — ele disse.

*

Samuel permaneceu no carro enquanto eles entravam. Brum continuou na casinha, como se fosse um filhote obediente.

Angélica foi até a cozinha enquanto Miguel tomava banho. Só havia água na geladeira, e ela bebeu. Sentou-se à mesa e lembrou das várias vezes em que estivera ali, comendo com eles, vendo a barriga de Sofia crescer, e como ela ficou ainda mais bonita enquanto o pequeno Miguel se aproximava. Ela a invejou, então, pela capacidade de gerar vida, e de ser amada de maneira tão intensa por um dos homens mais dignos que jamais conhecera. Nem Salomão, com toda sua riqueza e sabedoria, comparava-se à retidão de caráter de João Miguel.

O rapaz saiu do banheiro, e ela o ouviu no quarto. Sem dúvidas, ele era material de qualidade, mas precisava ser lapidado com cautela. Muitas fragilidades… Uma gema trincada. Havia luz, mas suas trevas tornavam-no muito atraente para o outro lado.

Se o pai era um diamante cristalino, e a mãe um pedaço afiado de obsidiana, o filho era uma opala nebulosa.

— Fale — disse ele, sentando à mesa.

— Aqui não. Vamos para a sala.

*

No sofá, ela acendeu um cigarro, e ele não se incomodou.

— Meu nome é Angélica.

Ele fez que sim, concentrado, a mão enfaixada descansando sobre a perna. Continue, diziam seus olhos.

— Não posso te contar tudo ainda, mas posso te dizer o que eu faço. Quem somos.

Ele se recostou no sofá e sorriu. Um sorriso duro, forçado, afiado.

— Estou esperando.

— Não, não está. Sua frieza fabricada não é suficiente. Você é um descrente, e tudo o que eu disser vai parecer insanidade.

— Experimente — ele disse, e a condescendência foi como um tapa.

Ela pulou sobre ele, dessa vez sem controle algum. Se este vaso era defeituoso, ela o destruiria, e evitaria uma série de consequências desagradáveis. Havia outros. Nenhum tão bom quanto ele, claro, mas bons o suficiente. Garotos que vinham sendo disciplinados de tal maneira que o Credo era respeitado e nunca, nunca questionado.

Mas não, nada nunca é fácil. O melhor espécime tinha de ser um homem fora da idade de treinamento, covarde, mimado, teimoso e cético! A única solução que restava era o choque.

Ela o mordeu no pescoço, a mordida clássica. O sangue que vinha dali era ruim, pesado, sujo, mas serviria.

Miguel gritou, mas logo ficou paralisado. Ela sabia a sensação: a ligação era violenta e invasiva. As memórias se misturavam, mas logo as lembranças do mais forte prevaleciam, e o efeito que se pretendia era impresso. E então ou o vaso era destruído, ou amolecia o suficiente para ser moldado.

Qual dos dois seria você, Miguel, quando isso tudo terminasse?

*

Ela limpou os lábios com um lenço branco, que absorveu o sangue mas não ficou manchado. Tinha agora a aparência de uma mulher jovem e madura, e sentia-se assim também. Há quanto tempo não fazia isso?

Miguel jazia no chão, a respiração lenta e compassada. Ela explicara tudo o que podia para ele, um jorro violento de imagens, sons, cheiros, sabores e texturas. Mas nem todo mundo conseguia lidar direito com a questão do tempo, as enormes abóbadas das eras pesando de repente em suas psiques limitadas, esmagando o ego, destruindo as pequenas certezas.

Ele abriu os olhos e ficou parado, esticado, em silêncio. Após alguns minutos, olhou para a mão desenfaixada como se a visse pela primeira vez. Tocou o rosto, os cabelos, o pescoço – e não havia nenhum ferimento ali.

Arrastou-se até o sofá, sentou-se de cabeça baixa e suspirou.

— Um pouco de água — ele disse, a voz miúda.

Angélica deu-lhe um copo, e ele bebeu sem demora.

— Você está diferente, Angélica.

Ela sorriu.

— Você também.

Ele era o vaso moldável, agora. As fissuras, porém, estavam ainda mais instáveis. Depois do choque, era necessária a carícia, a cura. Ela não era boa em curar. Mas é preciso fazer o que é preciso fazer.

— Miguel — disse ela, sentando ao lado dele no sofá, segurando sua mão enfaixada. — Você não precisa mais disso.

Ele ficou em silêncio enquanto ela desenrolava o curativo desajeitado e sujo de sangue. E já não havia mais nada além de uma longa linha branca atravessando a palma.

— O que é você?

— Eu sou algo que a humanidade nunca soube reconhecer — ela disse.

— Eu sou um vampiro agora?

Ela riu.

— Criança tola! Eu não sou isso.

— Você me atacou.

— Era preciso. Sua mente precisava ser quebrada.

— Esmagar o ego — ele disse, e ela sorriu. — Eu acredito. Acho que deu certo o seu objetivo. Eu me sinto… diferente. Vazio.

— Só podemos encher o que está vazio. Se eu tivesse mais tempo, teria te esvaziado aos poucos. Mas…

— O que é o Pacto?

Mais uma mostra da força dele. Vira através das defesas dela, mesmo sem saber o que fazia.

— É cedo para saber disso. Já disse que contarei o que precisa saber.

Ele fez que sim. Logo a letargia passaria, e ele se tornaria resistente. Mas seria justo com ele, influenciá-lo assim, enquanto estava suscetível? Não seria melhor amarrar seus instintos à racionalidade fria, e usá-lo como uma espada afiada, em vez de uma clava? Deveria ela ter respeito por sua força e não o subestimar?

Um último teste, então.

— Abra o diário de seu pai, Miguel. Depois disso contarei o que houve com o corpo dele, e as outras coisas que precisará saber.

Sem hesitar, ele abriu a pasta e pegou o caderno escuro encapado em couro. Pronto, Miguel, não haverá mais enrolação.

Ele abriu o diário, e tudo ficou escuro.

Nativo de um século analógico, fã de literatura de FC e Horror. Contista e poeta, escreve por necessidade. Músico e fotógrafo amador, acredita que a beleza do mundo reside no fato de não haver sentido (ou segredo) algum.

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Michel Euclides

Nativo de um século analógico, fã de literatura de FC e Horror. Contista e poeta, escreve por necessidade. Músico e fotógrafo amador, acredita que a beleza do mundo reside no fato de não haver sentido (ou segredo) algum.