Pureza, panturrilha e paróquia

Todo mundo em Aracati conhece o Valdemiro. Porém, caso algum forasteiro desavisado pergunte por ele, dará com os burros n’água. Nenhum aracatiense chama Valdemiro por seu nome de batismo. O correto é Valdo Pureza.

Não se sabe quando Valdemiro recebeu a alcunha, mas é certo que já criança era assim chamado pelos coleguinhas, pela tia da escola e até pela família. Consta “Valdo Pureza da Silva” em seu diploma da alfabetização, único documento que possui além da certidão de nascimento e da carteira de identidade. Aliás, o funcionário da repartição quase não aceita tirar o RG de Valdo Pureza, duvidando da autenticidade da certidão. Precisou tomar bronca do chefe.

— Porra, Oliveira! Tu acha que o Valdo Pureza ia mentir?

Como o apelido sugere, Valdo Pureza é a pessoa mais pura de Aracati, quiçá do Brasil (só não tenho segurança para afirmar que é a mais pura do mundo porque existem os canadenses). Ele nunca mentiu, nunca trapaceou, nunca traiu, nunca errou.

Quando Valdo Pureza nasceu, tratou logo de segurar o choro até que a parteira desferisse a palmada. Algo lhe dizia que seria errado abrir o berreiro sem motivo. Quase morre de desnutrição, inclusive, pois nunca chorava quando sentia fome. Como resultado, cresceu um tanto franzino.

Valdo Pureza nunca casou. Não que não quisesse companhia; o problema é que, junto com as paixões, vinham pensamentos libidinosos que eram quase impossíveis de evitar. Ele achava um tremendo desrespeito para com as mulheres. Na adolescência, enamorou-se pela filha do dono da mercearia, Auricélia. Era difícil vê-la e não desejar seu corpo em trajes sumários, ou ainda se imaginar tocando de leve aqueles tornozelos grossos, aquelas panturrilhas macias. Um dia, chupando manga enquanto observava Auricélia pesar o feijão, os pensamentos de Valdo Pureza saíram tanto de controle que ele tomou duas decisões: reprimir para sempre aqueles desejos e nunca mais chupar manga.

Valdo Pureza nunca teve amigos. Na verdade, a maioria dos aracatienses sente uma inexplicável ojeriza quando o vê. Mesmo Valdo sendo sempre muito gentil, sua presença causa inquietude e desconfiança. Nem sua família o aceita. No último natal ao qual compareceu, há dez anos, Valdo Pureza deu o melhor presente no amigo secreto, repartiu o peru com precisão milimétrica e ainda se ofereceu a cuidar das crianças na hora da ceia. Desde então, na véspera de qualquer encontro familiar, sempre dão a Valdo Pureza algum endereço errado. Ele até desconfiou quando certa vez lhe passaram o endereço do cemitério. Quis ir à casa da mãe, mas achou errado pensar mal dos parentes e ficou lá sentado numa tumba, esperando, até o coveiro enxotá-lo.

A única pessoa com quem Valdo Pureza conversava era o velho pároco, também o único que o chamava de Valdemiro (quando a sós, claro). O pároco tinha tanta admiração por Valdo Pureza que sempre o citava nos sermões.

— Devemos evitar o álcool, o tabagismo, o jogo. Vejam o exemplo de Valdemi… Valdo Pureza, sentado aqui na frente. Um homem sem nenhum vício, feliz, realizado, seguindo os ensinamentos de nosso Senhor.

O pároco só deixou de falar em Valdo Pureza quando os fiéis começaram a rarear nas missas. Diante do número crescente de lugares vazios, obrigou-se a evitar o exemplo perfeito para todos os sermões. Os fiéis voltaram.

A amizade entre os dois só acabou quando o pároco matou um leitão e chamou Valdo Pureza para jantar, convite aceito somente após muita insistência. À mesa, Valdemiro pouco comeu, mas perguntou, antes de sair, se poderia guardar um pouco do leitão na tupperware. O pároco riu:

— Ah, meu filho, sabia que você tinha alguma fraqueza! Passou a noite sem comer por educação, mas vai levar a marmitinha pra se esbaldar em casa, hein?

— Não é isso, padre. Tem um mendigo ali na esquina que…

Foi demais até para o pároco: Valdo Pureza foi expulso aos palavrões.

O resto do leitão foi pro lixo.


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Editor geral do Escambau, administrador por profissão e escritor por necessidade. Escreve às terças-feiras.

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Editor geral do Escambau, administrador por profissão e escritor por necessidade. Escreve às terças-feiras.

  • Claudia Jeveaux Fim

    Vamos combinar que pureza demais é dureza de aguentar, né? 🙂 Adorei!!!

  • Angela Cristina

    Muito bom.
    Parabéns!
    Uma dúvida, certeza de que os canadenses são assim?
    🙂 😉