A gente precisa ver o luar

O avô olhava para o neto com carinho, tristeza e decepção. Essa nova geração jamais entenderia o prazer de correr pela floresta, sentir o cheiro de terra molhada, caçar… eram escravos de seus eletrônicos, saturados de informação, totalmente desconectados da natureza.

— Pedro?

— Oi, vô — disse o garoto, sem levantar os olhos da tela do enorme aparelho que tinha em mãos.

— Solta esse celular um pouquinho, vem ver o pôr do sol com o vô, vem?

Pedro levantou os olhos para o avô e seus lábios fizeram um arco para baixo. Quadrado, ultrapassado, batido. Aquele velho cansado, de pele escura e olhos embaçados… a imagem da morte.

— Vô, não tenho tempo para isso não.

O velho levantou com dificuldade da cadeira, os joelhos e quadril estalando. Um gemido de dor e uma risada saíram juntos da boca do idoso, mas o jovem não reparou. Já havia apagado seu avô da existência quando colocou os fones de ouvido.

*

— Ele não gosta de mim, meu filho — disse o velho. Seu filho, pai de Pedro, estava diante do computador, dando pancadas na mesa a cada vez que a internet caía.

— Pai, podemos conversar outra hora? Estou meio ocupado aqui…

— Mas filho, preciso que você mês escute…

O homem mais jovem jogou a cadeira para trás e ficou de pé. O velho arregalou os olhos e se afastou.

— Olha pai — disse ele, passando a mão pelos cabelos que começavam a ficar brancos —, desculpa. Estou nervoso, preciso fechar essa conferência, a internet está ruim, os números não batem… podemos deixar essa conversa para depois do jantar? Prometo que falo com o Pedro. E garanto que ele vai pedir desculpas.

Havia lágrimas nos olhos do velho quando ele se afastou sem dizer nada.

*

Seu Pedro entrou no quarto escuro e o cheiro familiar de sua velha ardeu em suas narinas.

— Tem dias que a saudade é quase um buraco sem fundo, Magnólia — disse ele, aproximando-se da estante de madeira e apanhando uma moldura com a foto em preto e branco de um jovem casal. — E mesmo nosso filho e o menino que leva meu nome não me toleram. Em que foi que eu me tornei, hein? Por que eu tive de abrir mão de tudo o que eu tinha?

A jovem na foto não respondeu, e Seu Pedro começou a chorar. Mas seus soluços e suspiros eram baixos e discretos, pois não queria alarmar o que restara de sua família. O que iriam dizer? Um velho chorão, carente, precisa ser internado. Um incapaz!

Ele enxugou os olhos na manga da camisa, respirou fundo e sentou na cama. Todo o vazio que sua Magnólia deixara juntou-se ao desprezo do filho e do neto, e foi se transformando em uma bola negra e densa que pesava cada vez mais dentro de seu peito.

— Eu sei que não posso me deixar dominar pelo ódio e pelo desespero, Magnólia… mas é tão difícil! E a vontade continua crescendo…

Ele levantou mais uma vez, as articulações estalando, e colocou o porta retrato sobre a estante.

Precisava tentar conversar com o filho mais uma vez. Talvez houvesse ali algo de sua Magnólia, um pouco de sua luz que passara através do sangue como uma herança, um tesouro escondido.

Tentaria mais uma vez.

*

— Filho…

— Pai, eu já disse que agora não posso! Que droga, seu velho caduco, você não entende mais o que eu di…

Ele pulou sobre o filho com as mãos em garra, derrubando-0 no chão. A cabeça do homem mais jovem bateu com força na madeira, fazendo um barulho molhado de quebrar.

Ele bateu a cabeça do filho no chão com mais força. Uma, duas, três vezes, e agora o crânio deformado batia e escorregava de lado na crescente poça de sangue que se espalhava sob seu corpo inerte.

Seu Pedro riu, e seu riso pareceu um grito.

Sem demora, ele avançou com os dentes sobre a garganta do filho.

*

Mesmo com os fones, Pedro Neto ouviu o grito que veio de dentro da casa. Algo dentro dele se mexeu e eriçou seus pelos. Será que havia alguma coisa errada com seu avô?

*

O garoto entrou na sala e viu um enorme (lobo? cachorro? urso?) monstro comendo as entranhas de seu pai. A cabeça dele, decepada de maneira grosseira, havia rolado para debaixo da mesa, deixando um rastro vermelho e pegajoso.

Pedro Neto ficou paralisado. O cheiro de sangue entrava pelos poros, pelos olhos, pela língua.

A coisa de pelagem cinzenta grunhia enquanto mastigava algo que estalava em seus dentes. A reverberação daquele ronronar fazia com que seu tórax vibrasse até quase explodir.

— P… pai?

A coisa virou para ele, os olhos amarelos e a íris negra fitando-o com selvageria.

Fome.

Pedro Neto tentou andar, mas sentiu um líquido quente escorrendo pelas calças. Suas pernas fraquejaram, e ele caiu sentado.

O monstro de pelagem grisalha largou seu pai. Suas garras faziam um barulho seco contra o chão de madeira, e Pedro Neto teve vontade de rir.

*

A coisa veio devagar, uma pata diante da outra, o som de arranhar de suas garras contra o chão ficando mais alto. Pedro Neto tentou se afastar sentado, mas deu com a parede às suas costas.

A coisa grunhiu mais uma vez (uma risada?), arreganhando os dentes, a longa língua chata pingando sangue. Nessa hora, Pedro Neto tentou rezar, mas não conseguiu lembrar de nenhuma oração.

O monstro chegou mais perto, aproximando a bocarra dos ouvidos do garoto. Pedro Neto vomitou quando sentiu o bafo fétido da criatura.

Um grunhido rouco e baixo fez o corpo do jovem vibrar e quase o deixou surdo. A coisa abriu e fechou a boca com um forte estalo úmido, e Pedro Neto sujou as calças.

— Ei — disse o monstro, a voz rouca e profunda reverberando pelo silêncio da casa, as palavras saindo sem clareza através dos dentes do tamanho de dedos. — Não deu para ver o pôr do sol com o vovô, não é?

Aquela coisa…?

— Vô?

A mão (garra) peluda agarrou o garoto pelo pé, e ele gritou. O monstro de pelo cinza começou a arrastá-lo para fora de casa. Pedro Neto se debatia, mas nada o libertaria daquele aperto.

O jovem desmaiou, e a coisa-avô riu.

— Não durma, meu netinho — disse ele, a voz pastosa e grave. — A gente precisa ver o luar!

 

Nativo de um século analógico, fã de literatura de FC e Horror. Contista e poeta, escreve por necessidade. Músico e fotógrafo amador, acredita que a beleza do mundo reside no fato de não haver sentido (ou segredo) algum.

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Michel Euclides

Nativo de um século analógico, fã de literatura de FC e Horror. Contista e poeta, escreve por necessidade. Músico e fotógrafo amador, acredita que a beleza do mundo reside no fato de não haver sentido (ou segredo) algum.

  • Claudia Jeveaux Fim

    Uau! E eu sentindo uma pena absurda do velho!!! Fantástico!

  • Angela Cristina

    Que virada. eu também estava condoída com o velho Pedro até que…
    Muito bom!

  • Moacir de Souza Filho

    MINHA NOSSA SENHORA QUE TEXTO INACREDITÁVEL DE TÃO FOOOODA!

    O final, então…

    É um libelo sobre gerofobia, ao mesmo tempo que constrói um horror pungente que pega a gente com as calças na mão. Eu tomei um susto quando o homem avança sobre o filho, confesso.