O sonho do batismo

Era um campo. Grama verde e muitas flores. A brisa refrescava a fronte da Sonhante ,que sentia que estava em um lugar calmo e tranquilo. A paz reinava ali. O odor primaveril elevou o seu ânimo a tal ponto que ela sentia levitar a cada passo. Percebeu que se aproximavam dela três crianças: duas meninas e um menino. Estavam alegres de ver a Sonhante. Antes que percebessem, ela tomou a forma de uma criança também e se pôs a brincar com eles, mesmo sem ter sido convidada. O grupo não se importou e logo aceitou a novata pelo seu espírito aventureiro.

As crianças rodavam em uma ciranda que parecia não ter mais fim. Ouviam-se as risadas, a energia do movimento, tudo era vivo. Elas se deslocaram do campo para um outro lugar. Uma colina cujo término era uma parede de terra que indicava que o grupo se encontrava aos pés de uma depressão montanhosa.

O tempo passou depressa e eles nem viram, pois estavam mergulhados um no outro. Provável de que aquilo durasse a eternidade se a Sonhante não tivesse que acordar. Ao pensar nisso, ela viu um Ser despontando no horizonte. Usava uma capa negra. Ela não conseguia ver suas mãos ou seus pés. Ela sabia que tinha alguém vestindo a capa, mas não via o seu interior.

As três crianças foram ao seu encontro. Elas se mostravam exultantes de terem encontrado a Sonhante e de terem passado tanto tempo com ela. Contaram as rodas que fizeram e como tinham chegado ali. O Ser, porém, não contribuiu para a propagação de tal sentimento. Ele disse que a Sonhante não era como eles. Ela não deveria estar ali. Eles não deveriam tê-la trazido para aquele local.

As crianças ficaram tristes de imediato. Queriam que ela ficasse. Mas o Ser não deixou. As crianças foram duramente repreendidas e aquele Ser agora seria obrigado a levá-la ao “seu local de origem”. As crianças choraram e a própria Sonhante pediu para que ela pudesse ficar. Tinha gostado de seus novos amigos. Nunca se divertira tanto. Uma voz ecoou daquele Ser dizendo que ela não era como eles. Ela era diferente e por isso não poderia mais ficar lá. Não deveria voltar sem autorização dele novamente. Mas a verdade é que ela nem sabia como tinha ido parar lá. Não saberia fazer o caminho de volta e, no fundo, nem queria. Ela queria continuar onde estava.

O Ser então explicou que, quanto mais tempo ela passasse naquele lugar, mais ela esqueceria de onde tinha vindo e mais difícil seria o regresso. O Ser lembrou do seu pai e da sua mãe e como eles sentiriam a sua falta, caso ela não retornasse para casa. Ela achou que isso era uma redundância. Ela sabia que aquilo era um sonho e que poderia acordar quando quisesse. Para provar sua consciência, ela se concentrou e tentou acordar. Não conseguiu.

Ela estranhou o acontecido. Era a primeira vez que ela tinha noção do que estava acontecendo e não tinha força para despertar. Tentou novamente, tendo o mesmo resultado. Nesse momento, uma das meninas mencionou que talvez fosse o destino da Sonhante ter se encontrado com eles para não os deixar mais sozinhos. “Ninguém fica aqui com a gente”. A preocupação instalou-se no coração da Sonhante, que agora estava sob a sua forma de mulher. Ela não queria mais ser criança. Ela queria e precisava voltar para casa antes que fosse tarde demais.

O Ser então ofereceu a mão e a guiou para um local novo. As crianças foram junto, preparando-se para a despedida. O local era frio, com paredes de mármore liso negro e verde. Lá existiam várias banheiras de mármore da mesma cor. As banheiras estavam cheias de água transparente, mas o fundo daquele banho era a escuridão da noite. A Sonhante se assustou com o local e o Ser tentou tranquilizá-la. Disse que ele a manteria protegida. Tudo o que ela precisaria fazer era se lembrar de continuar respirando e pensar em acordar. O comando era claro e parecia óbvio, logo ela não entendia porque o medo crescia em seu peito.

O Ser passou a mão esquerda por cima dos olhos dela e pediu que ela os deixasse fechados. “Será mais fácil fazer a travessia assim”. Ela obedeceu e ele a carregou no colo. Aos poucos, ele a  colocou dentro da banheira. Ela sentiu a água cortante na pele: frio extremo. A respiração ficava mais difícil, mas ele tentou acalmá-la dizendo para se concentrar e que tudo acabaria logo.

Mas a Sonhante era curiosa e precisava ver aquele último mistério. Quando ela sentiu que a água cobria o seu rosto, abriu seus olhos para ver a face daquele que a mergulhava. O gelo da água a arrepiou menos do que a imagem captada: o Ser não tinha olhos, nem nariz, nem boca, nem qualquer outro componente pertencente a um rosto a não ser o formato do mesmo. O pânico veio quando ela ouviu a voz dele reverberar na água da banheira, mesmo ele não tendo uma boca que se mexesse: Volte! Volte! Volte!

Ela tentava respirar, mas não conseguia. Não por causa da água, mas pela intensidade do frio. Sentia como se seus pulmões estivessem congelados. Ela se lembrava do comando e ouvia a ordem dele, sentia seus braços ainda embaixo dela como se estivessem lhe segurando do afogamento certo. A repetição começou a martelar seu inconsciente com imagens de outros sonhos que ela já tinha vivido, até que tudo ficou negro de repente e ela mergulhou na imensidão da noite.

A Sonhante acordou num susto, quase sem ar. O retorno tinha sido abrupto e a angústia da cena fora tão grande que ela ainda sentia as palpitações na garganta. Ao reconhecer seu quarto, puxou o ar com toda a força que pôde pelas narinas para aliviar a tensão. No entanto, ao deitar a cabeça no travesseiro, percebeu algo inusitado: tanto ela quanto a cama, os lençóis e o travesseiro estavam encharcados. E não era suor. Não tinha o gosto salgado. Tinha o odor doce e perfumado de Damas da Noite.

São nos sonhos que eu encontro as respostas para viver a realidade que não consigo entender.

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Juliana Ferraz

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