Vingança

Acordei no hospital. Havia tubos e fios por todos os lados. As paredes tinham um tom de azul-claro que deveria me deixar calmo. O cheiro de produtos químicos era insuportável e onipresente.

Eu não sentia meu corpo.

— Está acordado?

Voz de homem. Grave, fria e objetiva. Fosse como fosse, eu não conseguia responder. Tentei virar a cabeça na direção da voz, mas algo me impedia. Pisquei os olhos uma vez.

— Uma vez para sim, duas para não?

Pisquei novamente.

— Certo. Você lembra de alguma coisa?

Pisquei duas vezes.

— Isso vai ser mais difícil do que eu pensava. Lembra seu nome?

Pisquei uma vez.

— Talvez seja melhor conversarmos quando você… melhorar – disse o homem. — Elle, apague ele.

Uma voz feminina respondeu “Sim” e tudo escureceu.

*

Acordei e percebi que estava numa sala diferente. O tubo que estava em minha boca havia sido retirado, mas eu ainda não conseguia mover o pescoço. E continuava sem sentir nada do queixo para baixo.

— Olá – falei, mas a voz saiu mínima e rouca. – Tem alguém aí?

— Seja bem-vindo ao mundo dos vivos, rapaz – disse a mesma voz de antes. Parecia feliz. Melhor: parecia satisfeito.

— O que houve? — perguntei. Minha voz arranhava a garganta ao passar.

— Diga seu nome — falou o homem.

— Antônio Carlos Moreira. Trinta anos. Programador. Quem é você?

No silêncio que se fez, pude ouvir o barulho de máquinas próximas funcionando. O homem falou:

— Eu sou o doutor Alberto Sales. Tenho uma notícia boa e muitas ruins.

Engoli um pouco de saliva. Aquilo não era bom.

— Vou começar pela boa: você está vivo – disse ele.

— Onde estou?

O homem fez silêncio mais uma vez.

— Isso já é o início das notícias ruins? — perguntei.

— Sim — disse o médico.

Respirei fundo. Meu coração batia fora de controle.

— Você não lembra mesmo de nada?

— Não – falei.

— Pode ser muito difícil.

— Eu aguento.

Mas não aguentei.

*

O doutor Alberto me confidenciou que era psiquiologo, especialista em recuperação de traumas intensos. Numa voz fria e calma, relatou tudo o que havia acontecido comigo há um mês.

— Você e sua família estavam no aerotrem 2245-A, saindo de Fortaleza com destino à Brasília. Um grupo de terroristas armados invadiu o transporte e executou o piloto e a equipe de comissários, explodindo-se em seguida. Todos, à exceção de você, morreram.

Imagens de Sheila e das crianças misturaram-se em minha mente à medida que as memórias voltavam. Eu podia sentir as explosões, o cheiro de pólvora e metal, o aroma do sangue. Eu podia sentir a dor dos estilhaços enquanto ouvia gritos de desespero. Podia ver pelas janelas o chão se aproximando. Quase desmaiei. O monitor gritava enquanto media meus sinais vitais.

— Elle, ponha-o para dormir! Já!

— Sim, doutor — respondeu uma voz incorpórea, que parecia vir de todos os lugares.

Pude sentir meu corpo desacelerar. A mente parecia funcionar imersa em óleo. Mas a dor ainda estava ali.

— Não me drogue – falei. — Preciso sentir.

— Não, Antônio. Você precisa entender.

— Como… como eu sobrevivi?

— Elle, dobre a dose e mostre.
Uma nova desaceleração. Um monitor holográfico foi projetado da parede, e eu vi.

— Deus!

Minha cabeça estava ligada a um maquinário gigantesco. Fios, tubos e depósitos de líquido eram tudo o que restava de mim. Eu não tinha mais cabelos, e a pele que restava estava coberta por uma substância branca e viscosa.

— É um milagre você estar vivo – disse o doutor Alberto, e essa foi a última coisa que ouvi antes de apagar.

*

— Você precisa decidir se quer viver ou morrer — disse o médico assim que acordei.

— Quero morrer – falei.

— Preciso que repense isso.

— Não há o que considerar. Quero morrer.

O médico apareceu no meu campo de visão pela primeira vez. Era baixo e forte, aparentando ter entre trinta e cinco e quarenta anos.

— Você pode querer ter um motivo para continuar vivendo.

— Minha família morreu, doutor. O que mais eu posso querer?

Ele se aproximou sorrindo e disse:

— Sabemos quem explodiu o aerotrem. Eles assumiram a responsabilidade pelo atentado.

Trinquei os dentes. Senti minhas mãos se fechando com força e lembrei da Síndrome do Membro Fantasma. Que piada de mau-gosto, pensei. Meu corpo todo era um membro fantasma agora.

— Quem? – perguntei.

— Os Gentes-Boas. Em protesto contra a vitória de Dona Carmem para presidente.

Dona Carmem era a primeira presidente transexual da história do Brasil. Sua vitória foi comemorada no mundo inteiro, considerada como um sinal dos novos tempos de tolerância e paz. Mas não para os extremistas Gentes-Boas. Seu lema era “Deus, Família, Pureza e Justiça”.

— O que eu posso fazer?

— Há muitas possibilidades, rapaz. A mais urgente? Revidar. Por sua família.

Mesmo lento sob efeito das drogas, aquilo me soou atraente. Mas havia a questão das impossibilidades.

— Do jeito que estou aqui é meio impossível – falei. A imagem de minha cabeça suspensa por fios e tubos ficava flutuando em minha mente.

— Descanse um pouco. Teremos boas notícias quando acordar.

*

Despertei em outro lugar. Havia mais tubos e cabos, barulhos de ventilação, sucção, giro e bips. Sentia-me muito calmo. Com certeza dopado. Uma voz feminina reverberou pela sala.

— O paciente despertou.

Era ela, a que o médico chamava de Elle.

— Senhorita Elle? — falei.

— Sim, senhor Antônio?

— Quem é você?

— Sou a Inteligência do LabCE.

— Você é uma I.A.?

Elle riu. Uma risada cristalina e natural. Inesperado.

— Sou um sistema quântico de personalidade, senhor Antônio. Cresço e evoluo naturalmente há cinco anos sem necessidade de programação. Talvez inicialmente eu fosse uma I.A., mas hoje sou uma criatura pensante. Como o senhor.

— Você é uma simulação. Acredita que existe e é real, mas não passa de um punhado de linhas de código.

Elle riu mais uma vez.

— O senhor também, senhor Antônio. O senhor também.

— É sempre bom ouvir uma saudável discussão filosófica — Era o doutor Alberto, entrando na sala. — E então, Antônio, como está se sentindo hoje?

— Calmo demais, provavelmente dopado – respondi.

Ele riu. Vestia um jaleco verde e óculos de proteção.

— Lembre-me de nunca subestimar sua inteligência, Antônio. Elle, mostre a ele as possibilidades.

Um monitor holográfico apareceu diante de mim. Havia peças e partes jogados ao redor do esquema de um corpo.

— Esse é o futuro da bioengenharia – disse Elle. – Músculos de nanotubos de carbono, esqueleto de titalumínio, conexões nervosas e vasos sanguíneos de neoestanio, órgãos internos e pele cultivados em uma base de siliderme de multiespecialização… podemos construir um corpo novo para o senhor. Totalmente funcional. E vivo.

Enquanto ela falava imagens iam aparecendo diante de mim. Um corpo sem cabeça se movendo, derrubando uma parede com um chute, levantando um aerocarro médio sem esforço aparente…

— Isso é impossível — falei.

— Disse a cabeça sem corpo — respondeu Elle. Pude sentir a ironia em sua voz.

— Isso foi desnecessário — respondi.

— Contenha-se, Elle — disse o médico. — E mostre a ele.

Uma moça alta e loira entrou na sala, também trajando o jaleco verde. Era a mulher mais bonita que eu havia visto em minha vida.

— Olá, senhor Antônio – disse ela. Elle. — Este é o meu avatar. Queremos construir um destes para você.

— Não acredito. Vocês estão de brincadeira comigo.

Ela tirou o jaleco. Por baixo usava uma camiseta branca e calça jeans clara. Tinha quadris largos e a cintura fina. Parecia uma bailarina.

— Observe – disse ela. Com um gesto simples, puxou e girou o pulso direito com a mão esquerda e desconectou o braço do cotovelo. Um líquido rosado começou a fluir do encaixe, mas logo parou.

– Isso não é uma prótese. Meu corpo inteiro é feito assim.

Juntou o cotovelo e o braço novamente (clic). Não havia marcas. Era incrível.

— Talvez ele ainda não acredite, Elle – disse o doutor.

Ela sorriu e, com as duas mãos segurando a cabeça, girou-a para a direita e para a esquerda num movimento tão rápido que foi quase impossível ver.

Ela baixou a cabeça até a altura da cintura. O líquido rosado manchou a blusa e a calça.

— Acho que agora ele está convencido — Ela disse.

— Acho que sim — eu disse, e pela primeira vez em muito tempo, mesmo dopado, senti esperança. E felicidade.

— Vingança, senhor Antônio — disse o médico.

Algo me incomodava. Toda aquela gentileza… tudo o que me estava sendo oferecido…

— Tudo tem um preço e um motivo — falei. —O que vocês querem?

— Até agora tudo o que fizemos foi incorporar cérebros sintéticos aos nossos corpos biomecânicos — disse Alberto. — Esta é a oportunidade perfeita de fundir um cérebro vivo a um avatar. Nunca fizemos isso. Com todo o respeito à sua dor, você é um presente para nós.

— Esse é o motivo. E o preço?

— Você terá de trabalhar para nós contra os Gentes-Boas — disse Elle.

— E quem são vocês?

— Isso é algo que ainda não pode saber — disse o médico.

— Então tenho de concordar com essas condições…

— … em troca de uma nova vida e a oportunidade de equalizar as coisas. Devolver o que você sofreu — disse Elle, a cabeça já de volta ao lugar.

Fiquei em silêncio por alguns instantes, mas eu já havia tomado a decisão.

— Vingança então – falei, sentindo o ódio misturar-se a um prazer estranho e inesperado. – Vingança com certeza.

Nativo de um século analógico, fã de literatura de FC e Horror. Contista e poeta, escreve por necessidade. Músico e fotógrafo amador, acredita que a beleza do mundo reside no fato de não haver sentido (ou segredo) algum.

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Michel Euclides

Nativo de um século analógico, fã de literatura de FC e Horror. Contista e poeta, escreve por necessidade. Músico e fotógrafo amador, acredita que a beleza do mundo reside no fato de não haver sentido (ou segredo) algum.

  • Angela Cristina

    Muito bom!
    Parabéns!