Rachaduras na terra

– Vamo simbora, meu pai!

O homem olhou através da porta. O sol do meio dia rasgava o céu, torrando o chão.

– Vamo simbora homi, num tem mais nada pra nois aqui!

Desde o raiar do sol escutava aquelas duas frases em repetição. Na verdade, há vários dias essa era a rotina diária. Ainda mais quando elas viam o rastro da poeira da estrada, levantado pelas outras famílias que partiram antes. Foram-se os parentes, os amigos, os conhecidos. Foram-se todos, menos Raimundo e sua família.

Mordiscou um peço de carne seca, mastigou devagar, tentando juntar saliva suficiente na boca para facilitar a descida na garganta. Aumenta a sede, é verdade, mas não havia outra opção de comer. Não aplacava a fome, apenas a enganava.

Raimundo cresceu naquela região. Já havia visto outras secas, nenhuma como aquela. Era assolado pela memória do dia que Padre Chico falou do inferno na missa, mas nunca antes tinha conseguido visualizar a imagem que o beato descrevia. Agora ela fazia sentido.

Não tinha medo de seca. Já a conhecia, e aprendeu com o pai desde pequeno que só se teme o que se desconhece. Sorriu ao pensar que perdeu em vida o medo do inferno.

– Tá achando graça de quê, homi? Perdeu o juízo, foi? – perguntou Maria ao ver o marido rindo para o nada, a profundidade das rugas ampliadas pela expressão.

– Tome tento, muié, me respeite!

O agricultor fechou a cara, voltou aos pensamentos. Disseram-lhe que na capital tinha trabalho. E trabalho significa comida. Cidade grande, Fortaleza. Nunca fora à capital. Nunca precisara, nunca quisera. Todo mundo que ia voltava esquisito, falando e agindo estranho, e a resposta era sempre a mesma: “é assim lá na Capital!”. Conhecia a seca, mas não conhecia a cidade. Esse era seu dilema.

– Maria, arruma os pano de bunda que nois vamo simbora – disse a mulher. – Teu pai vai ficar!

O homem já virou dando com as costas da mão no rosto da esposa.

– Sussega teu facho mulher, quem canta de galo nessa casa sô eu!

Francisca não chorou. Cuspiu o sangue no chão, pegou um pano e juntou as coisas com a filha. Raimundo, calado, só observava. A mulher organizou tudo que tinha, um espelho, a imagem de Nossa Senhora e um pente que ganhara da avó no casamento. Enquanto isso, a filha enrolou o pão duro e as tiras de charque num pedaço de pano. Cansado de olhar, avançou sobre a esposa, determinado a acabar com aquela bagunça.

O homem deu duas passadas em direção a Francisca, que se virou com a peixeira na mão e lágrimas nos olhos.

– Venha! Venha dá em mim de novo que eu furo seu bucho e deixo você aqui pros urubus!

– Tá doida, muié?

– Eu não vou ficá aqui e ver minha menina se acabá igual ao gado!

– Tem paciência muié… o sujeito num pode abadoná a terra assim não…

– Paciência? Tá com uma semana que oio pra ti parado nessa porta, do nascê ao dormi do sol. Todo mundo já foi, só sobrou nois!

– Para mainha, baixa essa faca! – disse Maria, tremendo no canto.

– Ele vai matar nois duas, fia! Se for pra morrê, vou morrê lá fora, na estrada, tentando ficá viva!

Raimundo passou a mão no rosto e bufou.

– Cê num é doida… – disse, avançando sobre a mulher.

A lâmina afiada nem fez barulho ao entrar na barriga do homem. Francisca saiu de lado, esquivando do avanço do marido. Raimundo só entendeu o que aconteceu quando viu o sangue na ponta da faca. Olhou para baixo e viu a blusa encardida tingida de vermelho. Maria gritou. O agricultor foi ao chão.

– Anda, fia. E num chora não, que a água é preciosa! – Francisca deixou o casebre sem olhar para trás.

A menina hesitou, olhou para trás e viu seu pai caído. Fez menção de voltar, mas com um puxão no braço a mãe a colocou no caminho. Seguiram juntas, Francisca na frente, pisando forte no chão como quem crava o pé para dar impulso. Maria seguia chorosa e resmungando, quase sem entender o que acontecia.

Devia ser perto do meio dia quando partiram, o sol rachando suas cabeças, imitando o efeito que fazia no solo. No coldre carregavam cada uma um cantil, que a mãe logo percebeu que não duraria muito. Caminharam por mais de uma hora sem encontrar ninguém, nada além dos rastros e carroça e pegadas, que poderiam ser de ontem ou de dez dias atrás. Pararam na sombra de uma árvore, a única com folhas até onde a vista conseguia alcançar. Devia roubar a água de todas as outras só para si.

Mesmo assim era bonita, um marco verde num oceano amarelo.

– Vamo voltar, mãe!

– Voltar pra onde? E te alevanta que nois vai continuar! – Francisca percebeu que ainda estavam muito perto de casa. Só iriam parar de andar quando a menina notasse que a viagem era sem retorno.

A marcha continuou tarde adentro, e o esforço irracional cobrou caro o preço em água. Quando o sol finalmente deu uma trégua, o cantil de Maria estava quase vazio. A menina não racionara, sempre que a mãe estava distraída dava um gole farto. Mas nenhum gole seria suficiente para compensar a água que escapava de seu corpo. A caminhada era silenciosa, quase uma peregrinação religiosa, cada romeiro com seus pecados e pensamentos.

– Fica perto de mim que a noite vai ser escura, e ainda tem bicho, mermo nessa seca! – foi tudo que Francisca falou. Acendeu uma vela do lampião e seguiram na escuridão do sertão, a noite sem lua era um breu completo. Só eram capazes de enxergar na curta distância que o lampião alcançava.

De dia o perigo era o calor, de noite a escuridão. Francisca sabia que a filha estava exausta, achou melhor parar e retomar a caminhada na primeira luz. Não tardou a encontrarem um casebre abandonado. Assim eram todas as moradias por onde passaram. Pareciam viver num mundo fantasma.

Maria continuava chorosa. A mãe percebia seus olhares cheios de rancor, mas não deu trela. Um dia ela entenderia que a mãe fez o que tinha de fazer.

Noite adentro Francisca chorou em silêncio, não havia arrependimento, mas era a dor da perda. Não do homem, mas da vida que deixou para trás. Nunca houve amor em seu casamento, mas sabia que amor era uma história que contavam para meninas, mulher casa com quem o pai manda. Francisco nunca fora um bom homem, mas foi o homem que a recebeu por um dote barato. Eram lágrimas de perda, porém eram também de liberdade. Dormiu, pela primeira vez, com o coração leve.

Francisca acordou sobressaltada, o sol já tinha nascido. Buscou o cantil para aplacar a sede e não o encontrou. Olhou em volta e não viu Maria. Saiu do casebre em busca da filha, andou ao redor da casa e nada da menina. Chamou por ela, sem resposta. Andou até a estrada, e não se via nada em nenhuma direção. Gritou pela filha até a garganta seca doer, chorou até os olhos arderem.

Agora o dilema era seu, se voltasse e a filha tivesse seguido a estrada, nunca mais a alcançaria; se seguisse em frente e a filhada tivesse voltado, poderia ser tarde quando a encontrasse. O impasse a fez andar em círculos na esperança que a menina aparecesse. Decidiu que a melhor solução seria ficar e esperar.

Era o meio do caminho.

Lá ficou, e esperou…

Idealizador do Escambau, escritor, estudante de História e fã de cultura pop. Somente após vinte e seis anos criou coragem para colocar para fora suas aspirações literárias.

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Wilson Júnior

Idealizador do Escambau, escritor, estudante de História e fã de cultura pop. Somente após vinte e seis anos criou coragem para colocar para fora suas aspirações literárias.

  • Aline Teodosio

    Uau! Que texto carregado de emoção. E uma carga bem pesada, diga-se de passagem. O início achei bem a cara de Rachel de Queiroz, depois foi tomando forma própria. Achei que foi muito bem conduzido e o final melhor ainda. Agoniante. Sou fã de escrita regionalista, amo demais. E o teu texto tá maravilhoso. Parabéns!

    • Moacir de Souza Filho

      Pois é, eu ia elogiar justamente a mudança de tom. O texto começa num clima introspectivo, de lamento sertanejo, e quando passa à ação, temos um tremendo impacto. Mérito do autor.

  • Moacir de Souza Filho

    Os diálogos são uma pequena aula de regionalismo. Texto redondo, sem exageros nem mistificação. A protagonista está muito bem construída, assim como Raimundo. A metáfora das rachaduras na terra é perfeita: a seca criou também rachaduras naquelas pessoas, naquela família. Ótimo!

  • Angela Cristina

    Caraca, que texto!
    Parabéns!