Cara ou Coroa

São duas salas iguais, mas opostas. Em cada uma delas encontra-se uma mesa de madeira, e uma pessoa sentada na ponta desta. Em uma sala, está um menino. Na outra, um idoso. O formato da sala chama atenção por ter um aspecto cônico. A parte da parede oposta ao menino afunila-se e conecta-se com a parte oposta da parede do idoso. Ambos conseguem ver seu contraponto pelo buraco deste funil. Do lado de fora da parede, pode-se ver uma fina camada de areia caindo e depositando-se no fundo da sala.

Uma máscara e uma coroa estão em cima de cada mesa. O menino olha para a mão e vê a moeda a ser lançada. Ele pergunta se o ancião está preparado e ele respira fundo antes de responder com um aceno positivo com a cabeça.
A criança joga a moeda e ela aparece na mesa do ancião. “Cara”, diz o velho. O menino pega a máscara da mesa e a coloca no rosto. A máscara molda-se ao seu rosto, tornando-o mais adulto. Ele agora tem uma barba negra até a altura do peito e cabelos ondulados. A pele está queimada pelo sol. O ancião pergunta:

– Quem és tu?

– Sou teu sucessor quando, tua vida terminar.

– E tu já o sabes?

– Não. Serei escolhido por ti.

– E por que não um de meus filhos?

– Teu coração sabe a resposta para esta pergunta.

O homem retirou a máscara e o rosto de menino retornou. O ancião pegou a moeda e a lançou no ar. Ela caiu na mesa do menino. “Cara”, disse este. O velho pegou a máscara e moldou-a no rosto como fez o infante anteriormente. O rosto que surgiu foi a de um homem por volta dos 30 anos. “Quem és tu?”, perguntou a criança.

– Sou teu pai.

O menino surpreendeu-se com a resposta.

– Qual deles?

– Aquele que te quis tanto que te abandonou. Você merecia vida melhor, mas sua mãe foi mais forte do que eu te libertando de uma vida miserável.

– O que tens para me dizer?

– Não me arrependo, pois agora que jaz morto, sei de tuas proezas. Teu nome ficará para sempre gravado na história. Tenho orgulho do que fizeste. Tenho orgulho de ti, por ser meu filho, mesmo que tenha sido obrigado a faltar contigo.

O menino emocionou-se e enquanto pegou a moeda para lança-la ao ar, o velho retirou a máscara e colocou-a novamente em cima da mesa. “Coroa”, disse o velho. O menino colocou a coroa em cima da cabeça e sua cadeira tornou-se um trono de pedra. “És um rei?”, perguntou o ancião.

– Não. Sou o líder.

– A quem lideras?

– Os libertos.

– E não queres reinar sobre eles?

– Não cabe a mim este ofício. Sou apenas um instrumento.

– Mas não lhes deste leis para serem seguidas?

– Mas não fui quem as escreveu.

– Se não queres ser rei, não podes abdicar do poder divino. Do que tens medo?

– De errar o caminho…

O menino deixou a coroa na mesa e o velho lançou a moeda, que caiu na mesa da sala oposta. “Coroa”, disse o infante. O idoso colocou a coroa e sua cadeira se transformou num trono brilhante de estrelas e nuvens. “És um rei?”, perguntou maravilhada a criança.

– Eu sou o começo, o meio e o fim.

– Chegarei ao meu destino?

– O seu destino é o norte do horizonte, acima das estrelas. Sempre foi. Mas você terá um vislumbre do ponto final, antes da sua partida.

– O Senhor me promete?

– A minha palavra é Lei.

– Tenho medo…

– Tu és humano. Todos temem, mas poucos tem coragem. Você é um daqueles que foram escolhidos por mim. E ficarás conhecido pela tua determinação.

– Mas, Senhor, tenho tantas pessoas dependentes de mim… E se eu falhar com elas?

– Foi pela sua empatia que foste escolhido. Tu renunciaste ao luxo para quebrar os grilhões de um povo subjugado e massacrado. Não falhaste com eles. Tu já os salvaste.

O menino tentou pegar a moeda, mas ele não a encontrou. Viu que a mesa estava coberta pela areia que escorria pela parede. O velho retirou a coroa e percebeu o mesmo na sua sala. Num impulso, ambos foram para o buraco do funil e esticaram as mãos para tentar se tocar. “É uma ampulheta!”, disse o menino. “E o nosso tempo acabou!”, completou o velho. O menino viu a moeda no meio do funil e gritou para o velho: “a moeda está entre nós! Temos que jogá-la!”. O idoso se esticou cada vez mais a ponto de pegar a mão do menino e arremessar a moeda que bateu no teto de vidro e o quebrou por inteiro.

A Ampulheta se esfacelou e ambos permaneceram abraçados em meio a uma tempestade de areia. Aos poucos, foram se fundindo em um homem que tinha cerca de 70 anos. Ao fundo do ruído do vento nos ouvidos, ele conseguia ouvir alguém chamando seu nome…

Moisés acordou de sobressalto. Josué estava à sua frente. “Desculpe. Não queria assustá-lo, mas o senhor me pediu que eu o acordasse, para que continuássemos com a viagem”. Moisés acalmou-se ao ver aquela barba negra à sua frente. Confiança, empatia e liderança. Era isso que aquele jovem lhe evocava. Moisés pegou seu cajado e, auxiliado por Josué, retomou a peregrinação para a Terra Prometida que ele, agora sabia, apenas veria de longe.

São nos sonhos que eu encontro as respostas para viver a realidade que não consigo entender.

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Juliana Ferraz

São nos sonhos que eu encontro as respostas para viver a realidade que não consigo entender.

  • Fabiano Sorbara

    Excelente Juliana, texto bem amarrado, que gera uma expectativa no leitor, os diálogos também ajudam a segurar um ar de mistério, gostei muito, parabéns!

    • Ju Ferraz

      Obrigada, Fabiano. Fico feliz com as suas palavras 😄

  • Angela Cristina

    Parabéns, Juliana. Gostei muito do seu texto.