Maldito Seja Meu Nome!

Da sacada circular de seu palácio era capaz de ver toda a cidade. Era a maior e mais bela deste continente. Através de suas lunetas, observava a rotina de seus súditos, mas hoje não era um dia comum. As tropas inimigas batiam à sua porta, as pessoas saiam das ruas e buscavam abrigo em suas casas, barricando portas e janelas. Via a colina ao norte tomada pelos inimigos, e eles superavam os seus em cem para um. Apesar de serem seus antagonistas, como um senhor de guerra, não deixava de admirar tamanha demonstração bélica.

Por mais de mil anos as muralhas dessa cidade não haviam caído; por mais de quinhentos sequer haviam sido atacadas. Mas, hoje todos os reinos do mundo se uniram com o propósito de depor o Arquimago Imperador Ciprus, o ladrão de magia, como o chamavam. Ao ver todos aqueles povos reunidos contra ele, não pôde deixar de se perguntar se não era, de fato, o tirano que eles afirmavam.

Observou o começou do fim ao ver surgir no meio do massivo exército Dorus, o canhão – um artefato de sua idealização. Ele foi preparado diante da muralha, e suas tropas nada podiam fazer além de observar o pior acontecer. Viu dúzias de feiticeiros se juntarem na área de disparo, e com um sincronismo de dançarinos dispararam seus raios vermelhos energizando o instrumento de destruição.

O imperador viu a boca do canhão ficando vermelha como a de um demônio prestes a cuspir fogo e explodir num poderoso raio de energia rubra.

O impacto fez com que a torre do Arquimago tremesse. O choque do raio com a barreira mágica que envolvia a cidade ressoou como um trovão, e sua reverberação quebrou vidraças.

— Senhor… – disse uma voz, que ao receber o olhar do Imperador se materializou em um homem. –  Acredito que seja o fim.

— Oh, nobre Marlo, já estava anunciado antes do disparo. Desculpe-me se falhei em minha missão, velho amigo. – Ciprus observou seu conselheiro: sua longa barba branca estava tingida de sangue, sua pele negra marcada de hematomas e cortes. — Eu deveria estar no campo ao seu lado. – Mais um estrondo ressoou.

— Meu senhor, perdoe minha insolência, mas não ouse se desculpar com quem quer que seja. Não há homem mais nobre, justo e honrado. Morrerei feliz em seu nome. – Marlo olhou para seu rei, e viu que as rugas marcavam sua pele, apesar da pouca idade. Faltava –lhe um dos olhos, uma mão e estava coxo. Medalhas de batalha, ele dizia.

— Meu querido amigo, falo disso somente contigo. Ser Imperador é um ofício de solidão. Venha comigo. – disse, indicando a sacada. – Olha para aquele oceano de gente: eles estão aqui por acharem que sou um tirano, um ladrão do que é deles por direito. Mesmo diante desta multidão, tu não questionas esta convicção?

— Não! – respondeu, em meio a outro poderoso estrondo.

— Tu és mesmo o mais leal, ou o mais tolo dos homens. – disse o Imperador com um sorriso triste.

— Vim para informá-lo que nossos reforços chegaram, mas mudaram de bandeira, e já se posicionam na muralha sul sob o signo da Rainha Clio. Acredito que o senhor já sabia. – Marlo viu uma luneta que apontava para a depressão ao Sul.

— Sim, na realidade, soube antes deles chegarem aqui. É dever de um imperador saber quando vai ser traído. Eles me seguiam por medo, mas nunca foram a favor das minhas leis de restrição do uso de magia.

— O que fará agora?

— Sinto falta de Morgan… — divagou o Arquimago. — A rainha sabia o que fazer na pior das crises. Minha esposa era a pessoa mais sabia que encontrei na vida. Você já tomou conta do príncipe?

— Sim, Senhor. Já foi enviado para além do alcance de seus inimigos. Algum dia ele retornará ao trono que é dele por direito. – respondeu Marlo.

— Espero que não. – disse o Imperador. – Esse é um mundo moribundo, estará melhor longe daqui.

 

Um barulho estranho pôde ser ouvido misturado ao retumbante soar do disparo. Era como se o céu fosse um espelho que tivesse se partido. Os dois homens voltaram à sacada e viram a barreira mágica se rachando como uma gigantesca redoma de vidro colorido. As rachaduras se espalhavam, e os pequenos cacos multicoloridos caiam do céu se desfazendo.

Por fim ouviram as trombetas do inimigo chamando suas tropas de volta.

Uma batida ecoou na porta segundos depois.

— Entre. – disse Marlo.

Um oficial de vestes rasgadas e sujas adentrou no aposento.

— Trago uma mensagem da Rainha Clio. Foi entregue assim que a barreira se desfez, está selada magicamente. – disse o feiticeiro, entregando-a ao conselheiro e se retirando com uma reverência.

Marlo passou a carta ao rei, que ao tocar a pele do monarca liberou seu selo. O Imperador leu a carta em silêncio. Ponderou por alguns minutos sem ser interrompido.

— Diga-lhes que eu aceito os termos. – disse Ciprus.

O conselheiro passou os olhos pelo documento:

— Isso é um ultraje! Não pode aceitar!

— Tu me dás ordens agora? – questionou o Imperador, e seu conselheiro se recompôs.
— Senhor, isso é um absurdo, não podes se entregar para ser abatido como um animal.

— Tu leste a mensagem? Pouparão a cidade e as tropas. Só querem a mim, esse é um preço pequeno. Não vou deixar mais gente morrer por uma causa perdida.

O conselheiro olhou para o Imperador e viu um sorriso em seu rosto moreno. Parecia feliz, no fim conseguiu o que queria, aqueles sempre foram os termos que ele buscara.  Marlo amassou a carta pensando nos algozes.

— Marlo, tenho uma última ordem para ti… —  Ciprus fez uma pausa. – Quero fujas da cidade e que faça os arranjos caso o príncipe volte algum dia.

— Senhor… quero estar do seu lado… até o fim.

— Você sabe como a execução é feita, e o que acontece com aqueles que escolhem não tomar parte.

— Eu não me importo!

— Mas, eu me importo!

— Mas…

— Isso é uma ordem!

— Sua vontade, minhas mãos. – disse o conselheiro, se aproximou e abraçou seu líder pela última vez, dando as costas e desaparecendo.

O acordo foi entregue, as tropas inimigas tomaram a cidade sem resistência. Os Reis aliados agora marchavam para o palácio-castelo, onde o Arquimago Imperador Ciprus aguardava.

Um grupo de soldados buscou e escoltou o Imperador até a praça. No caminho a população tomava as ruas, viam seu rei deposto sendo levado ao lugar do martírio. Mas, ao contrário das execuções comuns, não havia escárnio ou humilhação. Apenas silencio acompanhava a caminhada do suserano.

A Praça estava lotada. A maior parte por tropas e líderes que haviam tomado a cidade, as bandeiras das casas flamulando multicoloridas nos prédios ao redor. Clio estava senda em um trono improvisado, na varanda da maior residência próxima ao local, ostentava ouro no corpo e em sua mão um estandarte quebrado de Ciprus.

Os executores já estavam em posição, todos os conselheiros e líderes que serviam a Ciprus. Era assim que eles provavam lealdade ao novo rei. A maioria desviou o olhar, incapazes de encarar seu Rei.

— Estamos aqui reunidos para sentenciar a morte Ciprus Mansur II, Rei de Magina, autoproclamado Imperador de Todos os Reinos, pelo crime de tirania. – proclamou a Rainha Clio, que falava em nome da aliança que depusera o monarca.

Uma vaia direcionada à Rainha ressoou da cidade, mas com um gesto do rei foi silenciada.

— Quais são suas últimas palavras, Ciprus?

O Imperador olhou para seu povo por um momento: muitos estavam em lágrimas pelo regente, sentiu um misto de tristeza e paz.

— Deixem que amaldiçoem meu nome, só peço a vocês que se lembrem da verdade, lembrem-se de porquê lutamos! A magia consumirá nosso mundo, assim como consumiu as almas daqueles que tomam minha vida!

A rainha deu o comando. O Imperador aguardou resoluto.

Os executores lançaram o feitiço. Uma poderosa magia, que misturava o espectro de cores como as auroras que cortam os céus nas terras congeladas ao norte.

O Imperador não gritou, não suplicou, nem haveria tempo para tal. O brilho ofuscou a todos, quando a luz se dissipou, puderam ver o que restou de seu líder.

No lugar do vazio, havia uma estátua. Ciprus havia se tornado uma rocha negra. Não havia dor na face da escultura, apenas uma expressão de nobreza. A multidão se agitou em direção ao rei, queriam tocá-lo. Murmúrios de preces encheram o lugar.

Clio, temendo que a estátua se tornasse um objeto de culto, mandou as tropas dispersarem o povo, que resistiu com paus e pedras. Somente após uma carnificina nas ruas de Magina, a população foi se dispersou.

A rainha ordenou que a peça fosse destruída, mas nenhuma picareta mundana ou mágica foi sequer capaz lascar a rocha. Sem escolha, um prédio foi erigido ao redor da estátua com vigilância constante. Mencionar o nome Ciprus, era punido com a morte.

Mas os súditos resistiram, até hoje há quem toque nos muros proibidos em busca de benção, e quem fale que o Imperador voltará.

Idealizador do Escambau, escritor, estudante de História e fã de cultura pop. Somente após vinte e seis anos criou coragem para colocar para fora suas aspirações literárias.

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Idealizador do Escambau, escritor, estudante de História e fã de cultura pop. Somente após vinte e seis anos criou coragem para colocar para fora suas aspirações literárias.

  • Sá Tiro

    Bom! Dúvidas em relação ao título.

  • Fabiano Sorbara

    Gostei dessa fantasia, da até pra ter uma sequência!

  • Angela Cristina

    Estou lendo este gênero por maio do Escambau.
    Estou gostando leito.
    Parabéns!