O sonho do coração partido

Aquilo não era um sonho: era um pesadelo. Ela sentia as vibrações estranhas e pesadas vindo na sua direção. A sonhante estava com seus pais que lhe guardavam. Ela estava com a aparência de quando está acordada. Seus pais também. A sonhante sentia uma pontada de angústia no peito. Ela sentia que a notícia que seus pais lhe diriam não seria boa. Eles lhe dizem que seu grande amor morreu. “É uma pena, mas ele se foi”. A sonhante perdeu-se em si mesma. Ela não sabia o que dizer, pensar ou até mesmo a quem recorrer para que isso fosse remediado. Ele não podia ter morrido. Ele não podia tê-la deixado dessa forma tão leviana. Ele nem se despediu…

Ela queria vê-lo, tocá-lo mais uma vez. “Onde ele está?”. Enquanto o peito da sonhante latejava as pontadas do coração ferido, seu pai lhe agarrou e deu um abraço, para ver se aplacava a dor. O colo do pai fez com que a água salgada pingasse de seus olhos e a desorientação tomou conta de sua mente. “Você precisa ser forte… Aconteceu… Essas coisas são assim… Não tem explicação… Você precisa aceitar…”. Ela não podia acreditar. Muito menos aceitar. A revolta tomava conta de seu ser e a negação veio em forma de gritos abafados pelo abraço paterno.

Enquanto o pai tentava domá-la, a mãe dizia que tinham que “tirá-lo” de lá. A sonhante percebeu de quem ela falava: seu sogro estava deitado na mesa da sala com as mãos repousadas sobre o peito. Ele estava com seu paletó branco, camisa azul, cabelo fino e sapatos brancos sob a luz fraca de algumas velas. A cena parecia um velório de uma dessas cidades interioranas, mas ele estava vivo. A sonhante ficou obcecada pela ausência do marido e ainda perguntava aonde ele tinha ido. O pai não lhe respondia mais e a mãe insistia que eles tinham que tirar o sogro daquele lugar. A sonhante indagava se ele estava morto, mas a mãe disse que não, apesar de que a cada momento que se passava, sua pele ia se decompondo, seu cabelo ia caindo e suas roupas ficavam mais amassadas e rotas.

Quando percebeu o cheiro de morte empestando o ar, a sonhante ajudou a mãe carregar o sogro e ambas o transferiram da mesa para uma cadeira. Ele ficava mais decrépito a cada minuto que se passava. Algumas partes já se encontravam necrosadas, pedaços da pele começavam a cair e a única reação que ele teve para demonstrar de que ainda estava vivo foi a tentativa de coçar a cabeça, indagando a mesma pergunta que todos faziam: Será que ele realmente estava vivo?

Um homem se aproximou da sonhante. Ele era muito cortês. Ele a fazia rir. Ele a cortejava. Ela não aceitava, mas também não recusava. Ela gostava de sua companhia, mas sentia ainda a falta do falecido marido. Eles saiam pela noite, se divertiam, bebiam com amigos, dançavam e cantavam pelas ruas. A cada investida a mais que o homem dava na sonhante, ela lhe sorria de um jeito gracioso e furtivo. Mas ele continuava do seu lado.

Até que um dia houve uma reviravolta. A empregada estava passando as blusas da sonhante e este homem disse de forma bufante e em alto e bom som: “passe as minhas blusas também que eu vou colocá-las na parte do closet dele. Já está na hora daquela tralha sair de lá”. A sonhante se enfureceu. Quem era ele que achava que podia mandar na casa dela? Na empregada dela? E quem ele achava que era para colocar as tralhas dele no lugar das roupas de seu falecido e adorado marido? Ela gritou com ele e com o dedo em riste negou aquela possibilidade estapafúrdia. Ela não estava pronta para aquilo. Afinal de contas fazia apenas dois dias que ela não via mais o marido…

Foi quando o homem lhe respondeu: Mas já faz três anos que ele morreu…

A sonhante sentiu o ar fugir de seus pulmões, dando lugar a um líquido azul como a chuva, encharcando-os. Ela não conseguia mais respirar. A dor era tanta dessa vez que ela sentiu que morreria ali, naquele momento. Olhou ao redor e não viu os pais, não viu o seu amor perdido, ninguém a quem confiasse, que lhe desse um amparo. Ela sentiu o obscuro tomando conta de sua alma de forma tão pungente que a única tentativa de sobrevivência foi clamar pela melhor amiga de infância. Talvez tenha feito isso por ter em sua mente os resquícios de uma lembrança real com esta pessoa. Esta lhe confortara uma vez quando a sonhante sentiu a abertura desta cratera em seu corpo. Ou talvez seja pelo fato da simbologia angelical do nome da amiga. O homem que estava ao seu lado tentou se aproximar, mas ela agora estava de quatro no chão – nem conseguia ficar de pé – e sentia que a vida lhe escapava por um fio. Ouvia-se apenas o eco do nome da amiga na imensidão do nada na esperança de salvação…

A sonhante acordou chorando. Sentiu as lágrimas no rosto e o travesseiro molhado. Olhou para o lado e viu o marido dormindo em paz. Ela sentiu um alívio grande do término do pesadelo, como se o peito tivesse sido restaurado. Era ele mesmo: aquele corpo, cheiro, respiração. Era tudo ele e isso era a sua paz. Abraçou-se a ele e desejou, pela primeira vez na vida, apesar do seu terror pelo fim inevitável, fechar seus olhos eternamente antes dele…

São nos sonhos que eu encontro as respostas para viver a realidade que não consigo entender.

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Juliana Ferraz

São nos sonhos que eu encontro as respostas para viver a realidade que não consigo entender.

  • Angela Cristina

    Lindo!
    Se são os sonhos que permitem viver a realidade, continue sonhando.

    • Ju Ferraz

      Obrigada pelas palavras, Ângela. Fico feliz que tenha gostado. 😄😉