O Pacto das Trevas – Fortaleza – Parte 6

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O Diário

Miguel viu a si mesmo através de uma substância leitosa, como se estivesse atrás de um vidro fosco. Estava sentado no sofá ao lado de Angélica, e tinha o diário de seu pai na mão. O relógio na parede marcava meio dia.

O Miguel do lado de lá abriu o diário e desmaiou. Angélica levantou e saiu, fechando a porta atrás de si.

A parede fosca começou a trincar, as rachaduras se espalhando pela superfície. Miguel tocou-a com a ponta do indicador, e ela ruiu como vidro, mas sem barulho.

*

Despertou no sofá, mas agora tudo era preto e branco. Havia cinzas cobrindo tudo e mais caindo pelo ar, como se nevasse. O frio era intenso.

Que lugar era aquele?

Tentou levantar, mas seu corpo não obedeceu como esperado. Pesava. Suas articulações doíam, os dedos das mãos estavam dormentes. Tentou trazê-las até a boca, mas mal conseguiu levantá-las do colo.

Foi quando uma voz se insinuou em sua cabeça.

Abra o diário!

Angélica? Aquela era a voz dela?

Abra o diário!

Não, não era ela. A voz, entretanto, era familiar. Seria aquilo um sonho? Estaria tendo uma crise de paralisia do sono? Teria ela o poder de hipnotizá-lo e de fazer com que tivesse ilusões?

Abra
o
diário!

A voz era irresistível. Fosse um sonho ou não, resolveu seguir seu conselho.

A capa estava ainda como nova, embora os cantos e as pontas estivessem puídos. Havia um adesivo branco-amarelado colado nela, onde estava escrito, com a letra caprichada de seu pai:

João Miguel Antunes
Diário
Por favor, não mexa sem minha permissão.

Se você me permite, pai, vou vasculhar sua vida.

— É preciso cuidado ao lidar com o diário, filho — a voz se materializou a seu lado como fumaça que se solidifica.

— Mãe?

Sim, era ela. As pequenas sardas na pele clara, o rosto pequeno e delicado, os cabelos claros penteados de lado… Tremendo, ele a abraçou.

— É um sonho, eu sei que é, mas eu não quero acordar! Meu Deus, mãe, que saudade, meu Deus!

Ela o abraçou, mas ele não sentiu seu toque nem seu cheiro. Sabia que ela estava ali a seu lado, mas faltava alguma coisa.

— Isso é um sonho, mãe? É por isso que eu não consigo te sentir?

— Não, meu lindo, isso não é um sonho. Se fosse, estaríamos aqui agora em nossas formas ideais, e você provavelmente seria uma criança.

Miguel olhou para suas mãos e soube que continuava adulto, e que o que ela dizia fazia muito sentido.

— Então, onde estamos? O que é… isso? — disse ele, abrindo as mãos para o cenário que os cercava. — Essa cinza, as cores, o frio… não entendo!

— Abra o diário. Aqui, não estamos seguros. Depois que abri-lo, conversaremos.

— Você não vai embora, vai? Sumir, que nem fumaça?

— Só se você quiser.

— Nunca!

Ela sorriu, os dentes perfeitos, rugas suaves no canto dos olhos. Como era linda. Ele começou a chorar.

— Vamos com isso, filho — ela disse, e a urgência na voz dela era como uma inundação.

Miguel tentou abrir o diário sem sucesso. Era como se a capa estivesse colada.

— Mãe, eu não consigo!

— Existem dois selos aí, Miguel. Um de ar e um de sangue. Precisamos abri-los antes, mas com cuidado. Você não é seu pai.

— E como eu faço isso?

— Repita comigo: “Putrefação que consome lentamente, tempo que corrói, vida que termina: possuo a permissão do sangue para abrir a porta do destino. Revele-se! ”.

Ele fez como ela pedira. Havia um vazio em sua mente enquanto dizia aquelas palavras. Miguel sentia como se não estivesse mais ali e, por alguns instantes, esqueceu seu nome, e deixou de pensar em si mesmo como um “eu”. Sombras corriam pela sala, negando a luz do dia. Estava frio. Estava distante…

— Fique comigo, Miguel — disse ela. — Eu disse que precisava de cuidado ao abrir o diário. Seu pai não era louco.

Uma luz esverdeada brilhou nas bordas do diário, e se apagou.

— Esse era o de ar — ela disse. — Fórmula assíria de desocultação. Agora, abra o selo de sangue.

— Como faço isso?

— Você precisa dizer ao diário que é filho de seu pai.

— Com… sangue?

Ela sorriu e fez que sim.

— Bem que aquele corte poderia vir a calhar agora… — ele disse, e o a ferida em sua mão abriu de repente.

Miguel gritou com a dor e o susto, enquanto o sangue pingou na capa do diário. Um brilho vermelho luziu, e o encadernado ficou leve. Ele se sentiu tonto e desmaiou mais uma vez.

*

Despertou. O relógio da sala estava parado: meio dia e cinco. Tudo parecia normal agora: as cores, os cheiros, a temperatura… mas havia algo estranho. Faltava alguma coisa.

— O que está havendo? Onde estamos?

— Estamos no diário.

— Isso é loucura! — disse, balançando a cabeça. Ela sorriu.

— Não é não. Chamamos isso de Limbo, um simulacro de existência que é criado pela energia que seu pai depositou no diário. Podemos passar dias ou semanas aqui e, quando fechar o diário, não haverá se passado tempo algum.

— Isso é impossível!

— No mundo material regido pelas leis da física, sim. Mas não estamos mais lá, Miguel. Você não queria olhar dentro da escuridão? — Ela abriu os braços e sorriu. — Bem-vindo.

Sentou ao lado dela. Suas mãos tremiam.

— Você entendeu as palavras do cântico? — perguntou sua mãe, e Miguel sentiu os olhos pesados.

Ele fez que sim.

— Isso é importante. Qual a lembrança mais marcante que você tem de seu pai?

— Ele cantava para eu dormir. Todas as noites.

— Como eram as músicas?

— Estranhas. Meio sussurradas, como se estivessem presas na garganta dele. E deixavam um gosto estranho na minha boca.

Miguel estava de olhos fechados agora. O tremor passara. Ela continuou:

— Gosto de que?

— De canela, pimenta, cravo. Areia. Maresia. De sândalo. De alho. De vento. De água.

— Essas canções eram antigas?

— Sim — disse ele, a voz monocórdia. — De antes do mundo como o conhecemos.

— Talvez seu pai fosse mesmo um pouco louco, mas suponho que não poderia ser de outro jeito. Acorde, Miguel, preciso de você aqui.

Ele retornou devagar. Lento. Como se sua alma estivesse mergulhada em óleo.

— O que meu pai fez comigo? — perguntou.

— Saturação — disse sua mãe. — Ele criou uma linha de acesso e encharcou seus genes com tudo o que ele sabia. Ousado, condenável… mas necessário, eu suponho. Agora entendo porque as coisas tomaram o rumo que tomaram.

— Mãe?

— Inclusive explica porque eu estou aqui. Uma chave de segurança, eu acredito. Ele deixou o diário programado para recriar uma imagem minha que pudesse te ajudar quando você precisasse.

— Por quê?

— Porque você não pode confiar em ninguém além de si mesmo.

— Nem em Angélica?

— Nem mesmo nela. Em ninguém da organização.

— Por quê?

— Existem acordos feitos nas sombras que envolviam a mim e a seu pai.

— Por isso ele te matou?

A mãe se afastou dele e recostou-se no sofá.

— Você não conheceu seu pai como eu.

— Um louco homicida? Nem queria, nem quero.

Os olhos dela ficaram opacos.

— Você entenderá o que ele fez em tempo. Agora, o que precisa saber é que quando abriu o diário, tornou-se visível.

— Como assim?

— Seu pai mantinha você sob uma capa de proteção, que foi arranhada quando ele morreu, e rasgou em algumas partes quando Angélica o contatou. Mas quando você abriu o diário, ela pegou fogo, e você está a descoberto. O Pacto, a Legião… todos eles virão até você.

Ele levantou, as mãos espalmadas diante do corpo.

— Calma aí, quem são “eles”? Quem é você?

Ela sorriu.

— Sua única esperança é Angélica.

— Mas você disse…

— Sei o que eu disse. Mas não falei em evitá-la. Falei em não confiar. Sua natureza antiga é dúbia e pragmática demais.

Miguel se recostou no sofá. Era coisa demais para sua cabeça.

— Preciso de água — disse ele, e saiu em direção à cozinha. Seus pés se moviam sozinhos. Pegou um copo sobre a mesa e levou-o até o filtro de barro, mas a água não fez barulho algum. Levou-a aos lábios, e o líquido tinha gosto de ferro e areia. Mas aliviou um pouco da sede e da estranheza.

Quando voltou para a sala, ofereceu-lhe um copo com água, e assim que o fez percebeu que não fazia sentido.

— Ora, mas não é um jovem galante, esse rapaz? — ela disse, sorrindo, mas sem tocar no copo.

— O que eu vou fazer?

— Seguir seu sangue. Deixamos… instruções aí. Seu corpo saberá o que fazer.

— Mas mãe, isso é muito vago!

Ela deu de ombros.

— Essa… sala, a água… isso é real?

— A água matou sua sede? — Ele fez que sim. — Então é real. Não da ordem com a qual você está acostumado, mas real o suficiente para que seu corpo a aceite.

Ele baixou a cabeça.

— Há coisas e pessoas muito ruins no mundo, Miguel — disse ela. Na maioria das vezes elas não trabalham juntas, mas há momentos na história da humanidade em que elas se unem para governar e destruir. Chamamos estes momentos de “Convergências”. Seu pai e eu evitamos aquela que pensamos ser a última. Foram custos muito altos, com poucos sobreviventes de nosso lado.

Ela parou de falar por um instante. Estava ofegante e tinha os olhos cheios d’água.

— Mas estávamos errados — continuou. — Não a havíamos impedido, apenas adiado. Eles recuaram e estão voltando mais fortes.

– Essas Convergências…

– A revolta dos Anjos. A Queda. O Dilúvio. As Pragas do Egito. O desaparecimento de Atlântida. A queda de Camelot. As Cruzadas. A Inquisição. A ascensão do fascismo e do nazismo e as Grandes Guerras. O Vietnã, Iraque, Afeganistão, Onze de Setembro… pequenos passos para grandes momentos negros da história da humanidade.

– Mitos misturados com história.

– Não, filho. Mitos não. Você não tem a sensação de que está tudo errado com o mundo? Que há coisas e pessoas agindo nas sombras para que tudo vá de mal a pior?

Miguel engoliu em seco. Era exatamente assim que se sentia a maior parte do tempo. E a loucura espreitava por trás de seus olhos.

– Não se preocupe com a loucura, filho. Seu pai era um dos homens mais lúcidos que já conheci.

– Eu ouço vozes e vejo coisas…

— E isso só vai piorar. Sem a proteção de seu pai, você passará a experimentar o mundo como ele realmente é.

— Mãe… isso não sou eu ficando louco?

— Você se sente louco?

Ele fez que não. Ela sorriu e passou a mão no rosto dele.

— Parece tanto com ele…

— Quanto tempo nós temos aqui?

— Pouco. A energia se dissipa… teria sido melhor que ele tivesse deixado um pouco de sua essência aqui… Ah, João, por que tão imprevisível?

Ela estava ficando transparente.

— Mãe, você está…

— Eu sei. Olhe: não julgue seu pai tão duramente. Ele era o melhor homem que conheci, e você tem a mesma fibra. Siga Angélica, mas não com toda a sua fé. E nunca se esqueça: eu te amei desde o momento em que o senti dentro de mim.

Ela o abraçou, feita de névoa que se dissipava com um vento inexistente. Mas ele sentiu seu beijo, e não pôde deixar de chorar.

— Eu te amo, filho!

— Eu também, mãe! Nunca vou te esquecer!

Ela sumiu, e ele se viu sozinho no sofá. O ponteiro do relógio na parede começou a se mexer. O diário estava aberto na contracapa, e a ferida em sua mão estava cicatrizada.

Estava de volta.

— Quem era você, pai? De verdade?

Abriu o diário e começou a ler.

 

Nativo de um século analógico, fã de literatura de FC e Horror. Contista e poeta, escreve por necessidade. Músico e fotógrafo amador, acredita que a beleza do mundo reside no fato de não haver sentido (ou segredo) algum.

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Nativo de um século analógico, fã de literatura de FC e Horror. Contista e poeta, escreve por necessidade. Músico e fotógrafo amador, acredita que a beleza do mundo reside no fato de não haver sentido (ou segredo) algum.