Política, distração e boi

Ainda falta um bocado para as próximas eleições; o que não faltam são motivos para nos preocuparmos. Vivemos um presente sinistro e o futuro nos reserva poucas esperanças.

Não vou nem chover no molhado repetindo o quanto a classe política anda desacreditada em todo o mundo. Talvez consequência dessa tal “Era da Informação”, ou melhor, da Era da Informação Rasa, a descrença afeta diretamente o modo como as coisas estão sendo geridas, além de abrir margem para ameaças insuspeitas. Na ausência de líderes que dialoguem, que inspirem, que congreguem, a política tem virado terra arrasada.

A turma anti-política, os niilistas, os justiceiros da República de Curitiba, entre outros, podem até ter em mente um mundo melhor, com um Estado livre da corrupção que está aí desde que Adão e Eva fizeram negócio com a cobra. O resultado prático é outro: abriram-se as portas do inferno. A política virou terreno de aventureiros como Donald Trump, que se diz outsider como fosse virtude.

A turma que até então era contra “essa sujeirada aí” logo arruma um altar para essas figuras, ajoelhando-se ao salvador da vez, que pode ser um ricaço ridículo, um suposto gestor filhinho de papai, um ex-militar mixuruca, um ex-presidente carismático. Nessas mentes habitadas por vastas solidões, a mesma política que “nunca prestou” pode ser milagrosamente reformulada de um dia pro outro com o toque de um Midas moderno. Então tá.

Nem são essas criaturas que me angustiam, porém. O problema pra mim é a falta de reação daqueles que ainda conservam alguns neurônios.

A explicação para o silêncio diante de tantos absurdos tem sido tema de debate nos últimos anos. Uns apontam cumplicidade, outros dizem medo. Há ainda quem acuse a Netflix. Concordo em parte com esses últimos: acredito que a ignorância dos boçais tem prosperado na distração das massas.

É mais ou menos como a vez em que minha família passou uma semana na casa de meu tio, no interior. Eu devia ter uns oito anos, no máximo, e nunca descobri o que diabos fomos fazer por lá. Creio que ficaríamos cuidando da casa durante a viagem dele. Ou assim deveríamos ter feito.

Papai ficou em Fortaleza, trabalhando. Éramos somente mamãe, minha irmã e eu. Na década de noventa, casa de interior era a coisa mais segura do mundo, ao menos aqui no Ceará. Todos se conheciam, todos se falavam. Ladrão só roubava galinha, se roubasse. As portas viviam escancaradas.

Pois bem. Na tarde do penúltimo dia, acordei de um cochilo e abri a janela que dava para o pequeno quintal. Abri os olhos. Fechei. Esfreguei-os. Abri novamente. Dei de cara com um boi.

Sim, um boi. Metido no espaço de quatro metros quadrados, tranquilo, mais tranquilo que água de poço, como se ele próprio tivesse acabado de despertar duma sesta. Parecia dono do lugar.

— Tem um boi dentro de casa!

Mamãe quase teve um troço. Como esse bicho entrou aqui, meu Deus? Tendo em vista que os muros do quintal pareciam em perfeito estado, e como alienígenas geralmente preferem matar os bois a largá-los em quintais alheios, a única explicação era o animal ter entrado pela porta da frente.

Ora, minha irmã e mamãe estavam assistindo reprise de novela, o que explica não terem notado aquela montanha de uma tonelada passando às suas costas. O boi entrou, curioso, aventureiro, tão placidamente que passou pela porta do meu quarto sem me acordar, e foi aboletar-se no quintal.

O que fazer? Fechamos os quartos e esperamos. Passamos a noite ali (a porta da frente ainda aberta, vejam vocês). Quando acordamos, o boi tinha ido embora, mas o estrago estava feito. Pois que, tendo sido muito cavalheiro e polido ao entrar, um verdadeiro lorde inglês, com o perdão do trocadilho, o boi avacalhou em sua partida. Derrubou o filtro de barro, entortou o pé da mesa, mastigou o sofá. E cagou a casa inteira.

Nunca vi tanta merda espalhada. Tudo bem que o bicho tinha um tamanho considerável, mas aquilo ali dava pra adubar uma pequena plantação por meses. Tivemos que esticar nossa estadia por mais meia semana para tentar arrumar o que sobrou da casa. Mamãe inconformada porque não podia sequer dar bronca em alguém, ela mesma também culpada do descuido.

Do boi não tivemos mais notícias. Deve ter invadido o quintal de algum distraído no dia seguinte.

Quem ouve essa nossa história costuma se espantar. Como assim ninguém percebeu um boi entrando na casa? Gente, um boi! Esquecem que deixamos coisas bem piores passarem. Bem piores.

É melhor já ir se acostumando…


Confira os outros textos da coluna clicando aqui.

 

Editor geral do Escambau, administrador por profissão e escritor por necessidade. Escreve às terças-feiras.

LEIA TAMBÉM:

Moacir de Souza Filho

Editor geral do Escambau, administrador por profissão e escritor por necessidade. Escreve às terças-feiras.

  • Juliana

    É vdd. A coluna de Moacir retrata muito bem nossa realidade política.Estam invadindo a nossa praia.

  • Angela Cristina

    Caraca!
    Ótima reflexão sobre o tempo em que vivemos.
    Como deixamos o boi entrar?