O Sexto Dia

Semana 03, dia 04.

 O indivíduo apresenta considerável desenvolvimento cognitivo. Em menos de um mês, dominou a linguagem básica de sinais. Estimo que ele possua agora o domínio sobre mais de cento e cinquenta palavras, possibilitando uma comunicação rudimentar, porém eficaz.

Pode-se perceber, também, uma relação de confiança crescente entre ele e Soya. O indivíduo reage melhor às punições, e demonstra estar menos ansioso em relação às recompensas. Apesar disso, aconselho cautela, pois o indivíduo pode estar demonstrando indícios de inteligência mais profunda. Faz-se necessária uma observação ais demorada, e testes, antes de qualquer conclusão.

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— Manipulação, você diz? Manipulação mental?

— Nada tão dramático, Soya – respondeu Arva. – Manipulação emocional. Simples. Como um cachorro que abana o rabo, ou um gato roçando em suas pernas.

— Mas ele é tão… superior a esses outros animais. Não acho que a comparação seja válida.

— É por isso que eu sou o mentestador da equipe, Soya, e não você.

Soya recuou, as mãos levantadas.

— Desculpe – disse ele. – Isso não deveria ter saído assim.

— Mas saiu, e não é a primeira vez – respondeu Soya. – Eu entendo que sua graduação seja a mais alta entre nós, mas isso não é motivo para que você esteja o tempo inteiro me pisoteando.

Arva colocou a mão direita sobre o peito.

— Mea culpa – disse ele. – Não há justificativas para meu comportamento.

Ele esticou os braços em direção à ela. Soya tentou resistir, mas acabou se aproximando e deixando-se ser abraçada.

— Mais uma vez, eu te perdoo. Esse isolamento… não é fácil.

Ela se afastou dele com um leve empurrão, agora com um sorriso, embora os olhos estivessem úmidos. Mas ele já não prestava atenção a ela.

Arva dirigia-se à jaula do H-4. O indivíduo estudava as próprias mãos com muita atenção, esquecido de tudo o que lhe rodeava.

— Ei. – disse Arva, sacudindo as grades de metal. – Ei! Olhe para mim!

O indivíduo virou a cabeça, mas seus olhos estavam desfocados. Demorou um instante até parecer compreender o que se passava, então sorriu e fez, com as mãos, o sinal para “Olá”.

— O que está acontecendo, Arva?

O mentestador se afastou da jaula.

— Ele estava olhando para nós, Soya! Você precisava ver os olhos dele!

— E qual o problema? Ele não entende o que…

— Foi como ele olhou, Soya! –  disse, sacudindo-a pelos ombros. – Ele parecia… ele estava sorrindo!

Soya soltou-se dele e recuou dois passos. Passava as mãos onde ele a apertara.

— Acho que você imaginou isso, Arva. Estamos acordados há muito tempo. Você sabe, o excitador, depois de um tempo, tende a causar…

— Não ouse dizer que estou alucinando, Soya! – gritou. – Não ouse!

Ela lhe virou as costas, tirou as luvas e o jaleco e saiu da sala.

Arva sentou. Só então percebeu como estava exausto. Dois dias inteiros sem dormir, ela tinha razão.

Retirou o excitador do plugue atrás da cabeça e sentiu o baque de seu metabolismo desacelerando. Tinha cinco, no máximo dez minutos antes de desmaiar de cansaço.

Levantou, as pernas pesadas e doloridas, e caminhou até a jaula do H-4.

— O que você está escondendo? – perguntou.

H-4 fez o sinal de “Olá” e sorriu.

*

Semana 03, dia 06.

Os resultados dos exames mostram um crescimento neural que não justifica minhas suspeitas. O cérebro de H-4 ainda é, de certa forma, infantil. Em algumas estruturas, pode-se notar também a formação de novas sinapses, mas isso não é inesperado, dado o trabalho com drogas e estimulação direta. Mesmo assim, sugiro uma observação mais atenta e a implantação de um sistema de monitoramento mais rígido.

Soya ainda acha que estou obcecado, mas sei que há algo de errado com esse… essa coisa que criamos. E provarei a ela que tenho razão.

Nem que eu tenha que morrer para isso.

_______ 

O lado de Arva na cama já estava frio quando ela levantou. Com certeza, a esta hora, ele estaria no laboratório, observando e testando o H-4, sua obsessão.

Após um banho demorado, tomou o café da manhã – sozinha, mais uma vez – e foi até o Lab4. Ao chegar lá, encontrou a porta entreaberta.

À exceção do display holográfico piscando no canto, estava tudo escuro e silencioso. Cheiro de éter. Cheiro de…

Sangue?

Empurrou a porta.

— Arva?

Podia ver, graças à luz fraca do display, frascos e armários quebrados sobre as bancadas. O braço robótico estava preso num ciclo de repetição, e ela trincou os dentes com o barulho que fazia ao subir e descer sem parar.

— Arva, você está…

Soya escorregou e caiu de quatro no chão. Sentou-se e, com as mãos diante do rosto, compreendeu o que era aquele líquido escuro.

— Arva? Estou assustada!

Ela tentou ficar de pé e, ao apoiar-se na grade da jaula, percebeu-a aberta.

— Meu Deus! O H-4! Arv…

Uma mão forte tapou-lhe a boca, e ela sentiu algo pontiagudo a espetá-la nas costas.

— Não gritar. Só nós agora. Vir comigo, So-Ya.

Soya tentou se soltar, mas sentiu a ponta afiada penetrar-lhe na carne logo acima da cintura.

— Não mexer, não gritar, So-Ya. Não querer fazer mal. Prometer se comportar, soltar So-Ya.

Ela fez que sim com a cabeça, e sentiu o aperto relaxar. Ela se afastou e viu que ele segurava um estilete de grafocarbono.

— Onde está Arva?

— Morto – disse H-4. – Ar-Va mal. So-Ya não mal. So-Ya ensinar H-4 a falar. H-4 gostar de So-Ya.

Ela sentiu as pernas falharem e caiu, mais uma vez, sentada no chão, sobre a poça de sangue. Sua visão ficou turva, e ela sentiu que H-4 a punha nos ombros. Depois, o vazio.

*

Semana 28. Dia 07.

H-4 agora é mais inteligente que eu. Seu domínio da linguagem é assustador. Hábil, usa seu polegar opositor como nunca nenhum de nós conseguiu. É vaidoso e muito consciente de sua sagacidade. Todos os dias, utiliza um bisturi laser alterado para raspar os pelos do rosto. “Não quero parecer um de vocês”, diz.

Seu apetite sexual é insaciável, e ele parece não se importar com nossas diferenças fisiológicas. Quando não está lendo ou estudando, não me dá descanso.

Eu ainda não tive coragem para dizer que estou grávida, mas acredito que ele já suspeite. Minhas mamas estão um pouco maiores e mais sensíveis, e meu pelo está mais sedoso. Se não sabe, logo vai perceber.

O que me inquieta é não saber como será esse… filhote. Somos tão diferentes…

Será ele fértil? Olhará para mim com amor? Estou tão angustiada.

Nunca tive tanto medo do futuro…

Nativo de um século analógico, fã de literatura de FC e Horror. Contista e poeta, escreve por necessidade. Músico e fotógrafo amador, acredita que a beleza do mundo reside no fato de não haver sentido (ou segredo) algum.

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Nativo de um século analógico, fã de literatura de FC e Horror. Contista e poeta, escreve por necessidade. Músico e fotógrafo amador, acredita que a beleza do mundo reside no fato de não haver sentido (ou segredo) algum.

  • Angela Cristina

    Ótimo!