O Louva-a-Deus

Era uma casa no meio do mato. O dia estava ensolarado e a brisa era quente de verão. Abafado. Ele entrou neste lugar e ouviu uma música. Não conseguiu identificar direito que sons eram aqueles, mas eram sedutores. As notas da guitarra o envolviam e o guiavam para a cozinha. Ele ficou parado na porta ao perceber uma mulher desconhecida que estava de frente para a pia e de costas para ele. Ela tinha os cabelos brancos e longos até o final das costas, a aparência etérea, daqueles seres atemporais. Estava com um vestido primaveril de algodão leve e com botões na frente que iam desde o decote até às canelas das pernas.

Ela fazia movimentos parecidos com uma dança, mas não estava dançando. Seus braços balançavam em leves círculos aéreos acompanhados pelas mãos que passeavam pelo invisível. Seus ombros faziam círculos para trás e a cabeça acompanhava esse ritmo, parecendo quase uma manha infantil, mas inebriante. Ao se virar para ele, ela permaneceu de olhos fechados. Sem olhá-lo, ela continuou com seu movimento, envolvendo-o com o seu mistério. Ela não o tocava, mas ainda assim ele a sentia em cada gesto executado com destreza. Em nenhum momento ela perdera o equilíbrio.

Apesar dele não saber o motivo dela estar ali, ele não se importou. Ela comandava seus pensamentos até que veio o golpe final: as pontas dos seus cinco dedos encostaram no chacra cardíaco dele , e ela puxou algo que lhe pertencia. Ele sentiu o livre-arbítrio sendo roubado de si e seus olhos, que antes eram negros, tornaram-se brancos e opacos. Ele tentou respirar, mas não conseguiu. A bateria da música que tocava tomava um rumo caótico com outros sons irreconhecíveis. Ele estava hipnotizado e sob o comando da dançarina. Ela se pôs à sua frente e finalmente abriu os olhos para mostrá-los na cor natural: escarlate.

Ela rasgou a roupa dele com a unha como uma tesoura rasga seda. Ela desabotoou o vestido e passou a palma da mão de um jeito doce no rosto dele. Ele a levantou do chão com desejo e a pôs deitada na mesa da cozinha. Ele tentou beijá-la, mas a cabeça dela ainda fazia a manha inicial, fugindo. Ele respirou em cima dela e sentiu o seu aroma floral exótico. Ela passou a língua em seu pescoço. Ele passou os lábios na sua barriga e as mãos nos seus seios. Apertou suas coxas com força enquanto a penetrava. Ela agarrava o seu peito e remexia os quadris. Continuava com seu ritual enigmático. O ritmo aumentava aos poucos e apesar dela arquear suas costas de um jeito tão erótico e esticar os braços para a janela da cozinha, ele sentiu um arrepio na espinha.

A esposa dele estava do lado de fora, e a tudo via. Ele, ainda inconsciente, continuou a copulação. O coito interrompido não era opção para ele. Pelo contrário, ele a penetrava cada vez mais forte e rápido. A esposa entrou pela janela e deu um beijo nos lábios da dançarina. Com esse gesto, a dançarina sentiu a vida se esvair dela como uma fumaça de cigarro quando é lançada na boca de outra pessoa. Ele pegou suas pernas e beijou seus pés, mas eles agora tinham gosto ferroso. Os olhos dela perderam o brilho vivo do sangue e se transformaram em um branco cristalino. Ele gozou e seus olhos tornaram-se vermelho-pulsantes, assim como o seu cabelo, que parecia pegar fogo. Enquanto o orgasmo acontecia, a esposa aprisionou o livre-arbítrio que a dançarina roubara de seu marido. O volume da música aumentava até que terminou abruptamente.

O encanto se quebrou e ele despertou. Ele procurou a dançarina na mesa da cozinha mas não a viu, apesar dela ainda estar lá. Com seus olhos cristalinos. Ali jazia o corpo de mais um animal que só tinha um propósito.

A esposa agora estava na porta da cozinha. Ela falava com ele como se nada tivesse acontecido, mas ele sentia que algo estava diferente. Ele se sentia vazio. A esposa ordenou que ele voltasse para ela. Ele não queria. Ele já tinha deixado, mas algo o impeliu para que a obediência fosse feita de forma incondicional. Tornara-se uma casca manipulável nas mãos dela. Perdera a sua própria vontade. Pelo visto, existem muitas formas de morrer e essa seria uma delas. Percebendo a sua situação, o homem permitiu-se ser levado pela tristeza, pois sentia as pontas dos cinco dedos cravados na pele e aquele aroma de primavera no ar. Sabia que a partir daquele momento, somente o inverno o aguardava. Ainda assim, ele teve esperança de ouvir o canto de um grilo ao fundo.

São nos sonhos que eu encontro as respostas para viver a realidade que não consigo entender.

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