Jacaré, Josinaldo e jogo do bicho

Toda cidade tem suas idiossincrasias, e todo mundo gosta de falar daquelas características que tornam único o lugarzinho em que nasceram ou residem. Façam o teste e perguntem o que acham de suas cidades um paulistano, um recifense, um rolandense (Rolândia-PR). É certo que não responderão com um simples “normal”. Em vez disso, citarão causos por horas e horas.

Dito isto, deixo claro que Fortaleza é uma cidade peculiar.

Mesmo sendo já uma baita metrópole, Fortaleza ainda conserva certo ar de cidade pequena, aquela coisa de cadeira na calçada, fofoca na saída da igreja e briga de casal no boteco da esquina. Tudo muito prosaico, tudo muito provinciano, onde acontecimentos os mais banais costumam chamar atenção desmedida. Aqui, temperaturas abaixo de vinte e cinco graus rendem manchete no jornal; a maior atração do museu é um bode empalhado; e o grande maníaco nunca matou ninguém, só cortou bundas (aliás, a curiosa história do “Corta-Bundas” deu-se justo num dos bairros mais tradicionais, o José Walter).

São muitas as histórias que ainda se contam nos bancos das praças, resistindo ao avanço do progresso e do consequente distanciamento característicos das grandes capitais. Apesar dos governantes sem o menor apreço pela História (arquitetura antiga é convite às picaretas), o povo conserva a tradição na oralidade e nos pequenos absurdos cotidianos. E dos personagens que ajudam a colorir o imaginário fortalezense, um dos meus preferidos sempre foi o jacaré.

Qual jacaré?, pergunta o curioso leitor. Qualquer um. Fortaleza é cheia de lagoas, interligadas ou não por riachos, e cada uma delas tem ou teve o seu próprio jacaré, uma espécie de lenda urbano-reptiliana. Todo morador de Fortaleza sabe que jacarés habitam a lagoa da Parangaba, a lagoa do Opaia, a lagoa da Maraponga, mesmo que nunca tenha avistado nenhum descansando nas margens.

Aliás, é bom que se diga: jamais alguém viu jacarés em duplas, trios, grupos. Os jacarés das lagoas de Fortaleza são criaturas solitárias, como o Monstro do Lago Ness ou o Pé Grande. Biólogos sempre garantiram não existirem jacarés nativos das lagoas, e a história talvez esfriasse não fosse aqui e ali alguém descolar uma fotografia de um deles.

É certo que não se falava de jacarés antes da década de 1990, mais ou menos a época em que Josinaldo começou a trabalhar no zoológico municipal. Amigo de meu pai, Josinaldo vivia de bico até conseguir a vaga de zelador (não é como se zelador de zoológico fosse uma vaga disputada).

Quando começaram a surgir os primeiros boatos sobre jacarés, logo as atenções se voltaram para Josinaldo, o faz-tudo do zoológico. Papai vivia perturbando o coitado, espalhando que era ele o responsável pelo fenômeno dos jacarés nas lagoas da cidade. Ele se indignava.

— Eu lá vou dar liberdade pra jacaré?

E assim continuou trabalhando e suportando pilhérias por quase duas décadas, até ser sorteado no jogo do bicho. Pegou o dinheiro, montou uma bodega e deixou o zoológico. Já era tarde: a fama tinha pegado, e ninguém chamava a bodega do Josinaldo pelo sacro nome oficial, “Comércio São Francisco”. Era simplesmente a Bodega do Jacaré.

Por coincidência, os avistamentos de jacarés reduziram drasticamente. Claro que isso chamaria atenção, e aí é que passaram mesmo a aporrinhar o coitado do Josinaldo.

Um dia, talvez percebendo que já não corria risco com a história, Josinaldo enfim admitiu que os jacarés eram meio que sua responsabilidade. O espanto foi geral. Ninguém nunca levou essa possibilidade realmente a sério.

— Então você soltava os jacarés? — perguntou papai.

— Claro que não! O fosso que era baixo e a prefeitura não liberava dinheiro pra arrumar. Mês sim, mês não, escapava um.

— Então você não tem culpa, homem de Deus.

Josinaldo fez um muxoxo.

— Eu era o encarregado de capturar os que fugiam, mas só pegava o equipamento e fingia entrar no mato.

— E o que você ia fazer?

— Jogar no bicho.

Com peso na consciência, nunca apostava no jacaré. No dia em que resolveu apostar, ganhou.


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Editor geral do Escambau, administrador por profissão e escritor por necessidade. Escreve às terças-feiras.

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