O Pacto das Trevas: Fortaleza – Parte 7

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Mariana

Era a terceira vez que ele ligava. Mariana descartou a ligação sem hesitar.
Fazia já seis meses que não se falava. O que ele queria agora? Aliás, nem tinha por quê continuarem se falando.
Ela procurou um lugar para sentar, mas àquela hora a estação do Benfica estava lotada. E quente.
Tinha acabado de se recostar em uma parede quando a mensagem dele chegou.

Mari, desculpa incomodar. Preciso muito conversar, e só consigo pensar em ti.

Engraçado. Depois de tudo, depois de sumir da vida dela, agora vinha com esse papinho de “só penso em você”.

Meu pai morreu, fiquei sabendo de umas histórias sem sentido… minha vida virou do avesso. Preciso mesmo falar contigo. Por favor?

O pai dele morrera? Que barra. Mesmo eles não se dando bem, depois… de tudo o que aconteceu. Ela digitou:

Isso não é você tentando reatar, ou coisa parecida, é, Miguel? Se for, fique sabendo: sem chance.

Miguel demorou a responder. Ela pensou que ele havia desistido.

Quer saber, Mari, deixa para lá. Desculpa o transtorno. Boa noite.

Ela percebera sua rudeza. Nem mesmo Miguel merecia aquilo. Ela discou o número dele, rezando para que o sinal – que pegava muito ruim ali – não atrapalhasse.
— Oi, Miguel.
— Mari, é sério, eu não queria incomodar. Esquece.
— Não, eu fui grosseira — ela disse. — Você tem problemas, e talvez eu possa ajudar. Fala.
Ele ficou em silêncio por alguns instantes.
— Você está no Benfica? — ele perguntou.
— Na estação.
— Por isso a ligação está falhando. Olha só, em quinze minutos eu chego no Cantinho. Pode ser?
— Se for só uma conversa, pode.
Ele riu um riso sem graça.
— Tudo bem, só uma conversa, Mari. Prometo. E olha: obrigado mesmo.
Ela desligou com um suspiro. Uma senhora que estava ali perto sorriu.
— Noite difícil, menina?
— A senhora nem imagina — disse Mariana, guardando o celular na bolsa.

*

Ela chegou no bar antes dele. Era cedo numa terça, não havia quase ninguém. Ela pediu uma água com gás e sentou.
Miguel: mimado, egoísta, hesitante e inseguro. Depois de seis meses, continuaria igual? É claro que ninguém muda em tão pouco tempo, mas…
E afinal, o que queria ela esperando por mudanças? Que esperança era essa que alimentava? Eles não tinham mais nada a ver!
Quinze minutos. Ela esperaria quinze minutos, não mais que isso. Ele era a parte interessada. Ela iria chegar mais tarde em casa, atrasaria o jantar, ouviria reclamação do pai… principalmente se ele soubesse que ela tinha saído para se encontrar com “o louco filho do assassino”.
Paciência.
Quinze minutos.

*

Miguel chegou após vinte. Ela tinha decidido ir embora, já até tinha pedido a conta quando ele chegou.
— Desculpa mesmo, Mari. O trânsito…
— Terrível a essa hora — ela disse, e estendeu a mão. — Como você está?
— Nada mau — ele disse, apertando a mão dela. — Mas poderia estar melhor.
Sentaram. Ele havia raspado o cabelo por completo, a barba crescida com pontos brancos aqui e ali. Havia perdido peso, e as olheiras escuras contrastavam com a palidez da pele.
— Você não parece bem mesmo.
— Mas você continua linda.
Ela tentou conter o rubor, mas o calor subiu-lhe o rosto sem pedir licença.
— Você prometeu não tentar nada — ela disse.
— Não tentei. Não posso te elogiar?
— Não assim — ela falou. — Melhor não.
Ficaram em silêncio por um instante. Mariana pediu uma cerveja e dois copos, e tirou a carteira de cigarros da bolsa.
— Quer um? — ela perguntou.
— Não, eu parei.
— Foi? Quando?
— Quando a gente terminou.
Ela enrubesceu mais uma vez. Maldito!
A cerveja chegou. Gelada, branca de gelo.
Ela serviu aos dois e bebeu de um gole só. Ele não tocou no copo.
— Você disse que queria conversar, Miguel.
— Verdade.
— Pois pode começar — ela disse, e na mesma hora percebeu a grosseria.
Ele sorriu e começou a falar. Relembrou a morte da mãe e o internamento do pai; parte da vida com os avós, a adolescência difícil, a superação parcial desses problemas. Falou das fotos, das lembranças da mãe e do ódio que sentia pelo “João Miguel”.
Ela só ouvia, bebendo mais devagar, soprando a fumaça para cima.
Ele continuou falando de como soube da morte do pai, da caixa, da carta e do diário. Falou da velha que entrara em sua casa sem convite, do perfume cítrico e doce, da mudança que ela sofrera, do medo e da loucura que brigaram juntas em sua cabeça com tudo o que ela dissera.
Depois ele falou sobre o que aconteceu quando abriu o diário, e do encontro com a mãe, e das coisas que ela comentara. Terminou o relato bebendo sua cerveja de uma só vez, os olhos cheios d’água.
Miguel parecia sozinho, perdido e ferido. Ele era como um copo de vidro remendado várias vezes, as cicatrizes à mostra, condenado para sempre a ser derrubado da mesa todas às vezes durante o jantar.
Ela sentiu pena dele, de sua dor, da solidão. Ninguém deveria sofrer assim.
Mas isso não era problema dela. Nunca fora, na verdade.
— Será que eu estou ficando louco? Será que herdei a doença dele, Mari? Isso tudo — disse ele, abrindo os braços, os olhos arregalados —, será que isso tudo não é só um pesadelo? E se é, quando vou acordar?
Ela olhou para ele em silêncio. Pediu outra cerveja, pegou outro cigarro e mudou de ideia.
— Miguel — disse ela, aproximando-se da mesa. — O luto é um período complicado. É um processo delicado. Cada pessoa lida com a morte de uma maneira diferente: negando, fugindo, fingindo… talvez você esteja passando por tudo isso assim, caminhando entre ilusões, criando ficções. Nessas histórias você é o herói, e tem o poder de resolver as coisas, consertar o que está quebrado, combater o mal…
— Mari, eu sei a diferença entre o que é sonho e o que é real.
— Não, Miguel, você não entende…
— O que eu preciso saber é o seguinte: eu estou ficando louco? É só isso. Porque se não estou, tudo isso o que está acontecendo é de verdade.
— Você nunca facilita as coisas — ela disse.
— Esse é o meu trabalho — ele disse, e sorriu. Era a primeira vez que o fazia depois que chegara ali, e era como se uma luz acendesse e iluminasse tudo. Uma vez ela vira uma foto da mãe dele, e ela sorria desse jeito. Ele era a cópia exata do pai, mas com o sorriso e os olhos da mãe. — Nunca fui fácil.
— Temos que concordar nisso. Miguel, eu não posso te dar um diagnóstico. Eu nem me formei ainda, e qualquer coisa que eu diga pode… sei lá, piorar as coisas. Seria irresponsável da minha parte…
— Mari, não quero a psicóloga. Quero você, aqui e agora. Sei que já não temos mais nada juntos, e a culpa foi minha. Você sempre foi perfeita, e até me pergunto como aguentou tanto tempo a meu lado. Mas a questão aqui é: você, mais do que ninguém, me conhece. Diga: eu estou ficando louco?
Ela se afastou da mesa e se recostou na cadeira.
— É a primeira vez que falamos… da gente — ela disse.
— Sinto muito — ele falou. — Eu não te mereço.
— Quem tem que decidir isso somos nós, juntos. Não é você. Você nunca me perguntou se eu queria terminar.
— Você quer voltar, Mari? Quer começar tudo de novo?
Ela corou. Tentou conter o sorriso, falhou, forçou-se a ficar séria de novo.
— Você prometeu que não ia tentar nada!
— Eu não estou tentando.
Ela o odiou naquele instante. Continuava sendo o manipuladorzinho frio de sempre, só a casca estava diferente.
— Você não parece louco para mim. Continua sendo o mesmo cretino, cínico e egoísta de sempre.
Ele sorriu.
— Ainda bem. Ainda bem mesmo. Eu precisava ouvir isso, mas tinha de ser você dizendo.
Ele encheu o copo e bebeu, em pequenos goles.
— Miguel, eu não estou entendendo…
— Você reage a mim do mesmo jeito. No começo, parecia estar com pena, mas depois eu vi carinho, e raiva, e até mesmo repulsa agora no final. Se eu estivesse ficando louco, você estaria agindo diferente.
— Você me usou…?
— Como parâmetro de normalidade. Entenda, minha querida, não estou te usando. Você está me ajudando.
— Isso é inacreditável!
Ele pegou as mãos dela sobre a mesa. Ela tentou puxá-las, mas ele as segurou firme.
— Mari, se você me perguntar se eu ainda te amo, eu vou dizer. Mas se não perguntar, eu desejo continuar sendo teu amigo. Porque você me ajuda, é um farol no meio dessa… escuridão onde eu vivo. E se tudo tem que ter um lado positivo, é que pensar em você me dá forças. Por favor, me ouve até o final. Por favor.
Ela parou de resistir e ele soltou suas mãos.
— Eu te deixei ir… não, melhor: eu te fiz perceber que era livre para ir quando quisesse porque eu sei que você não estava feliz comigo. Não mais. E eu entendo, eu não sou fácil, tenho uma tendência nojenta de puxar as pessoas para baixo. Mas você é luz, precisa de céu para brilhar.
— A escolha é minha!
— Eu sei, minha linda. Eu sei. Desculpa por continuar sendo esse traste. Mas o que eu precisava de você hoje era isso: a referência. E você me deu isso, uma luz para iluminar o caminho. E eu só tenho a agradecer.
Ele ficou de pé e colocou algumas cédulas sobre a mesa.
— Eu tenho dinheiro — ela disse.
— Por favor. Eu te tirei da rota, atrasei teu dia. Você odeia atrasar o jantar. Deixa eu pagar essa. É o mínimo que eu posso fazer.
Ela cruzou os braços, as sobrancelhas para baixo.
— Dessa vez, tudo bem.
— Dessa vez? — perguntou ele, sorrindo.
Ela corou. Maldito! Maldito!
— Obrigado por ter vindo, e me ouvido, Mari — ele disse, e deu-lhe um beijo na testa. Ele deu as costas e começou a se afastar.
— Ei, Miguel?
— Sim? — ele disse, virando-se em direção a ela.
— O que você vai fazer?
— O que eu deveria ter feito faz tempo. Aceitar os problemas e começar a resolvê-los.

*

Mariana entrou no trem ainda sem entender direito a conversa com Miguel. Ele parecia confuso, mas não irracional. Suas palavras eram ditas com clareza e sem hesitação. Embora houvesse pessoas com perturbações mentais que parecessem seguras, ele aparentava, apesar da fragilidade, uma serenidade que ela desconhecia.
Procurou um lugar para sentar e recostou a cabeça no vidro. Pensou em ouvir música, mas a viagem passava muito rápido. Resolveu então apenas descansar e esperar sua estação.
Fechou os olhos por alguns segundos. Quando os abriu, havia uma senhora grisalha sentada a seu lado, um cigarro apagado na mão.
— Ele é muito confuso, o seu rapaz, não é, menina?
Mariana olhou para ela. Não era a mesma senhora que estava parada a seu lado na estação no início da noite, quando Miguel ligara?
— Desculpe, o que a senhora disse?
— O rapaz, seu namorado. Ele é complicado, não é?
Mariana ficou em silêncio, as palavras da senhora vibrando junto com o ruído surdo do trem.
— Senhora, eu não sei do que está falando. Desculpe, mas hoje não é um bom dia para…
— Mariana.
Havia algo na maneira como a velha dissera seu nome, uma pressão, como se houvesse alguém pesado sentando em seu peito. Uma forte fragrância cítrica e adocicada se espalhou pelo vagão, e ela pôde perceber algumas pessoas se afastando delas, tapando o nariz ou fazendo caretas.
— Quem é a senhora? — disse Mariana, as palavras saindo duras entre os dentes travados.
— Ah, mas você me conhece. Miguel com certeza falou de mim, meu amor. “Senhora Flor de Limão”, ele disse em sua historinha. Claro que ele deixou muita coisa de lado, mas somos assim, não é? Vemos apenas o que escolhemos ver. Acho que chamam a isso de “seletividade”. Sim, essa é uma boa palavra.
Mariana viu-se presa na teia de palavras que aquela mulher tecia a seu redor. Havia um bolsão vazio de gente perto delas, e todos pareciam alheios a sua presença.
— Miguel é um menino tolo. Vejo muito potencial em você, sabia? Ele se acalmou, criou certeza. Estava hesitante, com medo… mas depois de conversar com você? Cheio de determinação. Farol, ele disse que você era um farol. Claro que estava errado; você é um talismã.
A velha agarrou seu pulso direito e apertou. Mariana tentou gritar com a dor, mas não conseguiu. As palavras não chegavam até a boca.
— Como todo talismã, deve ficar próximo ao possuidor. É isso, menina, a missão que tenho para você: cuidar dele, ajudá-lo a descarregar todo o ranço. E acredite-me: se ele seguir o pai, se abraçar o Caminho… ranço e podridão serão seu café da manhã, almoço e jantar.
Ela soltou seu braço e sorriu, os dentes perfeitos brilhando. Parecia uma avozinha, a pele escura enrugada e brilhosa, os cabelos de algodão fazendo pequenos círculos sobre a cabeça.
— Pode falar agora — disse a velha. Angélica, lembrou Mariana, da história de Miguel.
— Então… é tudo real? As coisas que ele me disse?
A mulher abriu os braços e sorriu. Parecia uma atriz no centro do palco, sob as luzes. Mas havia um brilho avermelhado em seus olhos que transmitia medo irracional e escuro.
— O que você acha, minha criança?
Mariana respirou fundo. O peso sobre o peito havia cessado, mas uma raiva intensa começou a crescer dentro dela.
— Olha, senhora Flor de Limão…
— Angélica — disse a velha, tocando de leve a perna de Mariana.
— Que seja! Olha, eu não quero ter mais nada a ver com o Miguel. Não sou farol nem talismã, nem sou a mãe dele! Se ele se envolveu em alguma coisa obscura, eu…
Angélica pegou o pulso dela mais uma vez. Além da dor, havia um fogo penetrando na pele, nos músculos, indo até os ossos do braço. Dessa vez Mariana gemeu, mas ninguém pareceu se importar.
— Você vai servi-lo, e vai me obedecer — disse a senhora, os olhos agora vermelhos sem nenhum traço de branco. — Não há escolha.
— Eu não sou serva de ninguém!
Angélica soltou o pulso de Mariana, avaliando-a.
— Você é forte — disse ela. — Como eu pensei. Veja, Mariana, é simples. Eu tenho uma maneira muito clara de pensar, que vocês jovens chamam de “binária”. Ou sim ou não, claro ou escuro, bem ou mal, zero ou um…
— A senhora está me ameaçando?
— Eu não faço ameaças, criança. Não me interrompa — disse ela, com um gesto da mão. A boca de Mariana fechou com um “claque” forte, e ela gemeu de dor. — Escute: se você não me der o que eu quero, é inútil para mim. O que é lixo, eu descarto. Nesse momento, eu preciso de você; no futuro, quando Miguel for forte por si, eu a dispensarei. E então, o que me diz?
Havia filetes de sangue escorrendo dos cantos da boca de Mariana, e lágrimas escorriam de seus olhos. A dor em sua mandíbula era intensa e constante.
— Vamos, não seja orgulhosa. Eu sei que você ainda gosta dele, e ele ainda é caidinho por você. Todos ganham! O que me diz?
Mariana hesitou, mas fez que sim.
— Ah, que ótimo! — disse Angélica, batendo palmas. — Como é bom conversar com gente inteligente! Agora, preste bem atenção: se você contar ao Miguel, eu te mato. Se contar a mais alguém, eu te mato. Se tentar se matar, eu te impeço e te faço sofrer pela eternidade. Tudo bem?
— Sim — disse Mariana, a voz apenas um fiapo.
— Maravilha! Agora, prepare-se: os outros saberão que você entrou no time, e vão querer saber o que você sabe.
— Quem são esses outros?
— Ah, meu anjo — disse Angélica, ajeitando retirando uma mecha de cabelo da testa de Mariana —, não se preocupe com isso. Mas se estiver em perigo, pressione a flor em seu pulso e alguém aparecerá para ajudar.
— Que flor?
Mariana olhou para o braço. No local onde a mulher a prendera, havia uma pequena flor branca. Uma flor de limão.
— Como você…?
Mas a velha já não estava mais lá.

Nativo de um século analógico, fã de literatura de FC e Horror. Contista e poeta, escreve por necessidade. Músico e fotógrafo amador, acredita que a beleza do mundo reside no fato de não haver sentido (ou segredo) algum.

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Michel Euclides

Nativo de um século analógico, fã de literatura de FC e Horror. Contista e poeta, escreve por necessidade. Músico e fotógrafo amador, acredita que a beleza do mundo reside no fato de não haver sentido (ou segredo) algum.