A Premonição

Fora um dia difícil. Seu cachorrinho Billy, o primeiro que a família tivera, estava internado na veterinária. A menina foi junto com a mãe vê-lo no horário de visitas. Apenas quem tem um animalzinho de estimação sabe da angústia de tentar salvar com as próprias mãos e ser incapaz de fazer algo além de dar mais amor e carinho. Vítima da síndrome radiculite canina, o animal perdera a força nos músculos internos e externos. Não se movimentava mais, comia por sonda, usava fralda e agora estava atacado por uma pneumonia. Essa era a terceira vez que a doença se manifestava. A primeira vez ele ficou mal, mas ainda conseguia comer e respirar direito. A segunda, ele teve febre alta. Em todas, aquele bichinho, que devia se chamar Lázaro, se recuperava e a alegria voltava à casa, com o seu latido, com as suas artimanhas para roubar a comida dos outros, com as brincadeiras, com o seu dengo. 14 anos de vida.

A menina percebeu nos olhos do seu companheiro que o caso era mais grave do que fora as duas vezes anteriores. A luta estava exaustiva para ele e ela prendeu o choro. A mãe precisava de uma rocha ao lado, pois o cachorro era como um filho para ela. A menina chegou perto do rosto do animal e lhe cochichou: não sofra mais, Billy. Eu vou cuidar da mamãe. Eu vou sentir muito a sua falta. Mas vá em paz. Os olhos dele a vislumbraram como se ele tivera entendido o que foi dito.

Naquela noite, a menina sonhou. Ela adentrava um corredor de mármore cinza, frio, estreito e mal iluminado. Ao longo do corredor, viu um grande pano branco suspenso do chão. Ela se aproximou dele. O pano estava em um formato de bolsa e parecia estar preso ao teto pelas quatro pontas. No seu interior, tinha um homem adulto. Muito bonito. Ele estava nu. Ele foi se descobrindo do pano e olhou para aquela que lhe contemplava. Ele tinha a expressão de muita dor e estava na posição fetal. Parecia aquelas imagens de quando Jesus é retirado da cruz. A menina percebeu a luta interna, mas também que não poderia fazer nada por ele. No fundo do pano branco apareceu uma mancha vermelha, que aumentou aos poucos, empapando o seu conteúdo. Um fio de sangue começou a escorrer do pano. O homem olhou mais uma vez para a menina. Ela reconheceu aqueles olhos negros. Tão negros e tão macios como uma jabuticaba. Até na dor, o acolhimento não cessava. Ela sentiu a dor da despedida, mas sabia que seria melhor assim. Mentalmente, ela o libertou do suplício e ele deu o último suspiro…

A menina acordou de manhã com o sabor da antecipação mórbida na garganta. Assim que sentou na cama, a irmã abriu a porta de seu quarto para lhe contar a notícia: o Billy morreu. Ele não aguentou… A menina abriu os braços para confortar a irmã. Choraram juntas a perda de um ente querido da família. Ela tomou banho soluçando no chuveiro e se arrumou. Chorou todas as lágrimas que pôde para que, quando visse a mãe, cumprisse a promessa que fizera no dia anterior. Naquele momento, ela não seria uma menina. Ela seria o porto seguro do luto materno.

São nos sonhos que eu encontro as respostas para viver a realidade que não consigo entender.

Juliana Ferraz

São nos sonhos que eu encontro as respostas para viver a realidade que não consigo entender.

  • Fabiano Sorbara

    Muito bom Juliana, um tanto triste, mas a vida não é feita só de alegrias! Gostei!

    • Ju Ferraz

      Obrigada, Fabiano. Verdade seja dita, foi aniversário de morte do Billy. Quis prestar uma homenagem a um ser que nos deu tanto carinho. Outros textos são e serão mais felizes. Abs. =]

  • Claudia Jeveaux Fim

    Lógico que chorei! Tão sensível seu texto que visualizei o sofrimento do homem e do cãozinho. Por outro lado, a mensagem de amor benevolente que consola a dor da perda. Parabéns, Juliana!

    • Ju Ferraz

      Obrigada, Cláudia. =]