A companheira

Já não sou tão nova assim. Minha existência é anterior ao meu dono. Na verdade, fui o último presente recebido pelo pai dele. Na época, eu era firme, afiada, brilhosa, aço recém-forjado, sabe. Com a morte de meu primeiro proprietário, virei herança do atual, que ainda andava de cueiros.

Não esperei muito até que ele viesse me manejar, já com cinco anos. Levou-me para um capinado e travou peleja comigo. Quase me arrebentou, tanto que acertava pedras ao invés de mato. Mas a vingança foi mais voraz, pois, por um triz, não lhe cepei o dedão do pé. Atirou-me longe na mata, bem, longe para a força que tinha, xingando e vomitando todos os impropérios e nomes do mal que conhecia. Esse foi nosso primeiro encontro. Não achei ruim: o meninote tinha fibra.

Com o passar do tempo, fomos tendo mais intimidade. Rapazola, ele já me impunha seu ritmo, seu compasso, enquanto eu, extensão de seu braço, ia realizando suas vontades a gosto.  E como tinha prazer em trabalhar, o meu amo. Levava o seu matulãozinho com alguma caça assada, preferência avoante, e um punhado de farinha, uma talhinha de água sombreada e uma cabacinha com aguardente, só para poder dar gosto na boca de pitar um fumo na palha. E roçávamos manhãs, lavrando as tardes em noites solitárias de retorno ao lar. E foi um tanto de cultura de milho, um bocado de roçado de feijão, um punhado de campo de arroz, um sem contas de pé de fumo, um mundo de plantação de café e outros plantios a fora, tudo graças à energia dele e a minha precisão.

E todo dia era a mesma ladainha: madrugar para ir à lida e começar a labuta, roçando ora aqui, ora ali, desbastando mato ruim para virar terreno bom, cavando cova para a semeadura. Lá para as dez horas abrir o matulão e mordiscar alguma coisa, beber água fresca de cabaça, enrolar fumo na palha, uma pequena dose de pinguinha, e pitar. Sestar um “cadiquim” para aprumar os músculos e, “adispois”, retomar a cangalha nos ombros e voltar ao batente.

Pela tarde era pior, o sol lambia o lombo do pobre diabo, meu senhor: córregos de suor desembocavam em mim, numa torrente de sal, cansaço e padecimento. Nessas horas, eu chorava o flagelo dele.

Quando chegava a noite, colocava-me nas costas, o resto da tralha eu o ajudava a carregar. Ficávamos qual menino fujão, com trouxa e tudo. Ao chegar em casa, descansava-me na parede de tapera, tomava um banho de cuia e bucha-do-mato, estirava a rede nos armadores, dosava o punho e se deitava, coçando os pés um no outro, tentando tirar algum bicho invisível. Eu me quedava em riste, atenta para, ao menor sinal de perigo, tombar e alertá-lo. Velava-lhe o sono, suspirando de sentimentos bons por aquele pobre sacrificado.

Época de chuva, mesmo raras, era um deus-nos-livre-pai-eterno. A estrada até a roça era quiabo puro. Uma terra argilosa, de um cinza-amarelado, difícil de se manter em pé por si só, imagina em rodas. Meu patrão é que dizia: “Deus me deu pernas grandes pra mode dar passada larga, se ele quisesse que eu avoasse me dava par de asa”, querendo justificar as vezes em que não conseguia chegar no campo devido às quedas de pontes, às invasões da estrada pelos riachos e rios e a impossibilidade de se transitar nas veredas devido à terra encharcada não absorver mais água e, junto com a poeira, transmutar-se num amálgama de barro argilosos, obstáculo de percurso. Mas mesmo assim, meu patrão ainda descolava uns vinténs desatolando as conduções que teimavam em seguir viagem por tais caminhos sem volta.

Atualmente, as coisas não vão tão bem. O chão cisma em ficar mais duro. Não sei se porque eu estou mais gasta, de uns tempos para cá, pois minha lâmina erodiu, resultando falhas em meu gume, já não corto como antes. Meu cabo já não é tão firme, vivo desencaixando a-toa-a-toa, atrapalhando a cadência de meu patrão. Ele mesmo esmoreceu. A mão calejada, de ungulado cabisbaixo, sempre a ruminar a própria sina severina, numa cantilena de quermesse, de que tudo vai melhorar, não tem mais vigor; a pele enrugada, repleta de pontinhos vermelhos a sangrarem, não suportam mais o ardoroso abraço solar; os olhos de gavião que avistavam tiriricas e ervas daninha a boa distância mal se dão conta da ponta da própria venta; as costas encurvaram pelo repetitivo-contínuo enxadar terra; as pernas, agora trêmulas, não soerguem nem esperança, além da falta de vontade de trabalhar,  decorrência da cachaça ministrada com “maluncolia”.

Mas nada disso tem muita importância também. O solo está todo rachado mesmo, enfrentamos a pior seca da região, não vinga nada mais a brotar. Faz muito tempo que eu não vejo nada verde, acho que até me esqueci como é. Devo estar confundindo-o com o cinza. Mas não há de ser nada, sempre resistimos a tudo. As de minha espécie estão acostumadas a pôr por terra as adversidades que nos são impostas, sulcando, sulcando sempre. Enxadristicamente.

 

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  • Fabiano Sorbara

    Que belo conto amigo! Perfeita construção, a roça e o árduo trabalho no olhar de uma ferramenta foi uma excelente sacada, gosto quando elementos inusitados ganham vida, além do texto transmitir uma credibilidade na descrição também excelente! Adorei!

  • Delma Maria Lucchin

    Parabéns pelo conto, Zé! Texto envolvente que me levou para a lida… mesmo sem ter muita familiaridade com essa realidade. Excelente!

  • Emerson Braga

    Apenas um artesão municiado de estesia e lirismo é capaz de dar um tiro certeiro desses! Lindo conto, Zé Ronaldo. Retrato poético da tragédia (mais política que natural) que assola o sertanejo há séculos.

  • Claudia Jeveaux Fim

    Maravilha! Envolvente e surpreendente também. Fiquei com vontade de ler mais… Parabéns!