Saber, sadismo e surdez

Dizer que vestibular não mede conhecimento é mais manjado que tossir pra disfarçar bocejo em reunião da firma. Mesmo assim, seguimos insistindo nisso ano após ano, talvez por falta de coisa melhor, ou menos trabalhosa, ou que não se encaixe tão bem à utopia meritocrática. Na Igreja do Capital, prestar vestibular equivale a se benzer na porta; falta um tanto até o altar onde repousam as imagens de Steve Jobs e Margaret Thatcher ao lado de uma cruz invertida.

Como naturalmente o mundo não dá a mínima para a minha opinião, neste último final de semana realizou-se mais um Exame Nacional do Ensino Médio, o ENEM. Não ficarei aqui esbravejando contra uma sociedade que decide seu futuro em questões de múltipla escolha. Melhor focar no quanto essa prova exibe de nosso sadismo cotidiano.

Comecemos com a recente decisão do STF: atendendo pedido do movimento escola sem partida (o uso de minúsculas é proposital), os magistrados resolveram que desrespeito aos direitos humanos não é motivo para anular uma redação. Fugir do tema parece mais grave que escrever um libelo fascista, não? Fico aqui imaginando que nota merece quem usa a expressão “direitos dos manos”. Fechar a redação com “Bolsonaro 2018” dá quantos pontos?

Se do lado de dentro dos locais de prova a turma estava livre para defender da eugenia à cura gay, do lado de fora a nossa estupidez se manifestou em toda a sua glória em mais um capítulo da novela “atrasados do ENEM.” A receita é simples: basta juntar um punhado de adolescentes que se atrasaram para uma prova, uma cambada de jornalistas abutres sem ter o que noticiar, um monte de gente que adora apontar os “males do povo brasileiro”, e adicione uma pitada de estupidez. Pensando bem, três sacas.

Talvez eu seja antiquado, mas não consigo entender como alguém pode se alegrar vendo o sofrimento alheio. Também não consigo ver relação nenhuma entre os atrasos (normais e esperados) e a história do “jeitinho brasileiro”, ou da “preguiça típica do Brasil”, ou ainda do “é por isso que o país não vai pra frente”. Não sabia que atrasos eram exclusividade nossa.

Queria entender que crime esses jovens cometeram para merecerem lições de moral, rancor e escárnio. Se fizeram mal a alguém, foi apenas a si mesmos. Não importa o motivo de terem se atrasado: atrasaram-se e ponto. Acontece. Pessoas chegam atrasadas em casamentos, em shows, no trabalho, na escola, em compromissos. Algumas vezes, calha de atrasarem para uma prova. Deveria ser um problema individual, mas, como nós e a mídia não temos o que fazer, arma-se um circo perverso.

A novidade dessa vez foi a figura do sommelier de atrasado. Um grupo de manés que se reuniu para rir de quem não conseguia chegar a tempo explicou para o jornal que muitos dos atrasados não eram atrasados coisa nenhuma. E os manés gritavam “fake” para aqueles que julgavam farsantes em busca de fama. Um deles até garantiu que no ano seguinte faria o papel. Que vida miserável.

Gritaram “fake” na cara de uma mocinha de dezoito anos, que na verdade tinha chegado antecipadamente, mas perdera a carteira de identidade. Vendo que não se tratava nem de farsa nem de atraso, os manés a deixaram e foram se dedicar ao mato que crescia junto ao meio-fio.

Depois do dia da prova, começam as piadinhas ridicularizando o emprego alheio.

— Esse aí vai ser gari!

— Com esse português, consegue no máximo ser atendente do McDonald’s.

E por aí vai. Nas nossas cabeças tortas, certas profissões nos tornam melhores, parece. Assim fomos ensinados desde o dia em que nos batizaram com a água santa do consumo. Poder de compra é tudo, gente. Por isso que nossos médicos são todos criaturas meio etéreas, nossos advogados e engenheiros são como anjos sem asas, e nossos juízes… Ah, os nossos juízes!

Já com a devida permissão para esculhambar com essa história de direitos humanos, o tema da redação deste ano foi “Desafios para a formação educacional de surdos no Brasil”. Claro que muita gente se indignou. Como assim “inclusão”? Isso lá é coisa que se peça! Quem é que se preocupa com isso? A gente quer é ser doutor, comprar aquela mansão construída em área de proteção ambiental e, enquanto isso, rir dos otários que chegaram atrasados.

Que inveja de quem não precisa ouvir essas coisas.


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Editor geral do Escambau, administrador por profissão e escritor por necessidade. Escreve às terças-feiras.

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Moacir de Souza Filho

Editor geral do Escambau, administrador por profissão e escritor por necessidade. Escreve às terças-feiras.

  • Emerson Braga

    Moacir, como não ainda não tive a oportunidade de tê-lo ao alcance da mesma cerveja estupidamente gelada, sou extremamente grato por esses momentos em que me alivio ao certificar-me de que pessoas como você não são uma invenção dos comunistas: Existem! Como leitor, dialogo satisfeito com sua escrita enxuta, clara, inteligente e divertida. Fico muito feliz em tê-lo por perto, mesmo que, por hora, apenas por meio de seus necessários textos. Obrigado por pensar e por escrever, moço. E, claro, vou levar essa joia pra enfeitar minha página. Abraço forte, meu bom!

  • Gina Eugênia Girão

    Por gentileza: stf também merece minúsculas. De resto, assino juntíssimo. E grata, lógico!