Respiro, ressentimento e República

E teve o dia em que acordaram o Marechal.

Madrugada alta, a patota se acotovelando à porta da casa, discutindo para ver quem cometeria a temeridade de tocar a campainha, ou melhor, bater a aldrava (sim, caro leitor, pesquisei no dicionário). Vai, não vai, vai, não vai, o Marechal despertou e botou a cabeça pra fora da janela, mais vermelho que alemão na praia.

— Que zorra é essa?

Eram os conspiradores republicanos. Não formavam um grupo de bocós, longe disso: ali tinha gente influente, capitão, político, intelectual. Além de uns dois ou três pracinhas que não sabiam bem o que estava acontecendo e só estavam ali pela folia. Juntando todos, porém, não dava o carisma de um deputado do PTB. Precisavam de uma figura que conferisse legitimidade ao movimento. Sobrou pro Marechal.

Muito polido, ele foi receber a turma, ainda de camisolão e pantufas.

— Quem é, Dedéu? — perguntou a esposa.

— Uns malucos. Vou oferecer água e já volto pra cama.

— Cuidado pra não pegar friagem.

A preocupação da mulher era a falta de ar que Dedéu, digo, que o Marechal estava sentindo desde a semana anterior. O médico receitou um tônico, mas o Marechal não confiava nessas coisas da ciência moderna, tradicionalista que só padre em baile funk.

O grupo foi entrando e já cercando o Marechal, tagarelando, argumentando. Um dizia que o Imperador estava caducando; outro, que o país seria governado pelo francês marido da princesa. Certamente, alguém sussurraria que era culpa do PT, caso o PT já existisse à época.

— Precisamos do senhor — disse um entusiasmado major. — Somente o senhor tem a força necessária para tirar Dom Pedro.

O Marechal não se deixou encantar.

— Olhem, eu não gosto dessa história de golpe. Vai que o povo se acostuma! Daqui a cem anos ainda estaremos derrubando governos.

O grupo se alvoroçou. Não seria fácil convencer o velho.

— Mas a crise econômica…

— Foi a guerra. Já passa.

— Falta liberdade…

— E liberdade lá presta!

— O senhor vai ser preso, Marechal!

Silêncio no recinto. Todos olharam para Miguelzinho, franzino, até então calado. Era para ter ficado do lado de fora, vigiando; aproveitou a algazarra e embicou na casa do Marechal.

— Como é que é, recruta?

Miguelzinho não fez cerimônia.

— Vai ser preso, sim — repetiu. — E por ordem do Silveira Martins!

Alguém deixou escapar um gritinho de horror. O Marechal e o Silveira Martins tinham história: quando o primeiro servia no Rio Grande do Sul, ambos disputaram o coração da baronesa do Triunfo, uma viúva formosa e, sabem como é, solitária. Silveira Martins, que ganhou a disputa pela baronesa, dali a cinco dias seria escolhido como o novo Presidente do Conselho de Ministros do Império. Parecia improvável que mandasse prender um velho desafeto, mas…

— É verdade — tossiu o major, meio desconfiado. — Eu mesmo ouvi o Silveira Martins comentando.

Quase o Marechal cai duro ali mesmo, de raiva. Passou mal, ficou roxo, sem respirar. Quando conseguiu acalmar os nervos, à conta de muita água com açúcar e abanos dos subordinados, ergueu-se, calçou as botinas e conclamou:

— Às ruas!

Algumas versões dizem que ele queria ir ter com o Silveira Martins, mas o fato é que convenceram o Marechal a ir ao parque de Campo de Santana, onde a soldadesca já se amotinava contra o Império. Miguelzinho, herói anônimo, ainda tomaria do major uns safanões pela mentira. Providencial, diga-se de passagem.

E foi lá no Parque que o Marechal, cercado pelos soldados, proclamou a tal da República. Arrumaram um cavalo pro velho, que banco de praça desde aquela época já não prestava. Do alto do cavalo, ainda adoentado, vendo aquele rebuliço, o Marechal teve uma epifania do que viria a ser o novo Brasil.

— Virará balbúrdia — suspirou, sem fôlego, abanando-se com o chapéu.

— O que ele disse? — perguntou um soldado.

— Sei lá — respondeu outro. — Acho que foi “Viva a República”.

— Viva!


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Editor geral do Escambau, administrador por profissão e escritor por necessidade. Escreve às terças-feiras.

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Editor geral do Escambau, administrador por profissão e escritor por necessidade. Escreve às terças-feiras.

  • Juliana

    Adorei .. Lu mãe de Ju

  • Claudia Jeveaux

    Excelente! Adoro sua forma humorada de escrever. Parabéns! Adorei