Resultado da Semana 2 – V Prêmio Escambau de Microcontos

1 – Joaquim Carlos Trovador

Ela era uma costureira da alta sociedade. Ele era um famoso alfaiate. Ambos se amavam e se odiavam. Às vezes, por causa da rivalidade, perdiam a linha, mas entre uma alfinetada e outra eles se costuravam!

2 – Mylena Oliveira

Vestiu seu vestido floral, arrumou o cabelo delicadamente, colocou os sonhos no bolso junto com seu RG onde ainda via escrito “Paulo Borges de Souza”. Foi trabalhar. Sua maior aventura era voltar viva pra casa.

3 – Carolina Santos

Lutou incansavelmente por cada braça até receber do latifundiário os sete palmos que lhe eram de direito.

4 – Edweine Loureiro

O casal vivia responsabilizando o Governo por todos os problemas que tinham. Até serem expulsos do Paraíso.

5 – Mariana Carolo

A novidade brotando na barriga. Quanto mais cheia, mais vazia se sentia.

6 – Aparecida Gianello

Teve um filho, escreveu um livro, plantou uma árvore. O filho cresceu, o livro não vendeu e a árvore agora era sua única esperança… Saiu pra comprar a corda.

7 – Welington Moraes

O vaso quebrado. A cinta na mão. Um osso quebrado. Um olho vazado. O sangue no chão. Os anos de mocidade abreviados. A prisão. O choro. A mãe. O abandono. O caixão. O filho se vai. O pai fica. O resto é amargura e silêncio…

8 – João Paulo Hergesel

A mãe vivia dizendo: “Bota, menino, uma cinta nessa calça! Coisa feia, a cueca aparecendo”.
Mas a mãe não entendia nada do que as meninas
 gostavam. Mãe nunca foi menina…

9 – Giuseppe Caonetto

Não havia costureira no paraíso.

10 – Laurel Cantuária

O espantalho comandava o governo. Afirmava proteger os milhos, mas vivia com os corvos sobre os ombros.

11 – Carolina Santos

Um grupo de células se rebelaram contra o governo. Ao receber o resultado do exame descobriu em lágrimas que teria apenas alguns meses de vida.

12 – A.c. Costa Ferraz

— Abre a porra da porta!
— Que foi, sangue bom?
— A árvore no início do seu quintal… Tem um rosto demoníaco e…
— Tranquilo
, ela é uma brincalhona.
— Como assim? A árvore falou, “Vou comer sua alma!”
— Ah é? Então, entra logo e tranca a porta.
— Por quê?
— A arvore demoníaca é de boas… Mas não fala.

13 – Regina Ruth Rincon Caires

Com passos trôpegos, caminha pela areia. Fora levado a conhecer o mar. Novidade tardia. Fitando o horizonte, no encontro de céu e água, sente os olhos marejados. No peito, o mesmo encanto de quando conheceu um rio, lá atrás, na primeira pescaria com o pai.

14 – Claudia Jeveaux Fim

Com 1 braça e 7 palmos, ficou livre de 60 quilos.

15 – Edweine Loureiro

Quando Yukiko mostrou pela primeira vez aquela cinta-liga vermelha sob o quimono, Hiro, seu namorado, não pôde conter-se: comprando logo, para ele, uma cinta do mesmo tipo.

16 – Aldenor Pimentel

Enfadado de lugares-comuns, o poeta refugiou-se nas montanhas. Do topo, mergulhou no mar de palavras já ditas. Encharcado delas, caminhou até a praia e as deixou cair na areia. Com a ponta dos dedos, enterrou-as no chão e viu brotarem neologismos. Para ele, reinventar o antigo não era novidade.

17 – Thadeu Melo

 Nosso herói parte em sua busca pelo totem perdido. Escala montanhas, navega em águas turvas, atravessa pântanos, desertos… devasta vilas e castelos…
— Achou o grampeador?
— Ah… sim, sim.
— Certo. Às 6 quero aquele relatório.
O herói segue em sua aventura rumo à morte do tédio no dia-a-dia…

18 – Junior Alves

Sem conseguir furtar nada, ele saiu da casa aos trancos e barrancos, quebrando tudo que pôde.
– Seja homem e saia já dessa árvore! – Berr
ou o velho em seu encalço, bufando ao ver para onde ele se refugiara.
– Meu bem… – Uma senhora gritou da porta – Deixe esse esquilo em paz e volte para dentro!

19 – Gina Eugênio Girão

“Por destino, uma Parca fiandeira – porém, corto, do vestido, a anágua”, declamou ela, costureira de si mesma, tecituras ao tempo da maturidade. E arrematou: “Necessário, também, bordar e pintar, tricotar, bricolar, rasgar e remendar!”

20 – Natalia Vale

Linha a linha, ponto a ponto, nó a nó, a obra nasce. A costureira olha-a, embevecida, como se de um filho se tratasse. Mas, tristemente, perde-lhe o rasto. Resta-lhe a memória, que também se vai desvanecendo.

Letra a letra, o livro surgiu. Perdeu-se, igualmente, no tempo.

21 – Denise Andressa Gonsalez Santos

Pimenta no copo, feijão na garrafa e chita na braça, assim eram vendidas as coisas no armazém do Seu Tião. O velho coronel media e precificava bicho, coisa e gente com a exatidão dos próprios critérios. O trinta e oito e alguns jagunços garantiam isso.

22 – A.c. Costa Ferraz

Lembra, as sereias aparecendo na praia? “Lhes devolvemos vosso lixo!”
— Ô, que novidade era aquela?! Nunca vi peitos mais lindos. E a rainha delas, puta rabão?!
— Achei meio baleia.
— Tu comeu alguma?
— Nada. Depois que prenderam elas, só nos bistrô gourmet de merda.
— É, esse mundo é muito desigual.

23Regina Ruth Rincon Caires

Como podia, um homem tão miúdo, ser respeitado por dizer: “óia” a cinta?! E era… Como era! Nunca desferiu uma lambada. O corretivo ficava na competência da mãe. Nas mãos dela, o couro comia…

24 – Rita Zuim Lavoyer

Romântico, Enzo sonhou uma liberdade utópica. Fugiu para a natureza. Com ela identificou-se. Fixou-se ali. Fez parte dela. Viu-se árvore. Debaixo dela fez o balanço da sua existência. Regresso, concluiu: há sonhos possíveis. Agora, lança sementes. Quer ser árvore e sombra para quem dele precisar.

25 – Nilo Paraná

Procurou pelos confins do universo, mas foi no seu planeta natal que ele encontrou a árvore da vida. Quase seca, morrendo, assim como seu desértico mundo. Cada folha que caia era mais uma galáxia destruída. O fim dos tempos chegara. Abriu sua cova e deitou-se. A última folha veio cobri-lo.

26 – Tatiana Alves

 Manter o governo daquela embarcação era quase impossível. A prudência já o abandonara havia muito tempo. A obsessão por aquela baleia controlava seu coração e, desde então, seus atos adernavam tanto quanto o navio em dia de tempestade.

27Carolina Santos

 A aventura era diária. Às cinco da manhã equilibrava a criança no ônibus cheio, escalava a escada para limpar vidros de elite, abdominais que lustravam o chão, percorria trilhas de desgostos sorrindo. À noite, em sonho, subia a mais alta montanha e respirava liberdade.

28Junior Alves

 Já destemido ele nasceu. Um só frio na barriga, jamais sofreu. Segunda enfrentava dragões, terça demônios exorcizava, quarta estudava os males e quinta os experimentava. Sexta matava inimigos, sábado os carregava e domingo, as moças ele cortejava. E só quando morreu, o que era aventura ele entendeu.

29 – João Paulo Hergesel

 Maria segurava o envelope com a novidade em uma das mãos; com a outra, alisava a barriga. Quando o marido chegou, abraçaram-se e derramaram algumas lágrimas. Depois de nove meses, o câncer intestinal a levou.

30 – Romeu Martins

Que estresse este trabalho sobre sistemas de medidas!

Por que, amor?

Olha essa tal de braça, usada no campo: “comprimento de dois braços abertos, como num abraço”. Seria como usar a duração de um beijo pra medir o tempo! Que tipo de mundo usa abraços e beijos como padrão?

Um mundo melhor?

31Regina Ruth Rincon Caires

 Audacioso?! Não, isso Nicanor nunca foi. Mas, quando descansou os olhos naquele rosto aformoseado pelo véu preto, na missa de domingo, perdeu o juízo. Estonteado, jogou-se na aventura. Não sabia que era a mulher do açougueiro. Hoje, Nicanor figura na estatística dos desaparecidos.

32 – Claudio Antonio Mendes

Quando alguém pediu para a costureira uma mortalha, ela não imaginava que seria para si mesma. Alguns babados do passado ficaram sem arremates.

33 – Romeu Martins

 Voltamos a transmitir ao vivo do porto de Brasília, onde acaba de desembarcar do Sea Force 1 o presidente dos Estados Unidos. Ele veio participar, com outros cinquenta chefes de Estado, da cúpula de governo “O Mito do Aquecimento Global”.

34 – Thadeu Melo

Enquanto isso, na vila:

Braça! Você não sabe o que é braça? — pergunta Seu Barriga.

É a mulher do braço? — responde Chaves.

(Ah não, Thadeu! É esse o microconto? Tu fazes melhor que isso!)

Exausto e cego pelo nevoeiro, desistiu e afogou-se à distância de uma braça da baía.

(Agora sim!)

35Emerson Conto

A mãe fingia não entender como Danilo, educado para ser um bom cristão, tornara-se um assassino. Já o rapaz atribuía seu comportamento justamente à criação que tivera:

A cinta do pai foi minha igreja ─ balbuciou diante do homem enforcado pela moral de couro que lhe sustentava as calças.

 

 

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  • Natalia

    Parabéns a todos os seleccionados. É uma honra estar entre vós. Um abraço para todos.