A Força do Quereres

– Você assiste à telenovela das nove, professora?

– Às vezes.  Sábado à noite, geralmente. Quando estou em casa, passo os olhos num ou noutro capítulo. Por quê?

De plantão e orelhas em pé, um incrédulo interrompe:

– Como é que é, professora? Você assiste à novela? Como assim, é professora de literatura e se liga em telenovelas? Explica isso aí.

No momento, a professora pensou em justificar ao intruso mal-humorado o sentido de sua incredulidade, mas a curiosidade dela quanto à pergunta da aluna foi mais forte, então soltou um “às vezes, querido”. Deixou a justificativa pra depois,  insistiu no primeiro diálogo:

– Por que perguntou, Flor? Fez alguma observação sobre a qual deseja de comentar?

– Sim… sim, professora. Até comentei com minha mãe. Sabe aquela música que analisamos na aula sobre figuras de linguagem?  Pois é, Caetano embala a abertura da telenovela com aquele hit. E, depois do nosso estudo, passei a observar que a melodia dele produz efeitos de sentido que dialogam com as histórias de vida das personagens…

A estudante, em tom de empolgação, pôs-se a caetanear aquelas histórias. Discorria sobre representações de personagens e suas possíveis relações com o quereres caetaneano.

Enquanto ouvia a análise da aluna, orgulhosa e com a curiosidade desfeita, o pensamento da professora foi deslizando para o questionamento do outro interlocutor. Supôs que a manifestação da aluna analista seria gloriosa para mostrar ao colega incrédulo que  telenovelas podem também ter direito ao pódio literário e que leitores que se prezam podem, sim, assistir a elas.

O olhar lançando pela aluna para os movimentos da narrativa novelística entrelaçados aos tons e semitons da canção de Caetano ilustraria o fato de que atividade intelectual não se restringe à leitura de livros literários tradicionalmente consagrados.

A professora voltou-se para o aluno, tentando retomar o diálogo temporariamente suspenso. Mas antes de desatar a justificativa, o gaiato, descaradamente, deu-lhe o troco. Encurtou o papo e soltou o verbo:

– Querida professora, entendo que não é de mal tom canetear o que há de bom!
Astrounauta. Fã da literarura de Cortázar e da filosofia de Foucault. Leciona e milita no campo investigativo de materialidades discursivas relacionadas aos temas espaço e autoria.

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Mari Cenedezi

Astrounauta. Fã da literarura de Cortázar e da filosofia de Foucault. Leciona e milita no campo investigativo de materialidades discursivas relacionadas aos temas espaço e autoria.

  • Claudia Jeveaux

    Que delícia de texto, leve e bem humorado! Realmente, para aprender não há restrições. Estou a caetanear o que há de bom! Adorei! Parabéns, Mari!

    • Mari Cenedezi

      Oi, Cláudia querida, que bom receber seu comentário! E é isso. Lançamos o olhar para tudo e todos, na tentativa de colher bons frutos sempre!

  • Fabiano Sorbara

    A abordagem da temática é muito oportuna, sempre atual, eu diria, também pode ser polêmica.
    Creio que algumas das novelas sejam usadas de alguma forma para manipular os telespectadores. Por outro lado existe o uso de várias formas de arte, literária, musical, atuações, e por aí vai.
    O tema gera um bom debate.
    Gostei muito do seu texto!

    • Mari Cenedezi

      Ei, Fabiano,  obrigada pelo comentário, querido!
      De fato, o tema é vasto e controverso. O propósito inicial da elaboração do texto foi justamente promover o debate em torno dessa temática. Note-se que, na narrativa, há duas expressões que apontam para o embate de pontos de vista: “caetanear” (tornar bom ao modo de Caetano) e “canetear” (passar a caneta no que é falho, tecer sobre o ruim/ negar o que parece ruim).
      O aluno intruso é perspicaz e irônico. O uso do termo “CANETEAR” na fala dele, no desfecho da narrativa, arremata o objetivo da crônica. Canetaram (no sentido de manchar/estragar) o que havia de bom: o quereres de Caetano. rs
      Ainda há outros vazios interessantes no texto, que merecem, creio, o olhar do leitor.
      Abraço!

  • Emerson Braga

    Grato pela oportunidade dessa deliciosa leitura!

    • Mari Cenedezi

      Obrigada, Emerson! Que bom que você gostou.

  • Gina Eugênia Girão

    “Ah, quanto querer cabe em meu coração!” 🙂

    • Mari Cenedezi

      “Ah, bruta flor do querer!”
      Caetano sabe cantar nossos quereres, não é, Gina?!