Carta a Deus

Prezado Deus;

Se o senhor recebeu esta carta, então é porque você realmente existe e eu talvez esteja em maus lençóis. Sinceramente, espero que tenha perdido aquela sua mania de resolver tudo com chuva de enxofre, ira diluviana e genocídios. Enfim, que tenha se tornado uma divindade menos impiedosa e opressora.

Sabe, Deus, eu não acredito no senhor. É, não acredito. E acho um saco que as pessoas digam o tempo inteiro que serei fulminado por um raio divino, demitido ou que contrairei uma doença terminal apenas por achar que você não está aí, manchando esta folha de ofício A4 com suas mãos sujas de barro.

Dizem que você nos deu o livre arbítrio, então não acreditar em sua existência deveria ser direito legítimo de qualquer ser humano, não é mesmo? Hum, mas as coisas não são funcionam bem assim aqui embaixo, viu?

Aquele seu best seller ― misógino, preconceituoso, segregacionista e confuso ―, que algumas pessoas usam para bater em outras, vem causando um transtorno dos diabos pros lados de cá da Criação. Você deveria lançar uma edição revisada e atualizada, não acha? Afinal, as coisas mudaram um pouco desde que inventaram os tipos móveis.

Muitos de seus representantes na Terra adoram dizer a medida exata de como toda e qualquer pessoa deve viver sua própria vida. Juram que queimaremos no inferno se não aceitarmos a salvação comercializada por suas igrejas. Meu deus! Além de eu não precisar ser salvo (pois não acredito no perigo metafísico embutido em nossas mentes desde a mais tenra infância), trata-se de um mercado tão vasto! Que salvação eu deveria comprar? Em que loja? Há tantas igrejas, templos, mesquitas, sinagogas, pagodes, centros espíritas, terreiros, santuários, mosteiros, conventos, basílicas… Quer saber? Não me leve a mal… Mas prefiro ir ao cinema ou ao teatro. Mesmo que seus seguidores mais sectários e fundamentalistas me critiquem e me persigam por eu não entrar pro seu fã-clube, prefiro fazer as coisas do meu jeito. Não sou da maioria. Não gosto dessa conveniência de ser da maioria apenas para que não me censurem. E, quando a maioria está certa e esta certeza oprime de maneira irracional e violenta aqueles que não a aceitam, de nada vale ter razão.

E esse lance de adoração? Porque ao invés do primeiro mandamento ser “Amar a Deus sobre todas as coisas”, você não mandou Moisés escrever “Pensar livremente sobre todas as coisas”? O pensamento é uma coisa boa, não crê? Não lhe parece contraditório condenar a vaidade como pecado capital e exigir essa adulação eterna? E masturbação? Qual a bronca com masturbação?! O senhor acha natural que as pessoas esfolem seus joelhos, prostradas em cega adoração, e não permite que elas tirem prazer do mesmo corpo que pode ser imolado em nome da fé que lhe dirigem? Ah, faça-me o favor… Ou você deixa as pessoas se masturbarem e transarem à vontade ou então substitua logo de vez nossos hormônios por gás freon! Ora!

Outra coisa que me irrita é esse negócio de promessa. Se paro de fumar, minha mãe diz que larguei o vício do tabaco porque ela alcançou a graça que pediu ao senhor. Se passo em um concurso, arranjo um emprego novo ou recebo uma premiação importante, lá vem você outra vez levando o mérito em meu lugar! Poxa! Eu me esforço pra caralho, dou um duro dos infernos e não posso sequer ficar com os louros de minhas conquistas?! Você já criou tudo que existe! Parabéns! Ué? Não basta? Tenho mesmo que colocar no meu carro o adesivo cafona de “FOI DEUS QUEM ME DEU”? Não! Não vou! Eu que comprei. É meu. Se eu colocar algum adesivo, será com a inscrição “NINGUÉM ME DEU E O BANCO AINDA PODE TOMAR”. Ao menos, soaria honesto…

Também tem esse lance com os pronomes. Por que que, quando se referem ao senhor, eles devem ser grafados com inicial maiúscula?! Isto sem falar nas contrações extravagantes, tipo “d’Ele” ou “dEle”. Um horror! Não vejo problema nenhum em escrevermos “Deus” com “d” maiúsculo, quando nos referimos ao senhor, o deus judaico-cristão. Afinal, seu verdadeiro nome não pode ser pronunciado em vão, estou certo? Então, tudo bem chamá-lo apenas Deus, assim como chamamos nossa lua apenas de Lua. Mas, quanto aos pronomes pessoais iniciados por maiúsculas, aí é forçar demais…

Agora, sério. Cara, se você existe mesmo, Deus, eu estou muito triste com você. É. Muito triste. Qual é a sua? Não permite que dois homens se amem, mas aceita que muitos se matem em guerras orquestradas em seu nome. Você reprova o aborto, mas enche a Câmara dos Deputados e o Senado Federal de homens fálicos que responsabilizam as próprias mulheres por serem vítimas de estupro. Ah, senhor! Quanta decepção. Se o senhor existe mesmo, ou é um irresponsável ou não está nem aí… Entre essas duas opções, prefiro a terceira, que é acreditar que você realmente é um delírio. Assim, me parece menos triste.

Só mais uma coisa, Todo Poderoso. Mesmo que você seja real, posso seguir com minha vida como a vivi até agora? Posso? É que, pra mim, mesmo que você esteja aí, não fará muita diferença. Deus, não se sinta excluído, renegado. O problema é que eu realmente não preciso de você. E quando eu estiver doente? Irei ao hospital. E se os médicos me desenganarem? Morrerei, certo da inexistência que me aguarda. Se tenho medo de não haver nada após a morte? Não, não tenho medo. Na verdade, o que me apavora é a ideia de passar a eternidade saltitando feliz em um campo de golfe, entre leões e zebras que se afagam, enquanto cantamos e louvamos em um êxtase celestial sem fim.

Olha, desculpe-me a franqueza. Por favor, não se chateie, não há necessidade de que nos tornemos inimigos. Não escrevi esta carta para aborrecê-lo, mas para deixar as coisas claras entre nós dois. Você pode até, de vez em quando, passar lá por casa, por meio das orações de meus pais. Não tem problema. Eles não implicam com minha descrença e eu também não questiono a fé deles, pois, diferente de muitos, eles não usam de sua espiritualidade para perseguir, castigar ou intimidar ninguém.

Posso aproveitar a ocasião e lhe fazer um pedido? Coisa simples. Caro Deus, pela hóstia consagrada, por tudo que há de mais virtuoso neste mundo, eu imploro: Peça a seu rebanho de missionários que pare de me atormentar a ressaca nas manhãs de domingo! Sei que são seus marqueteiros, mas, na boa: Não há cristão que aguente!

Descrentemente,

Um ateu

Natural de Fortaleza, no estado do Ceará, é autor do romance “A Morte de um Embusteiro Viajante” e do livro de contos “Amores, Desafetos e Outros Despautérios Acerca de Eros”, além de colunista das revistas Plural e Samizdat.

LEIA TAMBÉM:

Emerson Braga

Natural de Fortaleza, no estado do Ceará, é autor do romance "A Morte de um Embusteiro Viajante" e do livro de contos "Amores, Desafetos e Outros Despautérios Acerca de Eros", além de colunista das revistas Plural e Samizdat.

  • Gina Eugênia Girão

    takeoparil!

  • Claudia Jeveaux Fim

    Emerson, que texto! Um desabafo que eu gostaria de fazer, rsrsrs. Meus filhos são ateus e sofrem na pele o que você descreve. Por outro lado, sou Kardecista e também enfrento preconceitos, principalmente de quem não conhece a filosofia. E a músicas de domingo? Minha nossa, aí também? É tenso! Só mais um pequeno detalhe: fiquei tão curiosa pela resposta de deus! Será que vem? Adorei! Parabéns!