A Florista

Tinha doze anos, mas parecia ter a metade de sua idade, devido à compleição franzina. Sua figura parecia sumir debaixo de fartos cabelos, que caíam em cachos sobre os ombros e costas. De pés quase sempre descalços, ela trazia em seus bracinhos, a enorme cesta de flores.

Não eram cultivadas em estufas, nem tampouco de floriculturas. Eram plantadas em seu quintal, cuidadas pela mãe que só dispunha desse trabalho e lhe era como terapia, pois tinha problemas mentais.

Às vezes, confundiam-se as flores da cesta: margaridas, rosas, gerânios, lírios, cravos, com a singeleza da pequena criança, misturando com suas vestes, seus cabelos, seu corpinho, seus olhos negros e profundos, produzindo matizes, cores, cinza e borrões, como uma tela antiga de um pintor desconhecido.

Eu tinha um desejo enorme de pegá-la no colo, dar-lhe afago, carinho. Seus olhinhos pidões sugeriam isso.

Ela era bem conhecida de todos, e mais aparecia na época do Natal. Deus devia fazer uma combinação com a natureza, porque as flores se multiplicavam nesse tempo.

Margarida possuía outros irmãos menores que ela. Moravam em orfanatos esperando adoção. Ela ficou para ajudar a mãe com as flores. Recebiam ajuda dos vizinhos, mas também eram pessoas pobres, poucos podiam ajudar.

Em vista de sua condição de vida, não era muito saudável, não se alimentava bem, não tinha muita higiene, e por conta disso sofria discriminação na escola, na rua, enfim, não tinha amigos. Só vivia ela e a mãe. As duas se completavam.

Vitimada por uma bronquite asmática, que demorou dois meses, já era dezembro e ela não ia mais às aulas, pois tinha perdido o ano escolar. Isso facilitava seu trabalho como vendedora de flores, o que fazia o dia inteiro.

Por outro lado, acabou agravando sua saúde, às vezes chovia e ela não se abrigava, nem tinha agasalhos.

Há alguns dias, percebi que ela quase não aparecia e, quando vinha, estava sempre com aparência cansada, tossia muito e tinha os olhos avermelhados. Parecia mais magra, como levada pela brisa, que carregava a enorme cesta, não andava, flutuava. Leve como uma pluma…

O sorriso largo de antes, deu lugar a um fiapo melancólico, os olhos pareciam vagar no infinito… dois pássaros num céu nublado…

Naquela véspera de Natal, ela me olhou e sorriu, mais com os olhos tristes, do que com os lábios. Esboçou um leve sorriso ao me agradecer pela moeda que entreguei, por uma margarida. Eram suas flores preferidas, por causa do nome que a mãe lhe dera; coincidentemente, eram as minhas também.

Foi a última vez que eu a vi. Deus deve ter precisado dela e de suas flores, para enfeitar o presépio de Seu Filho que nascia.

(Texto baseado em fato real, de um morador de rua, que morreu numa madrugada fria, alguns anos atrás.)

LEIA TAMBÉM:

  • Aline Teodosio

    Tocante! Um texto singelo, carregado de emoção, que narra uma história que é mais comum do que imaginamos. Que dó da florista, mas talvez ela, enfim, ganhou a tão sonhada libertação. Gostei muito! Parabéns.