Infeliz Natal

Era tradição distribuir aos funcionários um brinde no último dia de trabalho antes do Natal. Naquele ano, como em todos os outros, foram perus congelados. Verão, vinte e oito graus e perus congelados distribuídos ao meio-dia numa rápida festa de confraternização. Ninguém lembrou que ainda faltavam cinco horas para a saída e só o presidente tinha frigobar. O que também seria inútil porque frigobares não foram feitos para perus.

O jeito foi acomodá-lo junto à mesa de trabalho e de tempos em tempos verificar a maciez do pacote. Quanto mais macio, mais derretido. Chegaria pronto para obrigatoriamente ser levado ao forno caso não se quisesse perdê-lo. As instruções eram claras: após descongelamento, não voltá-lo ao freezer.

Ficou fácil saber o que o colega ao lado teria para a ceia e a moça da outra seção também. Provavelmente os trinta e dois funcionários comeriam peru na noite de Natal, menos o vegano que prometeu uma cerimônia especial para enterrá-lo com todas as honras em seu quintal.

À hora da saída o teste da maciez indicava que a ave já estava parcialmente preparada para o forno e a sacolinha plástica possivelmente não resistiria à água que ali se formava mas não havia outra alternativa a não ser carregá-lo assim mesmo nos carros, nos ônibus ou metrô.

Foi no metrô, com o colega vegano, que o fato aconteceu. A moça não tirava os olhos do rapaz. Que azar. Não era sempre que moças o encaravam com tanta atenção e bem naquele dia ele carregava o incômodo pacote. Demorou a perceber que o centro das atenções não era ele, mas a água avermelhada que escorria da sacola. Logo ele que abominava a ideia de animais mortos.

Tentando explicar, já que não só a moça, mas os outros passageiros também notavam, foi logo dizendo que a embalagem que pingava não era  dele, mas de um colega. “Sou vegano, mas um colega pediu para eu carregar. Este peru não é meu.” .

Melhor seria não ter explicado. A moça desatou a rir e ele sem graça desceu na próxima estação.

Se não tivesse prometido enterrá-lo, teria abandonado o bichinho ali mesmo. Sentou-se sob a marquise de um prédio e enquanto pensava na bobagem que acabara de proferir bem como em outras ditas ao longo da vida, notou que junto à ave, desmanchavam-se também um cartão de Boas Festas e o folheto das instruções. E, naquela mistura, as palavras em pedaços de papel molhado se fundiram na patética mensagem.

InFeliz Natal!

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  • Ana Cristina Faria

    Infeliz criatura aprendeu uma lição da pior maneira, quis ser cordato aceitando o presente e acabou em maus lençóis. Excelente lição Maria Alice. Um Feliz Natal a você e os seus.