O Pai Natal existe

Os olhos fitavam os olhos, sem reação. Gostava de ter o poder de ver através deles. Em que estaria a pensar? Oxalá o verbalizasse, que raio. Alegre por o rever? A odiá-lo? A porta continuava entreaberta mas o braço em riste impedia a passagem. O frio doía nos ossos. A noite acabara de se instalar. Era véspera de natal.

Não acreditava no que os meus olhos viam. Ele estava ali. Gordo, rechonchudo e faces coradas. O seu fato vermelho não enganava. O gorro também não. Na grande barriga um cinturão preto segurava umas calças que teimavam em cair. Às costas um grande saco de algodão, branco como a neve.

Aquele ar bonacheirão fez-me, embora contrariada, sorrir.

Naquele momento, a minha memória regrediu no tempo. Era menina de novo. Com o meu vestidinho branco, de bordado inglês e facha vermelha, de veludo, que acentuava a cinta, sentia-me uma rainha. Era Natal, e a minha mãe primava, sempre, para que eu estivesse pomposamente vestida (de acordo com a época). Eu esperava ansiosa a chegada “dele”. O tão famoso “Pai Natal”.

Quando ouvia, ao longe, o seu “oh, oh, oh”, corria para a porta, que escancarava sem medo, e lá estava ele. Exatamente como eu o imaginava. Nunca consegui descortinar as renas, que eu via nos postais que a minha mãe me mostrava e nos livros de histórias que me lia. O frio desaparecia. Era magia pura.

Depois, era a felicidade plena. Os brinquedos pedidos saiam daquele saco, de arminho, que eu acariciava meigamente.

A boneca de loiça que naquele ano recebi, acompanhada de um berço para a embalar, deixou-me extasiada. Era a mais bela boneca que eu vira. Cabelos loiros, que caiam em cachos pelas costas, esbelta, com uns lindos olhos azuis que se abriam e fechavam, conforme a movimentava. Para além disso, chorava, quando lhe tocava com um movimento mais brusco.

As luzes da árvore de Natal, que piscavam permanentemente, davam-lhe um brilho sobrenatural. Parecia uma fada.

Agora, este “Pai Natal” que tinha vindo ali bater à porta já não fazia “oh, oh, oh”. Os nossos olhares cruzaram-se, gélidos e cortantes (pelo menos assim me pareceu). Valeria a pena retroceder no tempo e perdoar?

Afinal estávamos no Natal e talvez uma fada, de um Natal passado, tivesse decidido fazer-me uma surpresa. Não sabia, ainda, se boa ou má.

Olho para ele com mais atenção e os seus olhos parecem-me agora mais cordiais. A noite avança gélida – manter a porta entreaberta começava a ferir-me os ossos – há muito que a magia de ver o Pai Natal se perdera. Um pouco contrariada convido-o a entrar. Acerca-se da lareira, como noutros tempos, e poisa o saco no chão. Com gestos lentos abre-o e lá de dentro tira uma pequena caixa que dirige na minha direção. Mal toca nas minhas mãos o objeto começa a brilhar e uma luz cintilante preenche a penumbra da sala.

Extasiada, olho para o que parece ser uma estrela que me aponta o caminho da janela. Quando dela me aproximo, mal acredito na cena que se desenrola diante dos meus olhos – o jardim ganhara uma nova vida – nele movem-se figuras imponentes e coloridas, com coroas na cabeça: nas suas mãos transportam vistosos presentes. A estrela para, por cima do que parece ser um casebre e no meio de uma manjedoura, onde um burro e uma vaca se alimentam, repousa uma criança que parece irradiar luz – a mesma que irradiava da minha boneca de loiça: sob as luzes da árvore de um Natal que ficou lá para trás…

Perto do casebre está um trenó atrelado a renas – uma tem o nariz vermelho. De repente não percebo o que fazem ali, nunca as tinha conseguido descortinar nos natais passados, parecem divertidas enquanto brincam com uns ramos de azevinho, tingindo a branca neve com rubras bagas. De repente lembro-me do Pai Natal que deixara junto à lareira… «Claro! As renas aguardam-no»!

Viro-me, num impulso, para o convidar a juntar-se a mim e a admirar o presépio vivo que tenho diante dos olhos. O espaço em frente à lareira encontra-se, porém, vazio. Em cima da lareira o retrato do meu pai: olha-me sereno e cordial com um laivo de cumplicidade. Não me lembro de o ter tornado a colocar ali, desde que foi retirado há uns anos, precisamente no Natal a seguir àquele em que recebi a minha boneca de loiça.

Nesse ano, perto do Natal, o meu pai fizera-me uma promessa: iríamos erguer no jardim um presépio – o mais fantástico de sempre – com uma manjedoura onde eu poderia deitar a minha boneca – e a seu lado ficaria o pinheiro de Natal mais bonito que encontrasse, tão iluminado que a faria brilhar, de novo, como uma fada.

Alguns dias depois partira cedo para o pinhal – lembro-me do seu sorriso e da sua alegria quando me abraçou e disse: «Vou trazer-te o pinheiro mais lindo deste mundo». Fez-se noite e não havia maneira de voltar com o prometido pinheiro. Já perto da meia-noite um carro parou à nossa porta e alguns minutos depois, com as lágrimas nos olhos, a minha mãe levou-me ao jardim, apontou para o céu e disse-me: «Vês aquela estrela, a mais brilhante? O pai habita agora nela e vai estar sempre ali a velar por nós e a iluminar o teu caminho».

Na altura não percebi porque tinha ele querido ir para o céu em vez de passar o Natal connosco. Pedi à minha mãe que retirasse o retrato dele de cima da lareira e nunca lhe perdoei o facto de não ter cumprido a sua promessa…

«Dlim… dlong…» o sino da igreja, ao longe, arrebata-me aos pensamentos.

«Mãe, mãe, acorda – porque estás tu a dormir no sofá nesta sala tão gelada? Está aqui um frio de rachar, brrrrrr! Já todos voltaram da missa do galo e subiram para se deitar…»

A voz da minha filha chega-me misturada com a badalada dos sinos, ou seria o som do relógio por cima do retrato, na lareira, que voltara, por milagre, a funcionar…

Levanto-me meio estremunhada e olho para a lareira: o fogo deixara de crepitar e a temperatura baixara drasticamente. Uma brisa passeia-se pela sala, endireito o retrato do meu pai, e apercebo-me da porta ligeiramente entreaberta…

Já tinham soado há muito as doze badaladas quando subi para o quarto.

Esperei enquanto todos se deitavam. Olhei através da vidraça, a estrela da manhã anunciava a alvorada. Descansei. Sobre o branco manto da noite ficaram esparramadas as vermelhas bagas do azevinho e, com elas, o resto da minha vida. O frio tornava-se, agora, mais acolhedor, não o julgara possível, ainda assim, puxei para mim o cobertor e com um sorriso estampado no rosto adormeci com a certeza que o Pai Natal existe. A noite acabara de se instalar: era véspera de Natal.

BIOGRAFIA

NATÁLIA VALE, nasceu em Vila Robert Williams, Caála, Angola, a 16 de Setembro de 1949. É licenciada em História, pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto.

Depois de exaustivos anos de trabalho resolveu dedicar-se um pouco à escrita, como forma de ocupar os seus tempos livres e dar também um pouco asas e liberdade à sua imaginação, tentando transmitir em tudo o que escreve um pouco de si própria, dos sentimentos que a afectam, quando olha e vê o que a rodeia.

• Em Setembro de 2009 editou os seus primeiros livros: Poesia – “Emoções Inacabadas” e de contos “A Minha Tempestade e outros contos” – Mosaico de Palavras, editora

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Natalia Vale

BIOGRAFIA NATÁLIA VALE, nasceu em Vila Robert Williams, Caála, Angola, a 16 de Setembro de 1949. É licenciada em História, pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Depois de exaustivos anos de trabalho resolveu dedicar-se um pouco à escrita, como forma de ocupar os seus tempos livres e dar também um pouco asas e liberdade à sua imaginação, tentando transmitir em tudo o que escreve um pouco de si própria, dos sentimentos que a afectam, quando olha e vê o que a rodeia. • Em Setembro de 2009 editou os seus primeiros livros: Poesia - “Emoções Inacabadas” e de contos “A Minha Tempestade e outros contos” – Mosaico de Palavras, editora

  • Natalia

    Muito obrigada pela escolha. Um feliz Natal e um ano novo muito próspero para todos. Um grande abraço

  • Claudia Jeveaux Fim

    Lindo, Natália! Parabéns! Feliz Natal!