Colo

Fazia-lhe falta a proximidade do filho. Duas ou três vizinhas, viúvas e reformadas como Deolinda, enganavam a solidão com a companhia de um cão. «Um animal em casa, não!» Todas recebiam a visita esporádica dos netos. A ela restava esperar, mas também desesperar, porque o filho e a jovem mulher tinham ido viver para os Estados Unidos. O marido morrera havia oito anos e agora também o filho se afastara.

Estava muito constrangida pela perspetiva de passar o Natal sozinha. Era o primeiro sem ninguém. As férias, enfim, mas o Natal! Onde passá-lo? Como? Com quem? Em cima da data, resolveu passá-lo na terra ― uma aldeia do interior beirão. Meteu-se num autocarro e foi, quieta e meditativa, sem ver desfilar a paisagem, a recordar os tempos de faculdade, quando ia à terra todos os quinze dias. Sentia-se um pouco triste e resolveu aceitar esse estado de espírito, interiorizando-o e cultivando-o com recordações de tempos bem mais felizes.

A casa, aonde ia umas três ou quatro vezes por ano, pareceu-lhe mais silenciosa que habitualmente. Arejou-a, varreu-a e deu-lhe uma arrumadela. Cada móvel, cada divisão, traziam-lhe à memória um episódio conjugal, uma piada do filho. Fez um chá, comeu umas tostas com compota e deitou-se. A cama parecia molhada, de tão fria. Embrulhou os pés num xaile velho e demorou ainda um bom bocado a adormecer.

O dia seguinte, véspera de Natal, amanheceu escuro e frio. Deolinda foi à mercearia comprar leite, pão e umas coisas para o jantar. Depois de um almoço frugal, saiu para tomar um descafeinado. Não encontrou ninguém conhecido, só gente nova. Em tempos, não dava um passo sem encontrar pessoas de família.

Voltou para casa, sem saber como ocupar o tempo. Se calhar, não tinha sido boa ideia vir este ano à terra! Deambulou pelas divisões silenciosas, a olhar as fotografias cinzentas: aqui, jovem, com o marido, no casamento de um primo; ali sorridente com “os seus homens”, numa visita a Cáceres; mais além, o pai aprumado numa farda do tempo da tropa.

Lá fora, começara a cair uma chuvinha miúda. Deolinda ficou um bocado a olhar a rua vazia e a ver as gotículas de chuva a formarem pequenos veios na vidraça. Assim eram os seus dias a escorrerem, não sabia para onde.

Cozeu umas batatas com grelos e uma posta de corvina. Há dez, quinze anos, teria feito também uma boa sopa de feijão com hortaliça, uma perna de borrego e umas rabanadas. Agora, para quê? Comeu o peixe com pouca vontade. Não lhe sabia a nada. Deixou metade da posta.

Acendeu o lume na lareira da cozinha e sentou-se a olhar as línguas das chamas que consumiam mansamente os cavacos com que as ia alimentando. Assim a sua vida se ia consumindo, placidamente, sem dramas, sem objetivo. Aguentou-se por ali a cabecear, a fazer horas para a missa do galo.

Junto ao adro, o cheiro a madeira queimada, tão familiar, fê-la lembrar-se dos antigos natais, quando ir conviver e aquecer-se junto à fogueira de Natal era uma festa. Passou pelo bando de rapazes que, indiferentes à chuva miudinha e gelada, mantinham uma algazarra regada a vinho junto aos madeiros em chamas, entrou na igreja, logo reconhecida, e sentou-se junto à coxia.

Lá estavam, parados no tempo, os santos da sua meninice ― Santo António, a Senhora das Dores, São Sebastião, o Coração de Jesus. Durante toda a missa, foi recordando alguns episódios ligados a esta igreja da sua terra ― o crisma, o casamento da tia Matilde, o batizado do primeiro sobrinho, um dos primeiros afogueamentos, quando reparou que um rapaz mais velho olhava para ela de uma forma especial.

Quando o celebrante levantou a hóstia, Deolinda sentiu-se muito desamparada. Intimamente, implorou:

«Sejas Tu quem fores, ajuda-me; ajuda-me, por favor!»

Quando a missa acabou, Deolinda ficou ainda um pouco, ajoelhada, em recolhimento. Aproveitando a porta aberta pelas pessoas que iam saindo, entrou na igreja um gatinho ainda pequeno, molhado e enregelado, a abrigar-se do tempo hostil. Era malhado de preto e branco, parecia confuso e miava debilmente, entre o receio e o queixume. Foi caminhando pela coxia central, enquanto o seu miado se tornava mais suplicante, sobressaindo por cima da vozearia lá de fora. Deolinda ouviu-o, mas, muito imersa no seu espírito, demorou a surpreender-se. Quando olhou, o gatinho parara a olhar para ela e a miar. Deolinda ficou paralisada a ver aqueles olhos azulados e vítreos, como se lhe custasse a perceber o que via. Depois, pegando no gatinho, aconchegou-o contra o peito, por dentro do sobretudo, e desatou a soluçar convulsivamente. As lágrimas rebentaram descontroladamente, como se estivessem há muito represadas.

Pouco depois, o gatinho, confortado pelo calor do corpo de Deolinda, começou a ronronar. Deolinda olhou em volta. Cristo crucificado estava desfalecido no seu martírio, a Senhora das Dores e São Sebastião olhavam os céus. Deu com o olhar nos olhos do Menino Jesus, que estava ao colo de Santo António e sorria. Pareceu-lhe que afastou o olhar, quando ela o fixou, e que a olhava, se ela desviava o olhar.

Entretanto, alguém tocou no braço de Deolinda:

Então, vizinha, deixe lá as tristezas, que hoje já é dia de Natal. Venha comigo, que eu também vou para os seus lados.

Deolinda seguiu a conterrânea, sem lhe ouvir a conversa, com o gatinho junto ao peito, tão apaziguada como nos dias felizes, tão realizada como quando regressara a casa com o seu filho acabado de nascer, ao colo.

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  • Claudia Jeveaux Fim

    Acompanhei Deolinda a ponto de me emocionar com o gatinho. Gostei muito! Parabéns!

    • Joaquim Bispo

      Obrigado, Claudia! Soube-me bem ler as suas palavras. 🙂

  • Elisabeth Lorena Alves

    Dei forma a Deolinda, com as características de uma dona Deolinda de minha infância… Texto sublime, poético, de um desenho crível das mulheres que a vida e seus acessos faz solitárias. E que encontro feliz com o gatinho e a percepção que foi atendida ao ver o olhar do menino Jesus… Apaixonei-me!

    • Joaquim Bispo

      Obrigado por estas suas palavras, Elisabeth! Olhar à volta ajuda a encontrar muita solidão.

  • Elisabeth Lorena Alves

    Em tempo…
    Algumas palavras levaram-me de volta à infância, onde encontrei meu avô paterno, com quem tive pouco contato, mas que me amou e a quem amei… Cavaco, lume, bocado, afogueamento… Meu velho “portuga mineiro” , que Deus o tenha!

    • Joaquim Bispo

      Para mim, portuga antigo e rural, é natural usar essas palavras. 🙂