E se fosse Natal?

Não sei ao certo o que aconteceu com meus pais – neste plural, inclui-se meu papai Noel.

Faltavam alguns meses para o Natal, quando meu papai real, com um sorriso amarelo e uma mochila vermelha nas mãos, disse-me que eu iria morar em outra cidade e com outra família.

– Sabe filha, o nome da cidade é Vitória, quem tem a chance de morar lá conquista muitas vitórias.

Ergui as sobrancelhas e joguei a menina dos olhos lá pro céu, à espera de um raio enviado pelo papai lá de cima para iluminar a mente do papai daqui de baixo.

Não que desconfiasse do meu poder de persuasão, mas porque há no Todo Poderoso muito mais poder do que a minha pueril filosofia.

Enquanto o raio da luz não descia, resolvi apelar para a sedutora estratégia que utilizava quando ainda não tinha o domínio da palavra. O resultado era instantâneo com as enxurradas de lágrimas e trovoadas de soluços.

Percebi, depois do nariz entulhado e olhos esgotados, que nenhuma tormenta de fervorosas lágrimas poderia derreter os granizos que percorriam nas veias, formando um iceberg no canto esquerdo do peito de meu pai. Deixei nas mãos divinas mesmo.

Encharcada até as tampas, a Vitória me acolheu. Faltando alguns dias para o Natal, e já sem o apoio dos pais eternos, restava-me algum consolo no passageiro.

Era tempo de redigir as missivas milagrosas, recorri a um escriba particular. Neste momento, fiquei enfurecida com a inutilidade do meu primeiro ano de escola, nem meu nome fora capaz de aprender. Devo ter sido castigada por isso.

“Querido papai noel, tenho dois desejos, mas um eu já pedi ao papai do céu. Como prova de fé, vou esperar o dia da graça, paciente e obediente, sem choro e com muitas velas.

Sei que chegará mais tarde, porque todos me dizem que Ele tarda mas não falha, por isso, eu creio.

O segundo é a boneca mais estilosa que já vi, ela se chama Barbie. Acredito com toda minha alma que ela será uma boa companhia para mim, durante o tempo em que esperarei solitariamente o presente do Pai nosso.

Não me abandone, por favor, papai noel, conto com a solidariedade do senhor. Prometo ser boazinha e dedicada, em casa e na escola.”

Os dias que sucederam foram mais tranquilos e esperançosos, não porque eu tinha dois pedidos para serem concedidos, mas porque, a meu favor, tinha três pais para realizá-los.

Ajoelhava sobre o sal grosso e treinava todas as letras do alfabeto por horas, fazia as lições da cartilha e não assistia à televisão. Consegui aprender a escrever meu nome e dos meus pais. Todo meu esforço seria recompensado.

No dia do Natal, nos reunimos em volta da árvore que abrigava os presentes sob seus galhos. Éramos seis à espera dos milagres, três crianças e três adultos. No grupo dos menores, eu era a menor, única mulher. Os adultos resolveram que seria um gesto respeitável revelar um presente de cada vez, iniciando pelos mais velhos.

Para quem já tinha passado por meses de tormenta, até que não seria tão sofrido esperar alguns minutos a mais para finalmente ter nos braços metade da felicidade.

Para cada presente que se abria eram palmas, risos, agradecimentos pelos pedidos atendidos. Considerando a minha posição na ordem estabelecida, confesso que fiquei com medo de não conseguir aguentar até o último presente, pois meu coração, a qualquer momento, poderia escapar do peito e se perder no mundo, já que ele insistia em sacudir meu corpo inteiro de tanto que batia.

Mal podia esperar a minha vez de esticar os cantos da boca até as orelhas, erguer as mãos para o céu segurando a minha companheira e gritar: “obrigada meu papai”.

Final-mente!

Olhos e mãos erguidas! O nó na garganta cortou o som da voz que indagava “pai, por que me abandonaste?” e desatou os fios que escorriam finos na face da órfã de três pais.

Com esse pesar, comecei a pensar: e se a cidade fosse Natal, a conquista da minha vitória teria mais chance?

Astrounauta. Fã da literarura de Cortázar e da filosofia de Foucault. Leciona e milita no campo investigativo de materialidades discursivas relacionadas aos temas espaço e autoria.

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Mari Cenedezi

Astrounauta. Fã da literarura de Cortázar e da filosofia de Foucault. Leciona e milita no campo investigativo de materialidades discursivas relacionadas aos temas espaço e autoria.

  • Claudia Jeveaux Fim

    Mari, que conto!!! Tão verossímil que parece experiência própria! Tocante, lindo e triste, sem ser propriamente melancólico! Bem, moro em Vitória, mas talvez Natal seja uma boa pedida. Adorei! Parabéns!

    • Mari Cenedezi

      Claudia,
      Ainda não conheço Vitória. Ainda, porque já está entre as primeiras posições na lista de lugares do Brasil que vou explorar. Quem sabe, a gente se encontra por aí. Um encanto de encontro!
      Agora, sobre esta história, não posso dizer, categoricamente, que é pura ficção. Talvez seja mais sensato dizer que esta história não aconteceu nunca, mas acontece sempre, não é?
      Um cronista que conheci aqui, num encontro sobre contar histórias para crianças e jovens, Rubem Alves, me contou que a história de João e Maria nunca aconteceu, entretanto, é possível afirmar que em toda criança existe a temível fantasia do abandono.
      Antes de ouvi-lo, eu já assinava embaixo. rs

      Você tem razão, triste, mas não propriamente melancólico. A menininha se entristece, mas não se escandaliza. Medita destinos. Mantém viva a chama da esperança. Sempre há outros lugares para encontrar outras vitórias.