Tradições do Natal

Desde ontem ando sentindo sensações diferentes que chegam até a ser desconfortáveis. Sabem aquele calafrio repentino, sudorese nas mãos, respiração recortada e alguns suspiros sem quê nem porquê?

Tentando sossegar estas emoções, ao invés de descobrir o motivo, hoje resolvi ligar para meu pai, lá no Paraná, logo de manhã.

Tudo bem pai? Como estão as coisas por aí? O Sr está lembrando, estaremos aí no Natal viu?

E ele: tudo certo, podem vir sim, hoje estou meio fraco (95 anos), levei um tombo bem em frente do hospital (ele mora pertinho ). Mas já fiz curativo, estou bem, disse com a voz meio trêmula…

Pai, então se cuida, logo estaremos aí e o senhor vai nos contar muitos causos, vamos conversar….tentando disfarçar minha preocupação…também tenho fotos de parentes que descobri pela internet, o sr vai gostar de ver…

Podem vir sim, só não vão mais encontrar aqui as “bolachinhas pintadas de natal” que a sua mãe sempre fazia escondido de vocês…

[silêncio na linha]. Nos despedimos e desliguei o telefone.

Quantas recordações meu velho pai quis dizer hoje com esta frase!!!

Ah, as bolachas de Natal que minha mãe fazia!!!

Suspirei cortado, as mãos gelaram e as lágrimas apareceram, acabara de descobrir o motivo de minhas sensações estranhas!

Eu não iria mais sentir o cheiro de Natal que aquelas bolachinhas, desde que me entendo por gente, estavam presentes na casa toda em que morávamos; anos mais tarde, no colo de minha mãe, quando já cansada, sentava e numa tigelinha cheia daqueles mimos oferecia a quem chegasse, principalmente a cada neto que adentrava pela cozinha…

Nesta época todas as lembranças vêem à tona: desde o corte do pinheiro lá na roça, que meu pai e os meninos iam escolher, (eram 5 os meninos e 3 meninas) os enfeites da árvore, sem luzinhas, os nossos olhinhos felizes brilhavam por elas, o presépio com seus personagens, já sagrados para nós crianças.

Não fazíamos ceia de véspera, era na madrugada do dia 25 que acordávamos cedinho para descobrir o que o Papai Noel havia trazido e colocado pra nós embaixo da árvore; presentes simples, de necessidade, comprados com dificuldade, porém todos recebiam o seu pacotinho.

…. e o olhar de minha mãe reluzente e cristão, quando todos de mãos dadas cantávamos “Noite Feliz”… [ela fazendo a segunda voz].

Assim foram muitos e muitos anos, de uma união familiar natalina inesquecível, que só deixou de existir, desta forma tão tradicional, quando minha mãe foi comemorar o Natal no céu…

Então é isso! O cheiro das “bolachas” não estará mais lá, e eu não aprendi a fazê-las com minhas próprias mãos, assim como minha saudosa mãe fazia…

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    Se houvesse um dia específico para a saudade, certamente seria o Natal. Em contrapartida, lembranças de tradições, costumes e momentos de união, que colaboraram em nossa formação. Um lindo conto que fala de tudo isto, exalando amor pela família e orgulho pela história. Parabéns, Melania! Simples, envolvente e lindo! Abraços!