Aconteceu de novo…

E de novo me surpreendo com os amigos. Se bem que as pessoas usam a palavra surpresa para definir uma situação agradável. Os acontecimentos que vieram sobre mim, como uma imensa bola de neve, não me trouxeram alegria ou momentos de êxtase.

Cheguei na cidade acreditando que era esperado. Durante dias acompanhei os preparativos e ouvi muitas conversas sobre mim, então esperava que dessa vez os amigos estivessem realmente interessados em minha pessoa. Mas, ao chegar, não fui notado como esperava. Alguns até falavam sobre mim, mas não me reconheceram.

Sentei-me na praça, com desconhecidos e alguns deles, desprovidos de bens e de presentes para trocarem, falaram sobre meu aniversário. Reconheceram a data e discorreram sobre momentos que passaram juntos com os seus a comemorar meu dia. Ouvi, sem ser reconhecido, afinal não me esperavam mesmo ali. Andei até uma grande loja e em meu lugar havia um homem imenso, recebendo cartas e tirando fotos. Vi, no folheto esquecido no chão, que ele chegara em um helicóptero e sobrevoara a cidade, soltando flocos de neve, feitos com papel. Um saco enorme descansava aos seus pés e o velho sorria bonachão… Olhei e o reconheci. Passou o ano todo cultivando aquela barba branca, mas o fundo de seus olhos vi tristeza. O dinheiro que recebe não paga as despesas do hospital onde a esposa está internada.

A carta que recebe agora eu sei que faria ele chorar, se ainda lesse. Há muito tempo não lê o que lhe escrevem. Sabe que a maioria dos pedidos são impossíveis e alguns são muito egoístas… Perdeu o prazer real de ser um captador de sonhos que não pode realizar.

Em frente à igreja vi um homem sem abrigo. Sentei-me ao seu lado e o aqueci. Saiu do templo um outro homem bem apessoado e nos expulsou. Percebi que nem notou minha presença. O pobre homem que sentia fome me agradeceu o abraço e lembrei-me daquela senhora pobre que oferece sopa. Indiquei-lhe o caminho e ele sumiu, ainda falando comigo. Foi o único feliz aniversário que recebi ontem…

Sim. Ontem foi meu aniversário e visitei várias pessoas que diziam comemorar minha data natalícia, mas que na verdade estavam interessadas em manterem-se alojadas em suas esferas sociais, sem abrirem espaço para aqueles a quem amo.

Ontem muitos tinham fome e sentiam-se solitários, enquanto alguns, em meu nome, comiam e bebiam, sem olhar para quem realmente precisava de amor…

Houveram outros encontros e acontecimentos, mas nenhum que pudesse ser rememorado… Foi um dia igual aos outros para os humildes e os muito pobres. Dia de luta por um pedaço de pão e por um lugar para repousar a cabeça.

Ontem foi meu aniversário e só um mendigo percebeu minha presença e felicitou-me.

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  • Claudia Jeveaux Fim

    Bem reflexivo, Elisabeth! Um texto de muita sensibilidade! Gostei muito! Parabéns!

    • Elisabeth Lorena Alves

      Obrigada, Cláudia! É um tema que me perturba muito. Gosto e escrever sobre ele.

  • Jane Uchôa

    Lindissimo! Bem profundo e bem escrito, pra variar hehehe