Ciclos

Mil anos no futuro. Constelação de Ara. Planeta Argorium.

No deserto de amônia três desbravadores montados em resistentes lagartos gigantes apertam seus casacos protegendo-se do vento e avançam lentamente em direção ao horizonte que parece ser inalcançável. A areia cáustica penetra em suas vestes. A visibilidade é quase nula e suas vestimentas mal protegem do vento mortal e tóxico que chega a ferir suas resistentes escamas. Seus chifres que funcionam como um radar são inúteis na tempestade.

– Se não acontecer um milagre para acharmos a direção, pereceremos aqui, – fala o mais novo dos peregrinos. Tudo parece estar contra os viajantes. O clima é implacável e os lagartos estão exaustos. Sem enxergar nada, eles resolvem parar junto a algumas pedras para descansar.

Hoje. Via láctea. Planeta terra.

A tensão acentua-se dia a dia. A intolerância é a tônica. Escaramuças acontecem em todas regiões de fronteiras do mundo, tudo é motivo de ofensiva, podem ser diferenças religiosas ou ideologias políticas. A grande maioria das embaixadas e consulados de todo o mundo foi fechado. A insegurança e desconfiança dificultam acordos de paz. Depois de muitos anos de ameaças os muçulmanos se unem e atacam Israel. O ataque maciço de surpresa, leva a rápida vitória porém não sem retaliação. Em seus estertores o estado judeu lança um pesado ataque atômico. A Rússia revida e os Estados Unidos também. Em minutos todas as nações do globo envolvem-se na batalha e milhares de ogivas cruzam os ares da terra. Em poucas horas a terra vira uma bola de fogo extinguindo toda vida de sua superfície.

A explosão do planeta provoca uma luz azul de grande magnitude que irradia-se em todas as direções. O brilho continua durante anos pelo vácuo iluminando planetas em seu caminho.

 

Após mil anos, a luz está passando pela constelação de Ara. Um brilho intenso aparece nos céus de Argorium.

Já quase desfalecido, o peregrino idoso abre os olhos e percebe o brilho azulado – Veja, – diz ele, – olhem, a luz. Como disseram as profecias, vamos rápidos, sigamos a luz. – Com grande esforço os três sobem em seus lagartos e continuam a marcha. Seu aspecto surrado não demonstra sua origem nobre. Seguem na direção da luz e em poucas horas chegam a uma pequena vila. Sua salvação está assegurada assim como o final de sua jornada. Numa casa humilde uma multidão saúda o nascimento de uma criança. Suas escamas ainda tenras, são rosadas e mal se nota as protuberâncias que na fase adulta se transformarão em dois vigorosos chifres. Como rezava a profecia, a estrela azul revelaria o nascimento do Salvador.

Os três reis peregrinos se ajoelham e depositam seus presentes aos pés da criança.

LEIA TAMBÉM:

  • Claudia Jeveaux Fim

    Excelente! Uma visão futurista interessante! Marcando o recomeço, com o nascimento de outro “salvador”. Adorei!