A Beleza do Silêncio

 Brasil, ano de 2076:

Um. Dois. Três toques.

Atendeu, é complicado ignorar um som quando ele ecoa dentro da sua cabeça.

—Vicente Garcia, longa vida ao Governo da Terra.

Do outro lado, uma voz apertou o start de um texto que parecia já saber de cor:

— Boa noite, somos da Bela Arte corp., o senhor teria interesse em adquirir o lançamento da semana, o Kit Romero Britto para banheiro?

— Olha, são três horas da manhã, estou exausto. Ligue amanhã, por gentileza.

—Seu Vicente, o maravilhoso Conjunto de jantar Spring Summer hoje fica pela metade do preço e, se o senhor comprá-lo agora, ganhará uma panela. Vamos aproveitar a promoção?

— Me escuta: não, obrigado. Sou um cidadão C.2, sem um temercoin na carteira. Mesmo que eu quisesse, não poderia gastar no momento.

Silêncio. A provável mulher conseguiu soar ainda mais vazia:

— Vou pedir que aguarde e responda o formulário de satisfação. Longa vida ao Governo da Terra.

Vicente já havia tentado ignorar as ligações comerciais e aprendeu que, se não esperasse até o final do procedimento, o zumbido da chamada em aguardo o atravessaria como uma lâmina. Sem alternativa, o auxiliar de escritório da Fitness corp. respondeu as perguntas sobre cadeiras de praia e cortinas de banheiro. Depois, mergulhou em um sono cansado.

I

            Nós, humanos, possuímos a espantosa habilidade de resistir aos males que causamos. Três Guerras Mundiais, bombas nucleares e ainda estamos aqui, satisfeitos com o novo arranjo intercontinental que explora, pune e mata. Sempre em nome da paz. E qual o segredo da alta aprovação do Governo da Terra? Bem, é a excelente edição de imagem do prestigiado canal “Planeta Para o Bem”, com os seus vídeos que justificam as ações oficiais controversas.

Sobrevivemos também ao aquecimento global. Nos acostumamos com os novos desertos, alterações na temperatura e as doenças do calor. E a indústria farmacêutica agradeceu o fôlego adquirido. Da mesma forma, superamos o problema da superpopulação. Aliás, a marca de doze bilhões de pessoas em 2039 foi a mola propulsora do memorável projeto Sarasvati, o mais relevante avanço já realizado na integração social planetária.

Tendo como slogan “O ouvir une. Fale.”, Sarasvati foi lançado no décimo aniversário do Governo da Terra, consagrando os líderes da época como heróis. Consistindo, basicamente, na implantação de chips de comunicação nos ouvidos internos de cada indivíduo, ele permite que os cidadãos da Terra possam conversar com quem mentalizarem. O chamado ecoará na cabeça da pessoa e só cessará após uma resposta, garantindo assim que ligações nunca mais sejam perdidas.

Segundo o discurso oficial, essa rede de diálogo compulsório nos tornaria capazes de expor sentimentos e ideias com clareza, o que construiria a nossa harmonia interior e, em escala maior, evitaria outra Grande Guerra. Elementos como localizar com facilidade entes queridos, solucionar  casos de desaparecimento, a economia em aparelhagem e as possibilidades de propaganda corporativa terminaram com os argumentos da fraca oposição, que sumiu no desprezo das massas. O resto é história…

II

            Vicente sonhava com uma bebida quente enquanto subia trinta e três andares do edifício da Fitness corp.. Entrar em elevadores o angustiava, especialmente no dia em que completava outro mês sem alcançar uma ereção. Ansiedade, as dívidas acumulando, o pavor de morrer sozinho. Não podia gritar naquele cubículo de aço, então ruminava as suas angústias em silêncio enquanto batia compassadamente os pés.

O setor de Recursos Humanos era peculiar em relação ao restante das seções da Fitness corp. Nele, não havia a decoração minimalista, circulação de visitantes ou máquinas de última geração. Apenas cadáveres ambulantes, mesas bambas e computadores ultrapassados. No mais, o toque final da bizarrice era o fato de que, somente ali, o papel persistia como a matéria-prima de trabalho. Pilhas conservadas para garantir que, caso ocorresse um apagão, o domínio sobre os dados dos funcionários não se perdesse. Ou, quem sabe, fosse apenas uma tradição, transmitida dos antigos para os mais novos e que nunca foi questionada.

O café da térmica estava morno. Para disfarçar a falta de gosto do líquido marrom, Vicente usou um adoçante perdido na prateleira da copa. Como consequência da gulodice, as xícaras que tomou anunciaram a azia que, frequentemente, visitava o seu estômago. Desejou um atestado médico, virar as costas e sair, só que ter o dia descontado do salário daria um incontornável  prejuízo. Arrastando-se, suspirou e foi para o cubículo da janela, amarelado pela negligência dos serviços gerais. Ali, trabalho o aguardava.

A principal função de Vicente consistia em digitalizar fichas de funcionários, separando em pastas virtuais os cadastros dos empregados ativos e inativos. Não compreendia a razão de haver duas versões do mesmo documento, entretanto, não se manifestava. Tinha medo de ser trocado de atividade, o que o impediria de continuar com o seu “precioso segredo”. Esse consistia em uma coleção de fotos das ex-servidoras, que recortava dos cadastros após a informatização. Entendia perfeitamente que, caso o pegassem, seria demitido. Bastava alguém querer a certidão errada, notar a fotografia faltando e deu, emprego perdido. Só que aqueles rostos compensavam o risco.

Suava prestes a obter mais um belo item, quando o chamado entre os seus tímpanos fez a tesoura escorregar e rasgar um dos olhos negros de Ana Carolina, antiga administradora da loja regional Z de suplementos. Era a sua mãe:

— Longa vida ao Governo da Terra. Filhote, mamãe falando.

— Mãe, estou no serviço, agora não posso conversar.

— Ai, quanta ingratidão. Nunca me visita e, quando eu ligo, quatro pedras na mão.

— O que a senhora quer?

— Dar um oi. E não tenho mais meu Nexotal. Você sabe, não durmo sem ele.

— Mãe, estou sem um tostão.

— Seu ingrato, te peço ajuda e tu me nega. Uma velha morrendo de ansiedade, deveria era te denunciar.

Suspirou, resignado:

— Certo, vou dar um jeito e te deposito. Cinquenta temercoins é o suficiente?

— É, querido, aguardo o dinheiro. Beijinhos, mamãe vai desligar. Longa vida ao Governo da Terra!

Contatou o banco. Pagar juros ainda era melhor do que ter de aguentar os gritos daquela que o colocou no mundo e o fazia de saco de pancadas desde que se entendia por gente.

Seguiu. A garota no quadrado 3×4 continuava o encarando com uma vista amendoada e, por instantes, o solitário rapaz encheu-se de coragem. Mentalizou o número que constava na ficha, o coração pulsando mil fantasias amorosas. Porém, ao ouvir a voz feminina se identificar e fazer a saudação de praxe, encerrou a chamada com nervosa rapidez. Não, não daquela vez. Passou para a pasta debaixo, o Ronaldo da Segurança.

III

 

            Vicente voltou para casa embalado pelas cacofonias do engarrafamento da Rodovia. Ele  queria a sua cama, mas o ônibus não andava fazia alguns minutos. Através da janela do coletivo, olhava as pessoas encapsuladas em seus veículos, faces cinzentas indistintas, e ânsia de vômito lhe subia pela garganta. Marcos, um dos seus raros amigos, o convidou para um bar, algo sobre futebol e os companheiros da firma na qual atuava. Mas recusou, nunca se sentiu bem perto de desconhecidos. Chegando, a televisão o recepcionou, um show de auditório banal o suficiente para ser ignorado. Na tela, pixels gargalhavam.

            O sono havia se perdido na demora do trajeto, por isso, Vicente conectou-se para se inteirar das notícias da madrugada. Acabou em páginas humorísticas e, nesse tour por memes e vídeos aleatórios, adormeceu. E um lindo sonho foi um presente inesperado. Sentado em um gramado, o sol penetrava sua pele com um calor carinhoso. Uma obra de arte pulsante, o toque final era o silêncio que borbulhava ao redor. Preenchido por todo aquela tranquilidade, o rapaz sorria. Há tempos não se sentia tão pleno. Mas não se iluda, alguns já nasceram fadados ao azar. Assim, Vicente foi acordado.

           Não discerniu se foi pelo saxofone da vizinha, a freada de um carro ou pela conversa no apartamento de cima. Chorando, cogitou ligar para a sua mãe, mas ela logo o despacharia. Nesse instante, dominado por instintos que não compreendeu, caminhou até o banheiro. Duas tesouras, que tantos rostos bonitos recortaram, foram com ele. Os talhos grosseiros e a dor no chão, as orelhas jaziam mortas ao seu lado. O sangue que brotava, colorindo a sua pele pálida, o fez sorrir. Saiu para a rua como estava.

 

Epílogo.

Vicente foi encaminhado para o Manicômio Central, virando o assunto da semana nas redes sociais. Atualmente, quase nunca é visitado por sua mãe, que ficou responsável pelo recebimento e administração dos ordenados de invalidez relativos ao período de trabalho na Fitness corp.

Mas tudo bem. O seu rosto magro agora está sempre enfeitado por um sorriso abobalhado e as mãos frágeis passaram a dedicar-se à pintura. Nus femininos e gramados estrelados são os temas dominantes dos quadros, prontos para serem expostos. Quem sabe o quanto valerão no futuro?

Escrevo por necessidade

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Mariana Carolo

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  • Emerson Braga

    “Entrar em elevadores o angustiava, especialmente no dia em que completava outro mês sem alcançar uma ereção”. Que sacada! Apreciei cada instante… Uma verdadeira descida ao inferno psicológico que só nossa modernidade pode nos proporcionar.

  • Elisabeth Lorena Alves

    Bárbaro!