Juntos como um

— A família é a mais forte e necessária instituição de todas – dizia o padre, a mão direita levantada, enquanto olhava para o casal. – E vocês, Ivan e Manoela, estão dando um grande passo aqui, hoje, escolhendo enlaçar suas vidas e viverem, sob a luz de Deus, como um só. É preciso coragem, sabedoria, abnegação e – acima de tudo – amor, para viverem assim, juntos. O casamento, então, é um voto sagrado de vida eterna um ao lado do outro, enquanto vive…

— Pare aqui —  ele disse, e a imagem congelou. — Esse negócio aí de “eternamente juntos” é meio permanente, não é?

— Era assim que funcionava, senhor Ivan — respondi. — Uma promessa feita diante da divindade <DEUS>, com peso ritualístico considerado muito sério pela sociedade da época.

— Mas… ficar preso assim…? Monogamia forçada?

— Muitas pessoas consideravam isso uma prova de amor, senhor Ivan.

— Credo. Bom, vamos lá. Continue a simulação. Avance dois anos.

Um borrão negro. A imagem estourou em luz no córtex audiovisual, forçando o sinal de maneira global depois disso. Confusão sinestésica, depois nova estabilização.

Estavam à mesa, Manoela e Ivan. Tomavam café. Ele lia o jornal projetado diante dele, ela acariciava a barriga redonda e sorria.

— A gravidez traz riscos desnecessários, Manu.

— Eu sei, Ivan, mas… cultivar uma criança me parece tão… frio. Distante! Eu quero ser mãe!

— Teu corpo vai ficar todo estragado — ele disse, e ela fez uma careta. — A beleza vai se acabar… e não temos dinheiro para cirurgias corretivas! Não agora!

— É nisso que você pensa? A beleza de meu corpo? Pensei que você me amasse!

Ele suspirou. Manoela era apaixonada pelos valores do século passado. Valores que já estavam em decadência desde antes da Guerra, pensou ele.

— Mas eu te amo. Até aceitei casar!

— E foi um sacrifício muito grande, casar comigo? É muito difícil manter relações físicas com outro ser humano? Hein? Responde! Para de ler e olha para mim! Iva…

A imagem parou a um gesto dele.

— Isso é muito desgastante, A1la.

— Percebi seus níveis de cortisona aumentando, senhor Ivan.

— Tem como ser menos realista?

— Esse é um ônus da projeção direta, senhor. Vivência tão próxima do real que eu diria… indistinguível.

— Ok. Se não tem jeito… acelera aí mais dez anos.

— Dez anos? Senhor Ivan, risco alto de estresse emocional e sequelas.

— Permanentes?

— Não no início. Mas pode ser muito profundo com a continuidade. Difícil de reverter.

— Não se preocupe, eu aguento. Como está Manuela?

— Termos de confidencialidade me impedem de comentar sobre a experiência de sua noiva. O senhor assinou…

— A1la…

— Ela está indo bem. Não avançou ainda um segundo sequer, apesar da velocidade aumentada da projeção.

— Ela quer ver tudo, não é?

— Sim, senhor.

— Bom, então vamos continuar. Dez anos. Vai.

Ele segurava uma menina no colo. Luiza. Parecia muito com a mãe. Na sala, jogando um virtual, Davi, de dez anos. Parecido demais com ele. Manuela entrou na sala trazendo uma… mamadeira.

— Isso é protenon, Manu?

— Isso é leite materno, Ivan.

— Credo — ele disse. — E a Lu vai beber isso?

— É saudável, amor. Melhor que essas bebidas sintéticas.

— Olha, eu não concordo com isso não… ficar insistindo nesses hábitos pré-históricos… Vai que a menina adoece…

Manuela deu um grito e estourou a mamadeira no chão, espalhando o líquido morno por toda a cozinha. Luíza começou a chorar.

— Você está louca, Manu? O que é isso?

— Você só critica o que eu faço! É “velha”, “gorda”, idiota das cavernas”… só me despreza, eu estou cansada disso! Quero o divórcio!

— Mas querida, as crianças… eu…

— Chega, não quero saber!

Ela pegou Luiza no braço e saiu arrastando Davi pela sal, enquanto o menino gritava com ela por causa da conexão perdida. O que ele havia feito de errado? Bastava criticar o comportamento retrógrado dela e ela ficava assim, sensível? E essa de divórcio? Era possível a separação depois daquele ritual estúpido? Ele deveria ligar para o Lionel. Sim, um excelente advogado, havia me ajudado muito no rolo com a Nikatomi. Sim, era isso que ele faria. Não deixaria que as coisas ficassem daquele jeito, porque…

*

— A1la?

— Sim, senhora Manuela?

— Já se passaram cinco anos, não foi?

— Sim, senhora.

— Acho que isso não vai dar certo, sabe? Ele é legal, mas… soa cada vez mais como um cretino.

— Não posso opinar sobre isso, senhora.

— Eu sei. Como está a projeção dele?

— Ele avançou dez anos. Danos permanentes à percepção se aproximam. Se eu interromper a projeção agora, porém, ele se recuperará em dois meses.

— Ele não consegue parar?

— Não mais — disse A1la. — Os danos circulares causam um mal funcionamento na percepção, e…

— Posso ver a projeção dele?

— Os termos de confidencialidade…

— Ok, ok, A1la. Tudo bem. Encerre a minha.

— Sim, senhora.

Manuela levantou do divã e, afastando os cabelos da orelha, desconectou o plugue, colocando o receptor sobre a mesa. Depois, caminhou para a porta.

— Já de partida, senhora Manuela?

— Sim. Acho que isso de casamento… bobagem, não é?

— Costumes muito antigos, senhora — respondeu A1la. — Mas… e quanto ao senhor Ivan?

Manuela sorriu.

— Deixe-o aí. Acho que esse negócio de casamento não é para mim.

 

 

Nativo de um século analógico, fã de literatura de FC e Horror. Contista e poeta, escreve por necessidade. Músico e fotógrafo amador, acredita que a beleza do mundo reside no fato de não haver sentido (ou segredo) algum.

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Michel Euclides

Nativo de um século analógico, fã de literatura de FC e Horror. Contista e poeta, escreve por necessidade. Músico e fotógrafo amador, acredita que a beleza do mundo reside no fato de não haver sentido (ou segredo) algum.

  • Ana Cristina Faria

    Michel, gostei muito do texto, peço desculpas pelas considerações pois sou novata em saborear esta linha de futurista (Black Mirror, estou assistindo por ter sido influenciada pelo Wilson Júnior) e os termos usados talvez sejam retrógrados tanto quanto os hábitos e vontades de Manuela, mas quero dizer que mesmo numa realidade distante os gêneros se mostram iguais ao que são hoje, paralelos e quando se unem tendem a fazer concessões do contrário casamento para quê? Um abraço!!!!

    • Michel Euclides

      Ana Cristina, fico grato pela leitura e pelo olhar!