Decessados

Iolanda chegou no horário marcado à Casa de Aceitação Próspera. Ao longo da extensão longitudinal do hall de acesso ao prédio de pé-direito altíssimo, a luz natural filtrada varria as paredes correspondentes a dois vazios laterais.

Antes de chegar à ilha da recepção, foi abordada por uma mulher madura e de semblante pacato que a recebeu com intimidade pertinente apenas a grandes amizades. Enquanto permitia o abraço invasivo da estranha, Iolanda fechou os olhos e concentrou-se na melodia relaxante que reverberava do piso ao teto, ambos de uma alvura fenomenal. Sentiu uma solidão devastadora e suspirou vencida pelo medo.

― Meu nome é Regina, irmã ― sussurrou a mulher junto ao ouvido de Iolanda ― Você tomou a decisão certa. O decesso não é o fim da vida, mas da dor. Prometo que nos empenharemos em proporcionar-lhe uma transição serena.

Sem saber o que dizer, Iolanda desvencilhou-se do corpo cuja intimidade a agredia e sorriu como se quisesse que tudo aquilo acabasse o mais rápido possível. Pensou em Nicolai e desejou ter amado outro homem, um que não a rejeitasse por ela ter apresentado avarias em sua estrutura corpórea. Não deveria ter comprado pílulas de desaceleração cronológica no mercado negro. Tornar-se mais jovem a fim de garantir a manutenção de seu relacionamento amoroso custou-lhe a saúde. A versão do câncer que se espalhava por seu corpo era tão agressiva que os gastos com o tratamento seriam inviáveis para uma simples operária. Se fosse um dos habitantes da Zona Branca, não teria problemas em custear as sessões de nanoterapia. Restava-lhe contar com a boa vontade do Estado e aceitar o decesso como uma opção válida. A dor avançava a cada dia e Nicolai não permaneceria muito tempo na companhia de uma pessoa danificada. Se insistisse em mantê-la como esposa, talvez perdesse o emprego e fosse excluído de suas redes sociais. Nicolai dizia que a doença a transformara, que ela havia deixado de ser uma mulher disponível e satisfeita. Já não era mais a mesma.

― Você está me escutando, irmã? Caminhou até aqui feito uma sonâmbula ― observou Regina antes de oferecer-lhe uma camisola.

― Desculpe-me. Eu… ― respondeu Iolanda, parecendo constrangida por sua distração.

― Bem, você pode trocar de roupa e deitar-se no divã. Quanto às imagens de seus parentes e amigos já decessados que estão neste arquivo, elas têm resolução 20K? É que tornaria a experiência holográfica do reencontro mais vívida, entende? Você deseja a presença de alguma celebridade? Quer que pássaros voem pela sala? Podemos incluir também um dia de chuva ou um crepúsculo andino. É importante que você tome primeiro o comprimido vermelho. E, apenas quando sentir uma sensação de paz indescritível, engula o azul. É aí que a mágica começa. Em pouco tempo, você estará cercada das pessoas que mais amou em sua vida. Tudo terminará antes que perceba. É pacífico, indolor e reconfortante. Lembre-se: O decesso não é o fim da vida, mas da dor.

Quando sozinha, já devidamente vestida para o procedimento, Iolanda deitou-se e aguardou que a peça por ela escolhida, Sinfonia Manfredo, de Tchaikovsky, começasse a tocar. Imaginou por um instante como teria sido a vida se a tivesse vivido à sua maneira. Com lágrimas nos olhos, afrouxou os dedos da mão e deixou que os dois comprimidos caíssem sobre o carpete alvo e felpudo.

― Ao menos na morte farei as coisas do meu jeito ― disse antes de morder a ampola de cianureto que trazia na boca.

Ao invés de manifestações holográficas de pessoas queridas, projeções dos fundadores da Casa de Aceitação Próspera alternaram-se ao redor do divã. Os homens virtuais olhavam-na com candura e benevolência, enquanto Iolanda convulsionava, tendo os dentes trincados e a garganta inundada por uma baba espessa. Os enfermeiros já se mobilizavam ao seu redor quando ela parou de tremer e, olhando fixamente para o vazio, grunhiu:

― Mãe… Você veio!

― Desliguem os outros hologramas e deixem apenas o da mãe dela! ― ordenou Regina, temendo que o acidente acarretasse problemas à sua imagem junto ao Instituto.

― Doutora, a senhora não vê? Olhe ao nosso redor! Ela nos trouxe um arquivo que contém apenas imagens de cientistas e políticos renomados… Por que, em seu decesso, ela escolheria estar na companhia de pessoas que nem sequer conhece? ― perguntou o operador holográfico.

― Porque isto não é um decesso, rapaz. É um motim ― respondeu Regina antes de ouvir seu nome sendo chamado no alto-falante.

Natural de Fortaleza, no estado do Ceará, é autor do romance “A Morte de um Embusteiro Viajante” e do livro de contos “Amores, Desafetos e Outros Despautérios Acerca de Eros”, além de colunista das revistas Plural e Samizdat.

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Emerson Braga

Natural de Fortaleza, no estado do Ceará, é autor do romance "A Morte de um Embusteiro Viajante" e do livro de contos "Amores, Desafetos e Outros Despautérios Acerca de Eros", além de colunista das revistas Plural e Samizdat.