A Máscara da Felicidade

 

Laura encarava o entrevistador, apreensiva. O homem elegante a sua frente não pode deixar de reparar em seus pés ansiosos, batendo ritmados no chão.

— Então, Sra. Laura Alves — ele começou, lendo as informações na ficha que ela preenchera horas antes. — Ansiedade e estresse pós-parto. Correto?

— Sim.

— E a senhora acredita que isso a qualifica para ser uma cobaia voluntária em nosso programa?

— Isso é o senhor que decide. — Ela tentou forçar um sorriso. Seus pés não paravam quietos — Mas espero que sim.

O entrevistador largou a ficha de Laura na mesa de vidro e inclinou-se, falando com voz ponderada:

— É preciso que entenda, Sra. Laura, que esta é uma tecnologia revolucionária, mas ainda em fase de testes. Há riscos que não…

— Eu sei — ela cortou, apertando a barra da saia. — Eu li os termos. Sei dos riscos. Eu quero tentar mesmo assim.

O homem reclinou-se em sua confortável cadeira, e sorriu.

— Bem, neste caso, está bem. Sua adesão precisa passar pela apreciação do conselho. Verificaremos os testes clínicos realizados, seu histórico psicológico, você sabe, o básico.

— Eu entendo, senhor.

— Bem, Sra. Laura, entraremos em contato — ele disse, e apontou a porta. — Boa tarde.

****

Laura chegou em casa logo após o entardecer. Largou-se no sofá e jogou um dos saltos para bem longe. Já estava pegando o celular para verificar as redes sociais quando Júlia, a babá, veio interromper seu momento.

— Dona Laura?

— Sim, Júlia, o que você quer? — ela perguntou, nem ao menos se dignando a tirar os olhos do celular.

— Edu ficou dormindo no berço, ele não vai acordar tão cedo. Eu, bem, preciso sair agora.

Laura largou o aparelho e encarou a moça

— Combinamos que você ficaria até tarde hoje. Eu disse que poderia ficar para o jantar.

— Eu sei, dona Laura, mas eu realmente preciso ir agora. Minha mãe ligou e, bem…

— Tudo bem, Júlia, vá, pode ir.

A babá saiu, deixando Laura entendiada, apreciando a companhia do celular. Ainda levaria umas três horas até Jorge voltar para casa. Laura serviu-se de uma taça de vinho, do qual bebeu apenas metade. Espiou pelo aplicativo da babá eletrônica no celular: as imagens mostravam Edu dormindo sossegado, com os sinais vitais normais.

Ainda demoraria umas duas horas para o Jorge voltar…

Olhando o Facebook, logo deparou-se com o mesmo anúncio que a fizera sair de casa naquele dia.

A imagem eram duas máscaras, daquelas de teatro, uma triste e uma feliz. O texto dizia:

Cansado(a) do stress imposto pela sociedade? A depressão está tirando sua vontade de viver? Sofrendo de ansiedade? Seu TOC não lhe permite viver nesse mundo assimétrico? Talvez nós tenhamos a solução. A JOY Bioengenharia apresenta um produto revolucionário: JOYTattoo, o novo implante subcutâneo indutor de euforia. Seus dias de tristeza acabaram. Venha viver dias de alegria.

Produto ainda em fase de testes. Procuramos voluntários…

O bebê começou a chorar.

Ah, puta merda, essa não.

***

O táxi deixou Laura em frente ao prédio da JOY Bioengenharia. A mulher de meia-idade entrou e dirigiu-se ao balcão.

— Pois não?

— Meu nome é Laura Alves. Estou aqui para o implante do JOYTattoo.

— Sim, claro — a atendente disse. — Seu código de autorização, por favor?

Laura mostrou-lhe o celular com o código QR. A atendente fez a leitura deste e autorizou sua entrada, indicado o caminho pelo qual deveria seguir. Não havia outras pessoas esperando: era horário marcado. Melhor assim: Laura não suportaria esperar em uma fila, com outras pessoas a observando.

Em dez minutos, estava numa espécie de mesa de operação. O médico explicava o procedimento:

— Não se preocupe, é indolor. Bem, assim será, após a anestesia. Então inseriremos o implante entre a derme e a epiderme…

— E porque a tatuagem, então?

— Não é permanente — o médico garantiu. — É algo meramente estético, coisa de marketing. Está no contrato.

— Sim, verdade — ela disse, não querendo admitir que mal lera o contrato.

— Podemos começar?

— Sim. Por favor.

***

Laura saiu da JOY com o espírito renovado. Da sala de operação até o táxi, deu boa tarde para todos que encontrou pelo caminho. Era uma outra pessoa, mais leve, mais plena. A coisa realmente funcionava. Sabia que o efeito decairia ao longo do dia, mas teria uma dose diária de felicidade enquanto durassem os testes.

Não pode deixar de notar uma pichação no moro bem em frente ao prédio da JOY: “a tattoo é a marca da besta”, escrita em gritantes tons vermelhos. Ela olhou para a tatuagem em seu antebraço direito: era uma máscara, com sua face dupla, metade sorridente, metade triste.

— Então, a senhora é uma das marcadas — o motorista comentou, olhando pelo retrovisor. — Com a tal tatuagem.

— É provisória — ela disse, com um largo sorriso. — O médico garantiu. É algo para o marketing do produto.

— Sei… Provisório, hein? Assim como a vida.

Mas naquele momento Laura estava imune ao azedume do homem. O mundo parecia radiante demais para ela se importar com um simples motorista estressado.

— Sabe, o senhor deveria experimentar.

— Isso aí é para quem tem dinheiro como a senhora. Não dá pra comprar essa tattoo da felicidade com o salário de taxista.

— Mas eu não paguei nada por ela. Está em fase de testes.

— Mesmo assim, quando estiverem vendendo, custará uma fortuna. Apenas para ter alguns momentos de alegria. Eu pago um litrão no bar, e isso cabe no meu orçamento.

— Cerveja não traz felicidade — ela disse.

— E um chip no braço traz? — o motorista retrucou. Ele apontou para uma foto no retrovisor. Era uma garotinha sorridente.— Minha filha. Cinco anos. A maior alegria da minha vida. A senhora tem filhos?

— Sim, eu tenho — ela disse. — Apenas dirija, por favor. Estou um pouco cansada.

Ela encarou a tatuagem no braço e, por um momento, viu apenas a face triste da máscara.

***

Júlia acordou tarde, e teve que se arrumar às pressas. Comia um pão enquanto conversava com o namorado:

— Eu sei, amor, que a gente tinha combinado. Mas o Sr. Jorge inventou de viajar, e a dona Laura tá sozinha em casa hoje. Ela me ligou ontem a noite, parecia bem triste…

Ao passar pela sala, cumprimentou a mãe:

— Tô indo na dona Laura, mãe. Tô atrasada, beijo.

— Espera, você viu isso?

Sua mãe assistia a TV. Era o noticiário da manhã.

— Isso não é aquela empresa que tua patroa fez a tatuagem? — sua mãe disse, apontando.

Júlia parou. Na TV, um sujeito que, pela legenda, era CEO da JOY Bioengenharia, era bombardeado por perguntas dos repórteres:

— … ainda estamos apurando o ocorrido.

— Isso foi uma falha de segurança? — alguém perguntou.

— Como já disse, ainda estamos investigando o incidente.

— Seria possível todos os implantes terem sido hackeados ao mesmo tempo? — o repórter do jornal questionou.

— Todos? — Júlia disse. — Como assim todos? O que aconteceu, mãe?

Na TV, algum segurança deu um soco no repórter. A imagem cortou para os estúdios, e o âncora rapidamente lidou com a situação.

— Bem, parece que perdemos as imagens ao vivo. Para aqueles que sintonizaram agora, uma terrível tragédia aconteceu nas últimas horas. De ontem para hoje, cerca de oitenta pessoas se suicidaram. As informações preliminares que temos é de que todas era cobaias voluntárias do novo implante da JOY Bioengenharia. O produto ainda estava em fases de testes, e supostamente induzia um estado de felicidade extrema no paciente.

Júlia sentou no sofá. Estava atenta ao noticiário, enquanto tentava ligar para a casa de Laura. Ninguém atendeu.

— Não é possível, isso é um pesadelo — ela murmurou.

— Eu nunca confiei nessas coisas — a mãe disse. — Isso era a marca do diabo.

Júlia tentava ligar para o número do Sr. Jorge, sem sucesso. Houve uma breve pausa para comerciais, e, quando voltaram, o âncora trazia uma bomba:

— Voltamos com informações exclusivas sobre o caso da JOY Bioengenharia. Uma fonte anônima nos enviou um vídeo com a possível identidade do responsável pelo incidente.

Exibiu-se o vídeo. Nele, um homem de meia idade aparecia em uma sala escura.

— Se vocês estão vendo isso, então talvez eu esteja morto — e, ao dizer isso, mostrou no antebraço a tatuagem da máscara feliz\triste. — Eu sou o engenheiro chefe do projeto JOYTattoo. Este é o primeiro de três vídeos. Nele, eu vou explicar o que exatamente aconteceu. É bem simples: todos os implantes possuíam um receptor interno e um sistema de inversão ativado remotamente. Ou seja, eu inverti a função do implante. Em vez de induzir um estado de alegria, ele passou a induzir um estado de profunda melancolia e depressão. — Ele fez uma longa pausa. — A grande questão é: se você estivesse com o implante, você lutaria contra esse sentimento ruim, ou se deixaria afundar?

Fim do vídeo.

***

No apartamento de Laura, uma criança chorava alto. Um telefone tocava insistente, largado no chão. A mulher jazia no sofá. Em sua mão esquerda, uma faca ensaguentada. O braço direito pendia pela lateral do estofado, o sangue escorrendo para o chão.

Mestre em matemática pela UFC, viciado em séries e jogos, curioso observador do universo, editor do Clube de Autores de Fantasia e aspirante a escritor.

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Renan Santos

Mestre em matemática pela UFC, viciado em séries e jogos, curioso observador do universo, editor do Clube de Autores de Fantasia e aspirante a escritor.

  • Elisabeth Lorena Alves

    Perfeito… Resolvi ler logo… Gosto da ideia de perdição/salvação que lateja em toda a leitura. Parabéns!

  • Melania Ludwig

    Nossa! Conseguiu prender minha atenção a essa hora da noite! 01:02h
    Parabéns!!!