Namorado Virtual

Os anos haviam passado, aquela era a data que ficara marcada em sua mente, a data em que descobriu o amor pela primeira vez. Na época não sabia como lidar com o novo sentimento, sempre foi confuso e muito intenso. Foi assim que tudo começou. Ela se apaixonara por ele e ele por ela. Foi avassalador enquanto durou. Mas acabou. O que lhes restava eram apenas lembranças, algumas fotos e bilhetes que haviam trocado na juventude.

O tempo passa e as lembranças ficam.

Todo ano, naquela data, ela se lembrava dele. Mas quanto mais o tempo passava, mais distantes as memórias ficavam. Em alguns momentos da vida, ela achava muito melhor assim.

Lembrar dói…

Hoje ela era outra pessoa, muito mais decidida e confiante, não lembrava muito a menina inocente por quem ele havia se apaixonado…

Ele se casou, não teve filhos. Ocupava o tempo e os pensamentos com seus trabalhos. Tentava se convencer de que era feliz. Para ele era muito mais fácil, mas também pensava nela. Lembrava-se de sua menininha, a pequena magricela por quem ainda era apaixonado.

As vezes eles pensavam como seria se tudo tivesse dado certo ou se um dia se reencontrassem, como seria?

O tempo passou e muitas coisas mudaram e evoluíram, principalmente a tecnologia. Ele começou a trabalhar como operário numa empresa de avanços virtuais, faziam experiências tecnológicas que envolviam pessoas. Ele não sabia muito sobre o assunto, sempre fora alheio a quaisquer coisas que envolvessem teclados, telas e carregadores portáteis.

Num dia não muito bom, ele sofreu um acidente enquanto consertava uma rede de cabos, levou um choque e caiu do decimo andar. Antes de entrar na empresa, havia preenchido uma papelada doando seu corpo para experiências em caso de falecimento ou coma profundo sem reversão.

A esposa, que já não era apegada a ele, decidiu que tudo bem e acatou o último desejo do marido que já estava em como há alguns meses.

Não muito longe dali a mulher que sempre fora apaixonada por ele ouviu a notícia de sua morte pelos jornais. As notícias se concentravam nos novos estudos que estavam sendo desenvolvidos. Ela se apressou, usou seus contados no governo, da época em que trabalhou em campanhas eleitorais e conseguiu acesso a tal empresa de tecnologias.

Chegando lá, ficou sabendo dos experimentos. A ideia era transferir a personalidade da pessoa para o aparelho celular de um ente querido, assim seria mais fácil lidar com o luto. Ela concordou em assinar os papeis, colocando-se a disposição como voluntária. Pediu para participar, pois tinha memórias com aquele homem e para que o processo se completasse, era necessário um vínculo muito forte, coisa que a viúva não possuía mais.

O procedimento foi iniciado, ela usou uma touca cheia de luzes e pontos eletrônicos que esquentava um pouco a sua cabeça, e foi incentivada a falar sobre o que lembrava, os momentos juntos, como se conheceram, primeiro beijo e coisas do tipo. Através de suas lembranças, às dele seriam atraídas e ativadas, dando a possibilidade de copiarem sua personalidade com 99,8% de compatibilidade. Em seguida, uma imagem virtual dele seria lançada em um aplicativo instalado no celular e carregada com os dados coletados pelas lembranças dos dois.

Ele continuava vivo, mantido por máquinas, mas se fossem desligadas ele estaria apenas virtualmente vivo. Ela poderia tê-lo sempre ao seu lado, disponível com um toque na tela. Poderiam conversar, passear, fazer refeições juntos e até mesmo trocar carícias com o uso da touca e um cabo de transmissão de dados ligado ao aparelho.

Ela ficou maravilhada com todas aquelas possibilidades. Sabia que as chances de ele sair do coma, eram quase nulas, sua esposa o havia abandonado… Ela aceitou fazer parte do experimento.

Levou alguns meses, as maquinas já haviam sido desligadas e todos os itens necessários, coletados e virtualizados.

Chegara o dia do encontro.

Ela recebeu um novo aparelho celular, era exclusivo para aquele experimento. Poderia ouvi-lo e falar com ele através de um ponto acoplado ao seu ouvido, basicamente um fone comum, mas que também permitia gravar as conversas e transmitir sensações básicas como calor da pele, cheiros e alguns toques mais leves.

Chegou em casa naquele dia muito ansiosa. Preparou o ambiente para receber a visita, que na realidade, só estaria dentro do aparelho novo. Se arrumou e se perfumou. Colocou ao fundo, a música que marcou o primeiro encontro deles.

Estava pronta.

– Mas e se ele não estiver pronto? E se ele não quiser me ver?

Acalme-se, é apenas um aplicativo, é apenas a versão virtual dele. Não tem com que se preocupar. Ele será movido pelas lembranças que temos juntos, é por isso que estou aqui. Não tem com o que se preocupar.

– Está bem.

Ela pega o aparelho, olha com cuidado, verifica se está tudo como recomendado e então, toca na tela fria.

Logo que as luzes acendem e o aparelho começa a brilhar, ela coloca o ponto no ouvido e escuta os batimentos do coração de seu amado. Ouve sua respiração e o calor de sua pele. Sente o cheiro do perfume que ele usava, seus olhos se enchem de lágrimas.

– Como eu queria poder tocar sua pele…

Ele aparece na tela. Parece acordar de um sono profundo.

– Onde estou?

Ele olha em volta, ela está do outro lado, ele pode vê-la. Por alguns segundos fica sem reação. Ela toca na tela, troca a roupa dele para uma muito parecida com a que usava no primeiro encontro. Passa o dedo na tela novamente e de repente, ele está sentado à mesa, ela escolhe o prato preferido dele e arrasta expondo tudo diante dele. Enxuga as lagrimas,

– Coma, você deve estar com fome.

Sem entender, ele começa a comer e observa o relógio estranho em seu pulso acender uma luz verde.

– Está gostando? É sua comida preferida.

– Onde eu estou? Me sinto estranho, pareço mais jovem… Estou sonhando?

Ela conta para ele tudo o que aconteceu. Explica que não havia outra escolha.

– Pelo menos agora estamos juntos, mesmo que de um jeito estranho… – Ela fala enquanto acaricia os cabelos dele através da tela.

Ele olha para o relógio que vibra em seu pulso e percebe uma outra luz acender, dessa vez roxa. Do outro lado, ela observa o Life e percebe que ele precisa ir ao banheiro, então muda de tela e dá a ele um pouco de privacidade.

Com o tempo, toda aquela rotina se torna mais simples. Ele se exercita, conversa sobre sua vida sem ela, fala sobre suas aspirações, aprende outras línguas e divide com ela tudo o que sente. Ela não deixa nada lhe faltar, até sugeriu novas atualizações que melhoraram a qualidade do aplicativo, dando a ele mais conforto e milhares de opções. Virtualmente, ele visitou vários lugares pelo mundo inteiro. Sempre que voltava, trazia algo para ela. Instalavam na impressora 4D, e logo ela tinha em mãos o presente de seu amado.

Com o tempo, ela adoeceu e antes que viesse a falecer, pediu para ser instalada junto a ele no aplicativo.

E foi assim, que eles viveram felizes para sempre ou pelo menos, até a bateria acabar…

Pedagoga, contadora de histórias, mediadora de leitura, mãe, esposa e escritora. Uma eterna sonhadora, sempre gostou de escrever e sempre procurou estar perto dos livros. Escrevia escondido, mas um dia resolveu “sair do armário”, e aprendeu que escrever é um exercício diário e que é possível tocar e transformar através da leitura e da escrita.

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Juliana Oliveira

Pedagoga, contadora de histórias, mediadora de leitura, mãe, esposa e escritora. Uma eterna sonhadora, sempre gostou de escrever e sempre procurou estar perto dos livros. Escrevia escondido, mas um dia resolveu “sair do armário”, e aprendeu que escrever é um exercício diário e que é possível tocar e transformar através da leitura e da escrita.

  • Fabiano Sorbara

    Parabéns Juliana um lindo conto de amor, hoje a tecnologia faz com que acreditemos que tudo seja possível! Adorei!

    • Juliana Oliveira

      Obrigada! 😍