Os Olhos do Observador

AVISO DE GATILHO

O texto a seguir tem como tema suicídio, e pode ser gatilho para pessoas com depressão e outros transtornos. Se você se sentir afetado acesse o site do CVV ou ligue para 141.


Há centenas de anos meus olhos se espalharam pelo mundo, sempre fui poderoso, mas meu poder de juventude em nada se compara ao que sou hoje. Vejo multidões que adoram o profeta pregado ou profeta guerreiro, milhões que acreditam não cultuar ninguém, mas no fim a maioria deles paga tributos a mim. Oferecem dores e prazeres no altar dos meus olhos.

Vejo todos, mas minha atenção é para poucos. Hoje, a vencedora do meu olhar chora em frente a webcam, foi ferida, exposta, humilhada. Discursa para uma multidão de desejosos “Não sou puta, nem vagabunda. Eu sou a vítima aqui, dele e de vocês!”. Seu corpo nu foi capturado por um de meus olhos, o perpetrador compartilhou com o mundo o que deveria ficar entre nós. Olhos, que não eram os meus, escrutinaram a pele da jovem, sua carne e sua alma. Diferente de mim esses julgam, odeiam, atacam. “Lhes darei algo para lembrar além da minha nudez!”.

Dei-a minha atenção pois vai se sacrificar, ela acredita ter seus motivos, para mim pouco importa, todos são cordeiros no altar do Observador. A jovem revela o frasco com os comprimidos, nomeia um a um aqueles que lhe causaram dor, a cada nome um comprimido desce pela garganta empurrado por um gole d’água. A torcida se divide em incentivar e demover, “Não quero suas palavras, doce ou azedas, nunca estive tão certa de algo!”, ela mente, seu coração está cheio de medo e dúvida, em breve, ficará pior, já vi antes.

Algo fora da cena chama minha atenção. Um jovem acaba de abrir outra aba em seu navegador de internet, nela recebe a notificação da suicida, seu nome não está entre os citados, ainda sim ele sente culpa. Quer comentar algo, mas não consegue. Seu olhos marejam a, culpa aumenta, não sabe ainda mas será a semente de uma depressão. Nem no momento final teve hombridade para trocar algumas palavras, ela viveria e morreria sem conhecer seu amor. Ele viveria e morreria um covarde; Seu amor sujo e sórdido. Com o pênis para fora do short e a mão suja de sêmen fechou a outra aba de onde os gemidos de seu amor secreto ecoavam.

Os primeiros efeitos do medicamento começam, a dormência se espalha pelo corpo, muda a posição da webcam, para a cama. Se deita, seu corpo mais uma vez está nu, dessa ela não se importa com os olhares. “Vocês tem tesão agora? É sexy ver o corpo de uma menina morta?” sorte dela não ser eu, ou descobriria que sim, e vários já mergulhavam seus corpos em êxtase com a cena. Escoria, nenhum digno da minha atenção.

Outro sujeito captura meu olhar, o perpetrador. Ele não assiste a transmissão, apesar das centenas de notificações que pipocam em suas redes sociais. Está ocupado. Seu corpo está envolto em outro, um de meus olhos vê as costas de uma jovem, tatuagens coloridas marcam sua pele branca, vira seu rosto para o meu olhar e sorri, seu êxtase é real, talvez não fosse tão intenso se soubesse com quem estava de fato. Ele finge gostar, não há prazer das linhas perfeitas do corpo dela, ou em suas expressões de desejo, nem mesmo no contato quente dos seus sexos. Seu prazer está no vídeo que grava, no pensamento dele sendo colocado online, nos comentários desejosos de outros homens, invejosos que gostariam de estar em seu lugar, neles tocando seus pênis enquanto assistem ao vídeo, só com essa imagem em sua mente era capaz de alcançar o clímax.

A dormência do corpo atinge a mente, que mergulha para um mundo de torpor e vazio. Mas o organismo reage, um surto de adrenalina lança um choque em seu cérebro. Junto com o choque vem a dúvida. Tudo, que era tão grande começa a ficar menor, as críticas, a humilhação, as pessoas e seus olhares se tornam formigas. E como uma explosão, uma frase surge obliterando o que antes era certeza, “não vale a pena”. “Eles não valem a pena.” sua vida é mais preciosa que isso. E é aqui que fica pior. Ela quer levantar, ir ao banheiro vomitar a droga e torcer para que o estômago não tenha digerido. Mas seu corpo não se mexe. Quer gritar, pedir ajuda, contar a onde está, mas da sua boca só saem balbucios. Está presa em um corpo inerte, de piloto passou a passageira da própria morte.

Sua mãe assiste, lágrimas nos olhos, gritos desesperados. Para os outros, lágrimas de dor de uma mãe que perde a filha. Eles a retiram do lugar, a cena é forte demais, a dor, grande demais. Eu sei a verdade, eu vejo a verdade. Seu choro é de vergonha e decepção. Não bastasse a humilhação do sexo exposto. A família falada dentro da congregação. Ela, a mãe ruim que não soube educar, criou uma rameira que deitou-se com um homem fora do matrimônio, que se deixou filmar no ato. Agora uma suicida, condenada ao inferno. Condenando a própria mãe a uma vida de penitência na tentativa aliviar o sofrimento de sua alma pecaminosa. Seu único pensamento era “Como ela pode ter feito isso comigo?”.

Uma lágrima solitária escorre do seu rosto de menina, paralisado, impotente. A aceitação da inevitabilidade do fato.

A conclusão é que não há lição, não há mensagem, é apenas uma menina morta.

Em vão.

Idealizador do Escambau, escritor, estudante de História e fã de cultura pop. Somente após vinte e seis anos criou coragem para colocar para fora suas aspirações literárias.

LEIA TAMBÉM:

Wilson Júnior

Idealizador do Escambau, escritor, estudante de História e fã de cultura pop. Somente após vinte e seis anos criou coragem para colocar para fora suas aspirações literárias.

  • Camila o a

    Adorei! Muito atual e envolvente. Uma personificação do olhar observador…. boa!

    • Wilson Júnior

      É uma criatura de mundo de fantasia, mas dei uma nova roupagem!

  • Fabiano Sorbara

    Hoje estava no ônibus e um pensamento veio a cabeça, lembrei de um amigo, que recentemente se suicidou, quais as razões que levam uma pessoa a cometer tal ato? São milhares de fatores! A única conclusão que cheguei é que não devemos julgar e condenar!
    Agora em relação ao seu texto creio ser um dos mais profundos que você escreveu, dos que eu li, é impactante e necessário para reflexões.
    Na Internet existem coisas maravilhosas e outras pertubadoras, como essa apresentada por você. Vi um caso muito semelhante ao ocorrido no seu conto, o que me deixar perplexo é a crueldade, o lado da podridão humana. As pessoas usam os meios virtuais para por em prática a sordidez sem limites, simplesmente porque acham que não serão encontradas ao estarem através de um PC ou celular!
    Parabéns por trazer esse assunto para a discussão do grupo, só fico chateado com a falta de engajamento da maioria na realização das leituras, tem muita coisa excelente aqui, abraços!

    • Wilson Júnior

      Valeu pelo cometário Fabiano!

  • José Fábio Silva

    Ótimo texto. Gostei da maneira como o narrador emite o seu juízo sobre quem observa, mas não arbitra sobre nada. O livre arbítrio torna-se uma maldição entre seres que tem como principal característica aprender (quando aprendem) como os seus erros. Excelente abordagem de um tema tão delicado. Parabéns.

    • Wilson Júnior

      Valeu!

  • Juliana Oliveira

    Muito bom! A realidade não dita.

    • Wilson Júnior

      Brigadão!

  • Ana Nogueira

    Oiii. Achei o conto muito bom. O que mais gostei foi como o observador conseguia ver além do que aparentava, como no caso da mãe da menina, que chorava não pela filha, mas pelo que a sociedade iria comentar e ainda mais profundo e impactante os últimos pensamentos da menina quando ela se arrepende mas já era tarde demais. Foi interessante como o conto mostrou diferentes pontos da mesma história digamos assim. Como se fosse um olhar sobre todos que levaram a menina até aquela situação, pois além da menina que morreu, vimos o menino que gostava dela e nunca disse, o culpado que fazia uma nova vítima e a mãe. Parabéns!