Esquerda, carnaval e fantasia

Todo o debate da esquerda contemporânea virou uma conversa de tia carola.

“Oh, Juninho, isso é tão feio!”

E o Juninho ignora solenemente o que diz a tia. Mas as outras tias, ah, as outras tias, quando sentadas na calçada, debatem entre si sobre o que seus sobrinhos não devem fazer e de como os aconselham a evitar o mal. E, claro, ressaltam como elas mesmas não fazem as tais coisas feias.

E haja fofoca, dedos apontados, moral & cívica, etiqueta e novela da Globo. Depois, voltam às suas casas com aquela certeza inconsciente e satisfeita de que amanhã terão novas conversas sobre os mesmos assuntos.

Enquanto isso, os tios ensinam seus Juninhos a beber cachaça.

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Este ano teremos eleições para presidente. Todo mundo sabe o que quer a direita e quais são os seus líderes. Sobre a esquerda, alguém arrisca? Caros, vamos ser sinceros: a esquerda morreu na Bolívia; o que restou foi uma foto estilizada na camiseta da Luana Piovani (que agora vive em Portugal, obrigada).

As mesmas pessoas que boicotam empresa de sabonete por conta de comercial consomem alegremente produtos fabricados com mão de obra escrava da China. Aliás, a China entendeu antes de todo mundo que esse papo marxista é coisa de revolucionário burguês. Estrutura e superestrutura? O povo quer é vender.

“Ah, mas tudo é da China”.

Sim, tudo é Made in China, inclusive as mudanças. Vamos melhorar as condições de vida dos marginalizados, né? E olha só que coisa! Todas, absolutamente todas as soluções são baseadas em consumo. Não importa se Fulano virou um subproduto da Indústria Cultural, moldado por produtores para fazer o mais do mesmo pasteurizado de sempre. Fulano saiu da povo, é empoderado, representa.

Sabe a tia carola? Ela diz que Fulano venceu na vida.

***

O Capital já tratou de absorver as tais pautas de esquerda faz tempo.

“E isso é ruim? Ao menos a vida das pessoas pode melhorar um pouco”.

O rock talvez seja o caso mais claro de quando o Capital absorveu algo. Dizem por aí que está morto.

Tudo bem, a tia nunca gostou de rock, mesmo.

***

Este texto está assim fragmentado por dois motivos: (i) quero ser pós-moderno; (ii) é carnaval. Não vou me explicar a respeito do primeiro motivo, pois a última coisa que eu quero é pós-modernista me explicando sobre o que é ser pós-moderno. Eu passo.

Sobre o carnaval, na verdade só estou escrevendo qualquer coisa agora, com a cabeça explodindo de ressaca, por conta da polêmica acerca do desfile da Paraíso do Tuiti (sei lá como escreve, não vou pesquisar; sudestino não se dá ao trabalho de saber a diferença de sotaque entre um cearense e um pernambucano e eu vou me incomodar com Tutiu ou Tuti ou Tuiuti?). Diga-se de passagem, até pensei em escrever sobre as fantasias proibidas pela turma do Catraca Livre, mas, quando li que estavam sugerindo às pessoas se fantasiarem de planta ou de sol (!), cheguei à conclusão que seria impossível fazer piada melhor.

Podem ter certeza que Juninho não foi ao baile da escola com um cocar na cabeça. Foi todo de branco, fantasiado de nuvem.

Mais tarde, ganhou um presente do tio: a Playboy da Índia Fitness. São os tios que ainda mantém vivas as bancas de revista. “Pra pajé nenhum botar defeito”, dizia a chamada da capa.


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Editor geral do Escambau, administrador por profissão e escritor por necessidade. Escreve às terças-feiras.

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Editor geral do Escambau, administrador por profissão e escritor por necessidade. Escreve às terças-feiras.

  • Gina Eugênia Girão

    Que a esquerda faz praticamente tudo que a direita sonha, ah, isso eu já sabia. Mas adorei a revolta de não ir pesquisar o nome certo da escola de samba. De atitude em atitude, pode ser que a gente se livre de certos hábitos politicamente corretos que nos mantém presos ao status quo e impedem outros olhares, horizontes, fantasias. Sobre a Bolívia: o que aconteceu lá, hein?